Com mais de 10 mil operações realizadas e um portfólio que movimentou mais de R$ 6 bilhões em transações nos últimos 12 meses, o CEO do Grupo Everblue aposta que juros altos, bancos mais retraídos e demanda crescente por capital de giro vão continuar acelerando o avanço dos fundos de crédito no Brasil.
Quatro bilhões de razões para acreditar no ciclo
Gabriel Padula tinha 21 anos e ainda cursava a faculdade quando fundou o que viria a ser o Grupo Everblue. O ponto de partida foi uma securitizadora. A estrutura foi evoluindo até chegar ao modelo atual, centrado nos FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), instrumento que Padula defende com convicção. “A minha vida é o nosso negócio, sempre foi. A gente não tem uma exclusão entre CPF e CNPJ aqui”, afirma o executivo, hoje com 30 anos.
A trajetória rendeu a ele um espaço na lista Forbes Under 30 de 2025, quando o grupo já acumulava R$ 3 bilhões em crédito concedido. Um ano depois, o número subiu. A companhia se aproxima agora de R$ 4 bilhões em crédito concedido ao longo de sua história, e o ritmo atual dá a dimensão da aceleração: “Hoje a gente opera por volta de mais ou menos R$ 110 milhões de crédito por mês”, diz Padula. Nos últimos 12 meses, o portfólio movimentou mais de R$ 6 bilhões em transações. Ao todo, já são mais de 10 mil operações realizadas.
Um ecossistema, não apenas uma gestora
Padula faz questão de afastar qualquer enquadramento simples. A Everblue não se define como uma gestora tradicional. “Tem uma gestora, tem uma registradora, tem um consultor e tem um originador. São frentes que prestam diferentes serviços para um ecossistema de FIDC”, disse o executivo. Esse modelo integrado é o que, na avaliação dele, diferencia a empresa no mercado e permite escalar com governança.
Embora atue de forma multisetorial, cerca de 70% da carteira da Everblue está ligada à indústria. A escolha não é aleatória. “Hoje 24% do PIB do Brasil está ligado à indústria. E 11 milhões dos empregos formais do Brasil estão ligados à indústria”, destaca Padula, ao justificar o foco do grupo no setor. Para o executivo, a Selic elevada funciona como um acelerador da demanda por crédito estruturado. “O mercado empresarial no Brasil vem sofrendo um grande desafio, principalmente pelo custo. A Selic hoje é algo que realmente desenvolve uma tremenda ruptura no crescimento dos negócios brasileiros”, afirmou.
O argumento dos FIDCs frente aos bancos
Para Padula, a principal vantagem dos fundos de crédito em relação às instituições tradicionais está na velocidade e no entendimento do negócio do cliente. “Os FIDCs conseguem ser muito mais ágeis, ter condições tão próximas quanto os bancos têm, mas trazendo entendimento do setor e do negócio que o cliente busca”, disse. “A maior dor do mercado industrial e empresarial hoje está ligada à agilidade.”
Os dados da ANBIMA reforçam o argumento. Em março de 2026, os FIDCs registraram captação líquida positiva de R$ 2,4 bilhões, em um cenário ainda marcado por juros elevados e busca crescente por alternativas ao crédito bancário tradicional. No mesmo período, os fundos multimercados tiveram saída líquida de R$ 3,1 bilhões, enquanto os fundos de ações registraram resgates de R$ 1,4 bilhão. O mercado está votando com o dinheiro.
“Hoje a gente tem quase R$ 1 trilhão de ativos sob gestão no mercado de FIDCs, mas nós vemos que é um nicho que está só no começo”, afirmou Padula.
Everblue Pay e a aposta além do crédito
Nos últimos meses, a companhia ampliou sua estratégia para além da concessão de crédito. A Everblue lançou a Everblue Pay, plataforma que reúne serviços como Pix, TED, conta, câmbio, cartões corporativos e gestão financeira em um único ambiente. O objetivo, segundo Padula, é aproximar os fundos da rotina operacional das empresas.
“O FIDC só era lembrado no dia a dia do crédito. Então a gente quis gerar recorrência, ter proximidade. E, para ter proximidade, nós precisamos ter serviço. A gente vem trazendo mais serviços e indo muito além do crédito”, afirmou.
A companhia também projeta investir R$ 10 milhões no desenvolvimento de uma plataforma proprietária de gestão e administração de fundos, mirando capacidade de até R$ 3 bilhões em crédito por ano. A projeção mais recente do grupo é ainda mais ambiciosa: viabilizar mais R$ 10 bilhões para a indústria nos próximos três anos.
Expansão regional e time de 60 pessoas
A expansão ganhou tração fora da Avenida Paulista. A empresa abriu novas frentes comerciais em Porto Alegre, Salvador e Belo Horizonte, além de ampliar a atuação em Goiás e em cidades do interior paulista: Ribeirão Preto, Jundiaí, Sorocaba e São José dos Campos. Hoje, a Everblue soma quase 60 colaboradores.
A estratégia regional passa pela contratação de profissionais vindos de grandes bancos para estruturar operações locais antes da abertura de escritórios físicos. “Hoje a nossa posição comercial não necessariamente necessita de um ponto físico. A gente vai no Itaú, por exemplo, e busca o melhor gerente daquela região para montar a base comercial da Everblue no estado”, disse o executivo.
O que vem a seguir
O conjunto de movimentos, de uma plataforma de pagamentos ao investimento em tecnologia proprietária, aponta para uma Everblue que quer ser lembrada não só no momento do crédito, mas no dia a dia financeiro das empresas que atende. Para o mercado de FIDCs como um todo, Padula vê um setor que ainda tem muito espaço para crescer, mesmo com quase R$ 1 trilhão em ativos sob gestão. Com juros elevados, bancos seletivos e uma indústria sedenta por capital de giro, o palco está montado. “Os FIDCs estão só no começo”, resume o executivo.
Fonte: Forbes Brasil | Autora original: Camila Pati | Publicado em 18 de maio de 2026













