A “tempestade perfeita” de clima adverso, preços em queda e juros altos cobra a conta. O número histórico de RJs limpa o mercado dos produtores superalavancados e exige uma guinada na forma como os FIDCs e Fiagros analisam garantias.
Os números consolidados de 2025 trouxeram um banho de água fria para quem ainda acreditava que o agronegócio era blindado contra crises. Segundo a Serasa Experian, o setor registrou o assustador recorde de 1.990 pedidos de Recuperação Judicial (RJ) no ano passado.
Para quem respira o mercado de crédito, especialmente no Centro-Oeste, esse número não é exatamente uma surpresa, mas a confirmação de uma “ressaca” anunciada. O boom das commodities entre 2020 e 2022 criou uma sensação de invencibilidade. Muitos produtores alavancaram-se pesado para comprar terras e maquinário com o dinheiro caro da Selic a dois dígitos, contando que a soja a R$ 200 a saca pagaria a conta para sempre. A realidade de 2025, com quebra de safra, soja caindo em Chicago e juros nas alturas, implodiu essa matemática.
A Anatomia do Calote no Campo
O perfil dessa enxurrada de RJs mostra que o problema está na gestão, não necessariamente no negócio agrícola em si.
- O “Aventureiro” Sente o Golpe: Quem tomou crédito de curto prazo para financiar ativos de longuíssimo prazo (terras) ficou sem caixa.
- O Risco da CPR: A Cédula de Produto Rural, nosso principal lastro, está a passar pelo seu maior teste de estresse jurídico. Muitos produtores estão a tentar colocar CPRs físicas (que deveriam ser intocáveis por representarem venda antecipada) dentro do guarda-chuva da RJ, gerando uma insegurança jurídica que trava as esteiras de crédito.
A Bússola para os FIDCs e Fiagros
Um mercado com quase 2.000 RJs no agro muda completamente o jogo para a originação e gestão de fundos de crédito:
- “Flight to Quality” (Fuga para a Qualidade): O dinheiro secou para o produtor médio desorganizado. A liquidez dos fundos vai concentrar-se exclusivamente em produtores com governança impecável, seguro rural e histórico de produtividade comprovado. O crédito virou um artigo de luxo.
- Diligência Agronômica e Financeira: Olhar apenas para o Serasa e para o balanço do contador já não serve. A análise de crédito agora exige saber se o produtor fez hedge (travou preço) e qual é o nível de adoção de tecnologia na lavoura. Quem não trava custo não tem previsibilidade de caixa para pagar a duplicata.
- A Oportunidade no “Special Situations”: Para FIDCs especializados em crédito estressado (NPL), este é o melhor momento da década. Comprar dívidas boas de produtores que tropeçaram no fluxo de caixa, mas que têm excelentes terras como garantia, permite renegociações com deságios agressivos e recuperações altamente rentáveis.
“O recorde de RJs é uma limpeza de mercado necessária”, é a leitura fria que precisamos ter. A euforia foi embora e levou os ineficientes junto. O agro continuará a ser o motor do Brasil, mas o financiamento dessa máquina agora exige um escrutínio cirúrgico. Financiar a safra virou um jogo de xadrez, não de dados.
Fonte utilizada:
- InfoMoney: “Agro atinge recorde de 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, diz Serasa”













