Juros altos anulam o efeito positivo da geração de empregos e elevam o calote a níveis históricos. Enquanto o brasileiro trabalha para pagar juros, o risco nas carteiras de consumo dispara, abrindo uma avenida para o mercado de dívidas stressadas.
Os manuais de economia ensinam que o emprego é o melhor remédio contra a inadimplência. No entanto, o Brasil de 2026 desafia essa lógica. Dados divulgados pela Serasa mostram que, mesmo com o desemprego no menor patamar da série histórica (5,1%), o número de inadimplentes atingiu o recorde absoluto de 81,2 milhões de pessoas.
A explicação para esse fenómeno reside na “corrosão financeira”. O brasileiro tem emprego e rendimento, mas o custo da sua dívida (especialmente no cartão de crédito e cheque especial) cresceu mais rápido do que o seu salário. A manutenção da Selic em patamares restritivos ao longo de 2025 criou uma bola de neve de juros que agora sufoca o orçamento das famílias, transformando trabalhadores ativos em maus pagadores.
O Diagnóstico: Renda Comprometida, Não Ausente
Diferente de crises anteriores, onde o calote vinha da falta de salário, hoje ele vem da insolvência.
- Rotativo e Cheque Especial: Estas linhas, com juros proibitivos, foram as vilãs. O trabalhador usou o crédito para complementar a renda corroída pela inflação de serviços, e agora não consegue sair do ciclo vicioso.
- O “Novo” Inadimplente: Não é o desempregado, mas sim o assalariado que teve de escolher entre comer ou pagar a fatura do cartão.
Implicações para o Mercado de FIDCs (Risco e Oportunidade)
Para a indústria de fundos de direitos creditórios, este recorde de 81 milhões de inadimplentes desenha dois cenários distintos:
- Sinal Amarelo no Varejo (FIDC de Crédito Consignado/Pessoal):
- A capacidade de pagamento do tomador pessoa física está no limite. Fundos que operam com crédito pessoal sem garantia (unsecured) precisam de rever as suas réguas de concessão. O facto de o sujeito estar empregado já não é garantia suficiente de que a parcela caberá no bolso.
- A “Era de Ouro” do NPL (Non-Performing Loans):
- Nunca houve tanta “matéria-prima” para FIDCs de recuperação de crédito. Com os balanços dos bancos e varejistas carregados de dívidas podres, a venda de carteiras de inadimplentes deve acelerar.
- A Oportunidade: Comprar essa dívida com deságio agressivo e usar a tecnologia para renegociar. Como o devedor tem emprego (renda), a probabilidade de recuperação (recovery) de uma dívida renegociada com desconto é alta.
“O dado da Serasa é um convite à gestão de passivos”, analisa o nosso especialista do FIDCnews. “O mercado de crédito novo vai travar pela aversão ao risco, mas o mercado de renegociação vai explodir. O dinheiro inteligente em 2026 não está em emprestar mais, mas em ajudar o brasileiro a limpar o nome.”
Em suma, o recorde de inadimplência com pleno emprego é a prova definitiva de que o custo do dinheiro no Brasil atingiu um teto insustentável para a economia real.
Fonte utilizada:
- Folha de S.Paulo: “Mesmo com desemprego em baixa, juros altos levam inadimplência a recordes”













