O amadurecimento dos FIDCs e a consolidação do mercado de capitais na economia real

A coluna Techpreneurs da Época Negócios jogou luz sobre um fenômeno que o mercado de crédito estruturado vem construindo em silêncio há anos: o FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) deixou de ser um instrumento de nicho para se tornar um dos pilares do sistema de financiamento da economia real brasileira. O movimento, acelerado pela Resolução CVM 175, pelo aperto do crédito bancário e pelos juros elevados, está redesenhando o mapa do capital no Brasil.

Os números de 2025 são inequívocos. O patrimônio líquido da indústria de FIDCs saltou de R$ 545 bilhões em 2024 para mais de R$ 810 bilhões em 2025, alta de 47% em apenas um ano. Em algumas projeções, o setor pode cruzar a marca de R$ 1 trilhão já nos primeiros meses de 2026, em um crescimento que não tem paralelo em nenhuma outra classe de ativos da indústria brasileira de fundos. Para se ter dimensão, os FIDCs já representam cerca de 6,9% do mercado total de fundos, participação superior à das carteiras de ações.

Mas o que está por trás desse crescimento não é apenas a atração de capital, e sim uma transformação qualitativa no produto, na governança e no perfil de quem investe.

De produto especializado a pilar da carteira institucional

Por anos, o FIDC foi visto como um instrumento para investidores qualificados dispostos a aceitar complexidade em troca de retorno. A Resolução CVM 175, que entrou em vigor com escalonamento progressivo a partir de 2023 e consolidou regras para toda a indústria de fundos, foi o catalisador de uma virada. Ao padronizar estruturas, aumentar exigências de transparência e governança e abrir as cotas sênior para investidores de varejo, a norma ampliou a base de potenciais alocadores de forma significativa.

O reflexo veio rápido. O número de contas de investidores em FIDCs dobrou em 2025, passando de 172,2 mil em janeiro para 331,4 mil em dezembro, uma expansão de 92,5% em doze meses. Não se trata apenas de varejo chegando ao produto: investidores institucionais, gestoras internacionais e family offices também intensificaram suas alocações, atraídos por spreads atrativos sobre o CDI e por estruturas de proteção mais claras e auditáveis.

“O investidor passou a enxergar os fundos estruturados não apenas como uma alternativa de diversificação, mas como um mecanismo eficiente de geração de liquidez e de acesso à economia real. Com a Selic elevada, os FIDCs se tornaram uma ponte natural entre empresas que precisam de capital e investidores que buscam retorno acima do CDI, mas com estrutura de proteção adequada”, afirma Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, gestora que movimentou R$ 2,1 bilhões em FIDCs em 2025.

A observação de Assis aponta para um paradoxo positivo: o mesmo ambiente de juros altos que prejudicou outras classes de ativos, como os fundos multimercados, funcionou como propulsor dos FIDCs. Com a Selic acima de 14% ao ano e o crédito bancário caro e seletivo, empresas de médio e grande porte passaram a enxergar a securitização de recebíveis como alternativa de funding mais competitiva que as linhas tradicionais dos bancos.

A desbancarização do crédito como tendência estrutural

O crescimento dos FIDCs está inserido em uma transformação mais ampla do sistema financeiro nacional. Atualmente, cerca de 76% do crédito no Brasil ainda circula dentro dos bancos, mas essa concentração vem cedendo. Estudos projetam que a participação do mercado de capitais no crédito nacional pode alcançar 37% até 2029 e superar o sistema bancário em 2034, quando aproximadamente 51% do crédito deverá estar fora dos bancos.

Os FIDCs são uma das locomotivas desse processo. A captação líquida da categoria somou R$ 57,6 bilhões em 2025, segundo a ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Nas emissões primárias, os FIDCs registraram R$ 90,8 bilhões em novas ofertas, crescimento de 9,5% sobre o ano anterior, representando 42% de todo o volume de ofertas de renda fixa do período.

O avanço do crédito alternativo também está associado ao amadurecimento de outros instrumentos do mercado de capitais, como debêntures, CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). Mas são os FIDCs que têm apresentado a curva de crescimento mais agressiva, graças à sua capacidade de atender empresas de diferentes tamanhos e setores, de varejo e agronegócio a saúde, transporte e fintechs de crédito.

“O crescimento dos FIDCs acompanha o aumento da demanda por alternativas de financiamento, a busca por originação especializada e a maior capacidade dos fundos de atender empresas de diferentes tamanhos e setores”, explica Leandro Turaça, sócio-gestor da Ouro Preto Investimentos.

Estruturas mais sofisticadas, originação mais diversificada

A maturação do mercado não se expressa apenas em volume, mas na qualidade e complexidade das estruturas. Os FIDCs que cresceram de forma mais consistente em 2025 são aqueles com estratégias de originação diversificada, gestores com capacidade de subscrição criteriosa de risco e carteiras pulverizadas, que distribuem a exposição entre centenas ou milhares de cedentes.

Fundos com carteiras concentradas em poucos originadores, estruturas com subordinação insuficiente ou sem mecanismos robustos de covenants seguem sendo os pontos de atenção dos analistas. O amadurecimento do setor não elimina o risco de crédito, ele exige que esse risco seja precificado, monitorado e gerido com rigor crescente.

“Estamos vivendo a profissionalização definitiva do setor. Os FIDCs deixaram de ser um nicho para se tornar um pilar relevante de funding para empresas de médio e grande porte. A demanda por produtos com lastro real e governança clara tende a crescer ainda mais em 2026, à medida que os juros comecem a ceder”, afirma Gustavo Assis, da Asset Bank.

A digitalização da originação também acelerou esse processo. Novas plataformas de securitização aproximam empresas e investidores com eficiência operacional antes impossível, reduzindo o custo de estruturação e democratizando o acesso ao produto para originadores de menor porte, como pequenas e médias empresas que antes não tinham escala para emitir um FIDC próprio.

2026: o ano da consolidação como classe principal

O cenário para 2026 combina elementos favoráveis e desafios que vão testar a maturidade do setor. A perspectiva de início de ciclo de queda da Selic, ainda que gradual, deve ampliar a demanda por produtos que ofereçam retorno real diferenciado. O cenário eleitoral e a incerteza fiscal doméstica, por outro lado, tendem a pressionar os spreads e manter o apetite por estruturas de proteção mais robustas.

A CVM também deu seu passo mais recente em 2026: editou norma com ajustes pontuais no Anexo II da Resolução 175, reforçando a trajetória de aperfeiçoamento contínuo do arcabouço regulatório dos FIDCs. O sinal é positivo: o regulador acompanha o crescimento da categoria com aprimoramentos que buscam equilíbrio entre proteção ao investidor e viabilidade operacional para os gestores.

Para gestores e investidores institucionais, a pergunta não é mais se os FIDCs pertencem à carteira, mas qual o tamanho adequado da alocação e como selecionar as estruturas com melhor relação risco-retorno. O mercado que a Época Negócios descreveu como em amadurecimento é, na verdade, um mercado que já cresceu, que exige análise sofisticada e que, ao mesmo tempo, abre oportunidades consistentes para quem sabe navegar por suas camadas de complexidade.

“A indústria se tornou mais madura. 2026 deve ser o ano em que o investidor passa a enxergar os FIDCs como peça estrutural da carteira, e não mais como um produto de nicho. Escala, governança e diversificação serão os principais motores”, conclui Assis.

Fontes:
Época Negócios / Techpreneurs (https://epocanegocios.globo.com/colunas/techpreneurs/coluna/2026/05/o-amadurecimento-dos-fidcs-a-consolidacao-do-mercado-de-capitais-na-economia-real.ghtml)
BM&C News (https://bmcnews.com.br/economia/industria-de-fidcs-deve-superar-r-1-trilhao-em-2026-projeta-gestora/) | Brazil Economy (https://brazileconomy.com.br/financas/2025/12/com-recorde-de-captacao-e-patrimonio-fdics-consolidam-protagonismo-em-2025/) | ANBIMA | CVM Resolução 175 | Ouro Preto Investimentos | Asset Bank

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