O otimismo da população com o Novo Desenrola Brasil supera a aprovação do próprio governo entre os endividados. Para gestores de FIDC e crédito privado, o programa abre uma janela de melhora na qualidade das carteiras, com a ressalva de que o efeito pode ser temporário, como foi em 2023.
Pesquisa Datafolha revela alcance e expectativa do programa
Uma pesquisa Datafolha, realizada com 2.004 pessoas em 139 municípios nos dias 12 e 13 de maio, aponta que 68% dos brasileiros endividados acreditam que serão beneficiados pessoalmente pelo Desenrola 2, o Novo Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas do governo Lula.
O percentual chama atenção por superar com folga os indicadores de aprovação do próprio governo: apenas 31% dos endividados avaliam a gestão federal como ótima ou boa, e 46% aprovam o trabalho do presidente Lula. O otimismo com o programa, portanto, transcende o alinhamento político.
Quando a pergunta se desloca do impacto pessoal para o efeito macroeconômico, o otimismo sobe: 82% dos endividados e 77% da população geral veem impacto positivo do Desenrola 2 na economia brasileira.
O recorte demográfico também é relevante para quem opera no mercado de crédito ao consumidor. O otimismo é maior entre jovens de 25 a 34 anos (60% esperam benefício pessoal), nordestinos (62%) e eleitores de Lula. Entre pessoas com mais de 60 anos, o percentual cai para 42%, e entre quem ganha até dois salários mínimos chega a 61%. É exatamente esse perfil, jovem, de baixa renda, nas regiões Norte e Nordeste, que concentra grande parte dos recebíveis de consumo cedidos a FIDCs de varejo e crédito pessoal.
O tamanho do problema que o programa precisa resolver
O Desenrola 2 chega em um momento de deterioração expressiva da qualidade do crédito no Brasil. A inadimplência da carteira de crédito voltou a crescer ao longo de 2025, com destaque para o segmento de pessoas físicas, cuja taxa atingiu 5,42% em fevereiro de 2026, patamar significativamente superior ao observado no período de lançamento do programa anterior.
Os números do Serasa pintam um cenário ainda mais amplo: em março de 2026, o volume total de dívidas em atraso alcançou cerca de R$ 557 bilhões, distribuídos em aproximadamente 338 milhões de registros, envolvendo cerca de 83 milhões de inadimplentes no Brasil.
Para os FIDCs com carteiras de crédito ao consumidor, esse cenário se traduz em pressão sobre as cotas subordinadas e aumento nas provisões para devedores duvidosos (PDD). A expectativa é que a renegociação promovida pelo programa reduza esse estoque de inadimplência, ao menos no curto prazo.
Estrutura do programa: o que muda em relação ao Desenrola 1
O Novo Desenrola Brasil é voltado a quem ganha até 5 salários mínimos (R$ 8.105), tem dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026 com atraso entre 90 dias e 2 anos, e só abrange dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal (CDC). O limite de renegociação é de R$ 15 mil por pessoa por banco ou instituição financeira.
O programa prevê descontos de até 90% nas dívidas. O Fundo Garantidor de Operações (FGO) será uma das fontes de recursos, com a União podendo aportar até R$ 5 bilhões para fortalecer o fundo. Também serão utilizados recursos financeiros esquecidos em contas bancárias e não reclamados até o final de 2024.
Para dívidas de até R$ 100, a instituição financeira participante será obrigada a retirar a inadimplência do cliente de birôs de crédito independentemente de pagamento ou acordo. Como contrapartida, o devedor deverá concordar com o bloqueio de seu CPF em sites de apostas online pelo prazo de 12 meses.
Análise: potencial real, mas dúvidas sobre sustentabilidade
O mercado de crédito privado acompanha o programa com cautela e com memória. Estudo da consultoria MB Associados aplicou quatro modelos econométricos distintos para avaliar o Desenrola 1 e concluiu que o programa produziu efeitos pontuais na carteira, sem alterar os determinantes estruturais do endividamento, como nível de juros, comprometimento da renda e acesso ao crédito rotativo de alto custo. O efeito se dissipou em 18 meses, com a inadimplência retornando e até superando os níveis pré-programa.
A FIEMG alerta que a recorrência de programas de renegociação pode enfraquecer a cultura de pagamento e gerar incentivos distorcidos, privilegiando maus pagadores e afetando a precificação de risco pelas instituições financeiras, o que tende a distorcer a alocação de crédito e pode resultar em restrições futuras à oferta de financiamento.
Por outro lado, as projeções de curto prazo são favoráveis. Análise preliminar da XP Investimentos estima que, até o final de 2026, o grau de endividamento das famílias poderá recuar em 2,3 pontos percentuais e a taxa de inadimplência poderá declinar em até 0,8 p.p. Os modelos também apontam para um acréscimo de 0,20 a 0,25 p.p. sobre o crescimento anual do consumo das famílias, o que se traduziria em cerca de 0,15 p.p. a mais na variação do PIB de 2026.
Para os gestores de FIDCs com carteiras de crédito ao consumidor, especialmente nos segmentos de CDC, crédito pessoal e crédito consignado privado, essa melhora pontual na inadimplência representa uma janela relevante para recomposição de cotas e melhora dos índices de cobertura, desde que o portfólio esteja bem posicionado para capturar essa recuperação.
Perspectivas: o que monitorar nos próximos meses
O sucesso do Desenrola 2 como vetor de melhora na qualidade das carteiras de FIDC dependerá de alguns fatores críticos: a adesão efetiva dos originadores e dos tomadores ao programa, o comportamento da Selic, que ainda pressiona o custo do crédito e o nível de comprometimento de renda das famílias, e a capacidade do governo de associar o programa a iniciativas mais estruturais de educação financeira.
O dado do Datafolha sobre o conhecimento do programa é um sinal positivo: 62% dos brasileiros já tomaram conhecimento do Novo Desenrola Brasil, o que indica boa capilaridade de comunicação. Se a adesão converter essa expectativa em renegociações efetivas, o mercado de crédito privado deverá sentir os efeitos já no terceiro trimestre de 2026, com reflexo nos relatórios de PDD dos FIDCs de varejo e na performance das cotas sênior desses fundos.
O monitoramento dos dados de inadimplência do Banco Central nas próximas divulgações mensais, bem como dos relatórios de gestão dos principais FIDCs de crédito ao consumidor, será essencial para separar o otimismo da pesquisa Datafolha do impacto real na qualidade das carteiras.
Fontes: Datafolha, XP Investimentos, FIEMG, Ministério da Fazenda, Agência Senado, MB Associados Categoria sugerida: Mercado / Análises Tags sugeridas: FIDC, inadimplência, Desenrola 2, crédito ao consumidor, crédito privado, renegociação de dívidas, PDD, Datafolha, Novo Desenrola Brasil













