Primeiro FIDC para o varejo flerta com R$ 1 bilhão de patrimônio e o segmento cresce 43% em 2026

Delano Macêdo (esquerda) e Ricardo Binelli, sócios-diretores da Solis Investimentos, gestora que lançou o primeiro FIDC aberto ao varejo (Foto: Divulgação)

O Solis Capital Antares Pioneiro está às portas de uma marca que parecia distante quando foi lançado, em junho de 2024: R$ 1 bilhão em patrimônio líquido. A trajetória do fundo, ao mesmo tempo, sintetiza a transformação que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs, vêm passando desde a abertura do produto ao investidor comum.

A abertura regulatória que mudou o jogo

Durante mais de duas décadas, os FIDCs foram território exclusivo de investidores qualificados e institucionais. A lógica era simples: trata-se de um instrumento de crédito estruturado com complexidade operacional acima da média, envolvendo cessão de recebíveis, estrutura de cotas sênior e subordinada, mecanismos de subordinação e PDD (Provisão para Devedores Duvidosos). O acesso a investidores de varejo estava, até então, vedado por regulação.

A Resolução CVM nº 175, em vigor desde 2023, mudou esse quadro ao estabelecer as condições para que FIDCs pudessem ser ofertados ao público em geral. A norma criou novas exigências de transparência, governança e responsabilização dos gestores e abriu caminho para que a indústria começasse a construir produtos adaptados ao perfil e às expectativas do novo cotista.

Pioneiro em nome e em fato

O Solis Capital Antares Pioneiro foi criado em junho de 2024 e, como o nome sugere, foi o primeiro FIDC montado para o varejo. Em menos de dois anos, o fundo já soma mais de 15.352 cotistas e um patrimônio de R$ 979 milhões, crescimento de 147% em relação aos R$ 394,9 milhões registrados em março do ano anterior.

A estrutura do fundo foi pensada para oferecer diversificação e proteção ao investidor comum. O Solis Pioneiro aplica em 48 outros FIDCs, sendo 40% deles compostos por recebíveis multicedente e multisacado e 21% de consignado público. A carteira mantém uma provisão para perdas média de 8,5% e uma subordinação de 33%, ou seja, um terço do patrimônio está exposto ao risco de crédito antes que o investidor de varejo seja atingido. A carência de 60 dias para resgate alinha os prazos do produto com o ciclo natural dos recebíveis que compõem a carteira.

Um mercado de R$ 2,7 bilhões em expansão

A trajetória do Pioneiro não é um caso isolado. No total, os FIDCs de varejo somam R$ 2,7 bilhões em patrimônio, crescimento de 43% apenas em 2026, segundo dados da Uqbar e da Anbima.

Outros fundos relevantes nesse segmento incluem o Jive BossaNova90, que começou como carteira multimercado de crédito privado para qualificados e se tornou um FIDC para o público em geral em fevereiro de 2025, registrando crescimento de 38,8% até março de 2026. A Valora Investimentos opera o Valora Vanguard, com patrimônio de R$ 352 milhões e crescimento de 46,4% somente neste ano.

A Valora, que atua com FIDCs desde sua fundação em 2005, passou a oferecer uma carteira voltada ao varejo a partir de 2025. O movimento da gestora reforça que o segmento começa a atrair players consolidados, e não apenas novos entrantes em busca de espaço.

Análise: o que explica o crescimento?

Três fatores estruturais explicam a rápida expansão dos FIDCs de varejo. O primeiro é o próprio marco regulatório: a CVM 175 criou as condições legais e operacionais para a oferta, e as gestoras foram rápidas em aproveitar a janela.

O segundo é o cenário de juros. Em ambiente de Selic elevada, os FIDCs entregam rentabilidades expressivas com menor volatilidade do que fundos de renda variável, o que os torna naturalmente atraentes para o perfil conservador-moderado do pequeno investidor brasileiro. A rentabilidade média do Solis Pioneiro tem ficado em torno de CDI mais 1,0% a 1,3% ao mês.

O terceiro fator é a distribuição. O Solis Pioneiro é distribuído pelo BTG e também pela XP, o que amplia significativamente o alcance junto ao varejo. O acesso por grandes plataformas é determinante para escalar captação com o investidor comum, que tende a aplicar via assessor ou através do aplicativo de investimentos que já utiliza.

Perspectivas: o caminho para o trilhão começa aqui

Os FIDCs como um todo já somam R$ 800 bilhões em patrimônio, com perspectivas de atingir R$ 1 trilhão ainda em 2026. A abertura ao varejo é um vetor complementar nessa equação: amplia a base de captação, democratiza o acesso ao crédito estruturado e diversifica o passivo das gestoras, reduzindo a dependência de grandes alocadores institucionais.

Para o investidor, o produto ainda exige atenção. Diferentemente da renda fixa bancária tradicional, os FIDCs não contam com a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). A liquidez é mais restrita, com janelas de resgate que variam de 30 a 90 dias, e o risco de crédito dos recebíveis subjacentes é real. Gestão ativa, diversificação de cedentes e estruturas robustas de subordinação são os principais mecanismos de proteção.

O marco de R$ 1 bilhão do Solis Pioneiro, quando alcançado, será mais do que um número: será o símbolo da consolidação de um mercado que, há dois anos, ainda era restrito a poucos. O varejo chegou aos FIDCs e o setor nunca mais será o mesmo.

Fontes: InfoMoney, EmpreendaSC (com base em dados Uqbar/Anbima), Capital Aberto, E-Investidor/Estadão Categoria sugerida: Mercado Tags sugeridas: FIDC, varejo, Solis Investimentos, Antares Pioneiro, Resolução CVM 175, crédito privado, Jive, Valora, securitização, captação

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