De R$ 3 bi a R$ 36 bi: o plano de Gabriel Padula para fazer da Everblue uma potência do crédito estruturado

Reconhecido pela Forbes Under 30, o CEO da Everblue aposta nos FIDCs como motor de uma transformação estrutural no financiamento da indústria brasileira

Aos olhos de quem observa o mercado de crédito privado de fora, R$ 36 bilhões podem parecer uma aposta ousada para uma gestora que acumula R$ 3 bilhões em crédito concedido ao longo de toda sua trajetória. Para Gabriel Padula, CEO e cofundador do Grupo Everblue e um dos eleitos da lista Forbes Under 30, os números não são audácia: são consequência. Consequência de um movimento que, segundo ele, ainda está no começo.

A tese é direta: o crédito bancário tradicional encareceu, ficou mais lento e menos acessível. A Selic em 15% ao ano fechou portas nos balanços dos grandes bancos, mas abriu janelas para estruturas privadas que conseguem entregar liquidez com velocidade, governança e aderência ao fluxo real das empresas. É nesse espaço que os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) prosperaram, e é nele que a Everblue pretende construir sua posição de destaque.

O contexto que criou a oportunidade

O Brasil entrou em 2026 com uma combinação incomum de pressão e oportunidade no crédito corporativo. Com o custo do capital bancário nas alturas, mais de 60% das indústrias relatam maior dificuldade de acesso a financiamento em comparação ao período anterior ao ciclo de alta de juros. Ao mesmo tempo, a indústria de fundos encerrou 2025 com captação líquida de R$ 88,4 bilhões, dos quais R$ 84,3 bilhões concentrados em renda fixa.

No crédito estruturado, os FIDCs acumulam patrimônio próximo de R$ 800 bilhões, consolidando-se como uma das principais fontes de liquidez para a economia real. O segmento avança em velocidade muito superior ao crédito bancário corporativo, redesenhando o mapa de funding industrial no país. Os chamados FIDCs multiclasse e estruturas classificadas como “outros” saltaram 22,75% em patrimônio entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, atingindo R$ 110,8 bilhões, segundo dados de mercado.

Para Padula, esse não é um fenômeno conjuntural. “A transformação do mercado de crédito deixou de ser circunstancial e se tornou estrutural. A indústria brasileira opera hoje em um ambiente em que o crédito bancário tradicional se tornou menos atrativo, mais caro e mais lento. Isso abriu espaço para soluções privadas que entregam liquidez com velocidade, governança e aderência ao fluxo real das empresas”, afirma o executivo.

O que é a Everblue e como ela opera

Fundado por Gabriel Padula em São Paulo, o Grupo Everblue se posiciona como um ecossistema de crédito corporativo voltado para o setor produtivo. Com mais de 7 mil operações realizadas, a companhia combina soluções financeiras estruturadas a uma plataforma tecnológica que integra pagamentos, cobrança, conciliação e gestão de caixa em um único ambiente.

O modelo opera com lastreamento em recebíveis, contratos e fluxos recorrentes das empresas, o que permite estruturar operações alinhadas ao ciclo industrial real. A lógica de cessão de crédito via FIDC permite ao originador acessar liquidez sem depender de processos bancários longos, enquanto o fundo oferece ao investidor exposição a carteiras de crédito corporativo com governança e transparência regulatória.

Em 2026, a Everblue prevê desembolsar R$ 1,8 bilhão em crédito direcionado exclusivamente à indústria, dentro de uma estratégia de crescimento acelerado que tem como horizonte os R$ 36 bilhões em volume total de crédito, conforme revelado por Padula à Forbes.

“As indústrias não buscam apenas acesso a recursos. Buscam previsibilidade de caixa, integração tecnológica e inteligência financeira. Quando conectamos crédito estruturado, serviços bancários e conciliação em um único ambiente, reduzimos fricção operacional e liberamos o empresário para focar na produção, na eficiência e na expansão”, explica o CEO.

Na prática: crédito que mantém fábricas funcionando

O impacto do modelo não é apenas financeiro: é operacional. Padula relata casos em que indústrias conseguiram manter linhas de produção ativas mesmo após a redução de limites em bancos tradicionais. “Temos casos em que indústrias conseguiram manter linhas de produção ativas mesmo após a redução de limites em bancos tradicionais, utilizando operações estruturadas através dos FIDCs e antecipação de recebíveis para liberar caixa, pagar fornecedores e sustentar o ritmo operacional. Em um exemplo recente, uma empresa industrial com múltiplas plantas utilizou crédito estruturado para financiar sua cadeia de suprimentos, evitando interrupções na produção e preservando contratos estratégicos”, descreve.

A demanda por financiamento à cadeia de fornecedores (supply chain finance) e antecipação de recebíveis vem crescendo de forma consistente, especialmente entre empresas que precisam preservar capital de giro sem comprometer margens. Nesses casos, o crédito estruturado tem se mostrado o fator decisivo entre manter a fábrica em funcionamento pleno ou desacelerar investimentos.

Analistas do setor avaliam que o movimento protagonizado por gestoras como a Everblue representa a consolidação de uma nova fase para os FIDCs: não mais como alternativa ao crédito bancário, mas como infraestrutura permanente de financiamento para a economia produtiva. “Os FIDCs deixaram de ser instrumentos de nicho e passaram a ocupar um papel central na cadeia de crédito corporativo brasileiro. O crescimento do patrimônio do setor reflete menos uma moda e mais uma migração estrutural das empresas para fontes de financiamento mais eficientes”, avalia um gestor de crédito privado ouvido pelo FIDCNEWS.

O caminho até R$ 36 bilhões

A meta de R$ 36 bilhões não tem prazo explícito, mas tem lógica clara. A Everblue parte de um modelo já testado em mais de 7 mil operações, com R$ 3 bilhões acumulados em crédito concedido, e aposta na escala para se tornar um dos maiores provedores de crédito industrial estruturado do Brasil.

O reconhecimento pela Forbes Under 30 não é apenas uma distinção pessoal para Padula: sinaliza que o mercado e a mídia especializada passaram a enxergar os FIDCs como veículo de inovação financeira, e não apenas como estrutura de securitização para investidores institucionais. A democratização do acesso às cotas sênior e subordinadas dos FIDCs, impulsionada pela Resolução CVM 175, criou uma nova base de investidores de varejo qualificados que amplia o funding disponível para estruturas como a da Everblue.

O desafio, a partir daqui, é de escala com qualidade. Com juros ainda elevados e uma carteira diversificada por setores (agronegócio, varejo, indústria, corporate e fintechs), a gestão do risco de crédito e da PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) nas carteiras cedidas será o principal termômetro da solidez do modelo.

O que monitorar

O crescimento da Everblue deve ser acompanhado em ao menos três frentes: o ritmo de captação dos FIDCs sob gestão, a qualidade dos cedentes e a inadimplência das carteiras de recebíveis industriais. Em um cenário de Selic ainda em patamar restritivo, a demanda por crédito estruturado permanece aquecida, mas o ciclo econômico de 2026, marcado por eleições e incertezas fiscais, exige que originadores e gestores mantenham governança e critérios de originação rigorosos.

Para Padula e a Everblue, a narrativa dos FIDCs como começo, e não como pico, pode muito bem ser a mais importante aposta do mercado de crédito privado brasileiro neste momento.


Fontes: Forbes Brasil | BM&C News | Capital Aberto | Investing.com

Compartilhe este artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *