Marcelo Augusto dos Anjos acumula um histórico que poucos gestores no Brasil podem apresentar: mais de 1,2 milhão por cento de rentabilidade no fundo Concordia TI desde 2007, atravessando crises como o Joesley Day em 2017 e a pandemia em 2020 sem abandonar a mesma estrutura mental e operacional. Em entrevista ao podcast Market Makers, ele abriu o modelo de operação que sustenta esse desempenho fora da curva, com detalhes sobre gestão de risco, psicologia do trader e a leitura da curva de juros como principal instrumento de decisão.
Todo dia é dia zero: o controle emocional como ativo de longo prazo
O primeiro princípio que organiza a operação de Marcelo é também o mais contraintuitivo para quem vem de uma cultura de celebração de resultados: o passado não vale nada na abertura do pregão.
“O trader não é vencedor, ele foi vencedor”, afirma o gestor. A frase condensa uma visão rigorosa sobre o papel do ego na gestão de recursos. Ter dobrado o patrimônio em momentos de estresse de mercado não confere nenhum crédito para a operação do dia seguinte. O que conta é a eficiência operacional do momento presente, o rigor lógico aplicado ao trade específico que está na mesa.
Na prática, isso significa que nem a euforia de um ciclo vitorioso nem a frustração de uma sequência de perdas deve alterar a mecânica da decisão. A rentabilidade de longo prazo, segundo Marcelo, é construída justamente na consistência desse estado operacional, não na genialidade de apostas pontuais.
Para gestores de FIDC e crédito estruturado, a lição é diretamente aplicável: a qualidade da análise de uma nova cessão não pode ser inflada pelo bom desempenho da carteira anterior nem contaminada por uma inadimplência recente. Cada ativo precisa ser analisado com o mesmo rigor de sempre.
A soberba como risco não precificado
Questionado sobre o maior defeito que um gestor ou trader pode ter, Marcelo foi direto: a soberba. Mais do que um traço de personalidade, ele descreve o comportamento arrogante como um fator de risco operacional concreto.
O exemplo que usa é ilustrativo: colocar ordens gigantes para “intimidar” outros participantes do mercado, para mostrar que está certo contra o consenso. Além de ser uma estratégia tecnicamente equivocada em mercados líquidos, é um sinal claro de que o ego substituiu a lógica no processo de decisão.
“A operação de alta performance deve ser fria, silenciosa e disciplinada”, resume o gestor. Para ele, o mercado pune a vaidade com velocidade e precisão. Quem opera para aparecer, mais cedo ou mais tarde, opera errado.
Apostas assimétricas: como os “pózinhos” multiplicam 100 vezes em crises
Uma das estratégias mais reveladas por Marcelo é o uso sistemático de opções muito fora do dinheiro, os chamados “pózinhos”, como instrumento de exposição a cenários extremos na curva de juros.
A lógica é assimétrica por construção: o fundo aceita pagar prêmios pequenos, da ordem de 1% a 1,5% do Patrimônio Líquido, de forma recorrente, para manter exposição a movimentos abruptos e direcionais nos juros, sejam cortes inesperados ou altas bruscas. Quando o cenário extremo se materializa, o retorno sobre esses instrumentos pode multiplicar de 20 a 100 vezes o valor investido.
Foi exatamente essa estrutura que transformou o Joesley Day em 2017 e o choque de volatilidade da pandemia em 2020 em eventos de geração de alfa para o Concordia TI. Enquanto a maior parte do mercado sofria com o estresse, o fundo estava posicionado com custo baixo em instrumentos que se valorizaram de forma exponencial.
A estratégia exige disciplina para suportar as perdas repetidas dos prêmios pagos nos meses sem evento. É uma apostas que funciona no longo prazo, não no curto, e que demanda uma convicção estrutural sobre as ineficiências da curva de juros brasileira.
A regra dos 20%: o limite que protege o capital de cisnes negros
Por mais arrojado que seja o perfil operacional do fundo nas arbitragens, o Concordia TI tem uma regra inegociável de controle de risco: a exposição em margem de derivativos na B3 jamais pode ultrapassar 20% do Patrimônio Líquido.
Essa limitação sistêmica não é negociável, independentemente da convicção que Marcelo tenha em uma determinada posição. A função da regra é estrutural: garantir que um “cisne negro”, um evento de cauda que o modelo não antecipou, não seja capaz de destruir o capital principal do fundo.
Para o universo de FIDCs e fundos de crédito, o paralelo é direto: limites de concentração por cedente, por setor e por tipo de ativo cumprem o mesmo papel. A regra não existe para as situações normais; ela existe para as situações que ninguém prevê.
Curva de DI, não gráfico: a ineficiência como matéria-prima
Marcelo revela uma convicção que quebra o discurso comum de boa parte dos analistas de mercado: ele não usa análise técnica. Suportes, resistências, RSI e demais indicadores gráficos não fazem parte da sua caixa de ferramentas.
O foco está inteiramente nas ineficiências reais de fluxo e fundamentos. Seu processo consiste em mapear a curva de DI (Depósitos Interfinanceiros), avaliar os resultados dos leilões do Tesouro Nacional, acompanhar o prêmio de risco embutido nos vértices e identificar distorções matemáticas, os chamados “dentes” na curva, que revelam desequilíbrios entre oferta e demanda de papéis em prazos específicos.
É sobre essas distorções que ele monta as posições de arbitragem do fundo. A premissa é simples: o mercado comete erros de precificação localizados, especialmente em momentos de estresse ou mudança de expectativa macroeconômica. Identificar esses erros antes do restante do mercado corrigi-los é a fonte estrutural de retorno do Concordia TI.
Escala e liquidez: operar R$ 500 milhões é outro jogo
À medida que o patrimônio do fundo cresceu, a dinâmica operacional mudou. Marcelo é preciso ao descrever a diferença entre operar R$ 5 milhões e operar R$ 500 milhões: são jogos completamente distintos.
No segundo caso, o gestor não pode mais entrar e sair de posições com agilidade sem afetar o próprio preço que está negociando. Construir uma posição relevante em um ativo de liquidez mais restrita exige paciência, execução distribuída ao longo de dias e uma leitura clara da profundidade do book naquele vértice específico.
Essa limitação não reduz o retorno potencial, mas altera a mecânica de execução. O gestor grande opera com menor velocidade e maior precisão de timing, e precisa incorporar o impacto do próprio volume nas suas estimativas de custo de montagem e desmontagem das posições.
O que o Concordia TI ensina ao mercado de crédito estruturado
O desempenho de mais de 1,2 milhão por cento em quase duas décadas não é produto de sorte nem de uma aposta excepcional. É o resultado composto de centenas de decisões tomadas com o mesmo processo: identificação de ineficiência, montagem de posição assimétrica, controle rigoroso do risco e eliminação sistemática do ego da equação.
Para gestores de FIDC, o modelo oferece ao menos três lições exportáveis: a importância de ter regras de limite de perda inegociáveis, o valor das apostas assimétricas de baixo custo em cenários de estresse, e a necessidade de manter a qualidade analítica constante, independentemente do histórico recente de acertos ou erros.
O mercado, como Marcelo repete, cobra o preço da soberba com juros.
Fontes: Market Makers Podcast, entrevista com Marcelo Augusto dos Anjos Categoria sugerida: Análises / Mercado Tags sugeridas: Concordia TI, gestão de fundos, curva de DI, arbitragem, opções, gestão de risco, Market Makers, crédito privado, derivativos







