O início do ciclo de queda dos juros é celebrado, mas o setor produtivo avisa que o estrago no caixa já está feito. A demora no repasse das taxas exige que o mercado de crédito atue como “balão de oxigénio” para as empresas.
O Banco Central atendeu aos apelos do mercado e iniciou o tão aguardado corte na taxa Selic, mas a receção na economia real esteve longe de ser eufórica. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) foi taxativa: a direção é correta, mas a magnitude e o momento (“timing”) são insuficientes para reverter os prejuízos acumulados pelo setor produtivo ao longo dos últimos meses de juros asfixiantes.
A frustração da indústria tem base na matemática financeira pura. O custo de capital no Brasil permaneceu punitivo por tempo demais. Projetos de expansão (CAPEX) foram engavetados e o capital de giro foi inteiramente consumido para pagar o serviço da dívida. Um corte pontual na Selic hoje demora, em média, de 6 a 9 meses para ser sentido na ponta (no barateamento efetivo do crédito bancário), tempo que muitas fábricas simplesmente não têm.
O “Delay” da Política Monetária e o Sufoco no Caixa
O principal alerta da CNI é sobre a inércia do crédito. Quando o Copom corta a Selic, a tesouraria dos bancos não repassa imediatamente essa queda para o spread cobrado na ponta, pois o risco de inadimplência do sistema continua alto (como vimos nos dados recentes da Serasa).
- O Resultado: A indústria continuará a pagar caro para se financiar no curto prazo, lidando simultaneamente com uma procura ainda tímida, já que as famílias também estão estranguladas pelas dívidas.
Implicações para o Mercado de Crédito (FIDCs)
Para a indústria de direitos creditórios, a nota da CNI consolida o cenário de “risco e oportunidade” para o primeiro semestre:
- A Vez do Refinanciamento Sustentável: A indústria tradicional bancária vai demorar a ajustar as taxas. Os FIDCs têm a agilidade necessária para entrar agora, oferecendo antecipação de duplicatas com taxas já precificando a curva futura de juros em queda. É a grande oportunidade para roubar bons clientes (cedentes) dos grandes bancos.
- Risco na Cadeia de Fornecedores: Se a CNI avisa que a indústria está no prejuízo, o risco de crédito do sacado (a grande indústria que deve pagar a fatura) exige atenção. É preciso monitorar os prazos médios de pagamento. Indústrias sufocadas tendem a alongar os prazos com os fornecedores unilateralmente para preservar o caixa.
- Rentabilidade do Fundo: O corte da Selic inicia a trajetória de redução do CDI. Embora a rentabilidade absoluta nominal do fundo vá cair marginalmente, o prémio de risco cobrado nas operações deve manter o ganho real atrativo, especialmente se a inflação continuar controlada.
“A CNI verbalizou o que as planilhas de risco já mostravam: o juro caiu, mas a conta do tempo em que ele ficou alto vence agora”, analisa o nosso especialista do FIDCnews. “Para gerir fundos neste cenário, não basta olhar a Selic de hoje; é preciso entender se o caixa da empresa suporta a travessia até que o crédito fique estruturalmente mais barato.”
Em suma, o remédio começou a ser administrado, mas o paciente (a indústria) ainda passará um bom tempo na Unidade de Cuidados Intensivos, dependendo do crédito estruturado para manter as máquinas a funcionar.
Fonte utilizada:
- InfoMoney: “CNI: Corte da Selic é correto, mas insuficiente para reverter prejuízos à economia”











