Fintech brasileira aposta em um nicho historicamente subatendido: empresas fornecedoras do setor público que esperam meses para receber do governo
A Ótmow, fintech especializada em antecipação de recebíveis públicos, anunciou esta semana a conclusão de um aporte de R$ 25 milhões liderado pela Credit Saison, instituição financeira japonesa com histórico de investimentos em crédito estruturado no Brasil. Paralelamente ao aporte, a fintech estruturou um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) de R$ 35 milhões, voltado exclusivamente à cessão de recebíveis originados em contratos com a administração pública, em setores como saúde, infraestrutura, tecnologia e educação.
A operação combina dois instrumentos que, juntos, sinalizam uma estratégia de escala: o equity entra para reforçar o balanço e a capacidade operacional da fintech, enquanto o FIDC cria um veículo de funding off-balance que permite crescimento de carteira sem consumo proporcional de capital próprio, modelo consagrado no mercado de crédito estruturado brasileiro.
O mercado-alvo: por que recebíveis públicos atraem estruturas de FIDC
O segmento de recebíveis oriundos de contratos públicos ocupa uma posição peculiar no espectro do risco de crédito brasileiro. O devedor final, seja um município, estado ou órgão federal, apresenta, em tese, risco de inadimplência inferior ao de empresas privadas ou pessoas físicas, uma vez que entes públicos raramente deixam de pagar obrigações contratuais formalizadas. O problema crônico não é o calote, mas o prazo: fornecedores de governos, especialmente pequenas e médias empresas, frequentemente aguardam entre 60 e 180 dias para receber pelo serviço já prestado ou pelo produto já entregue.
Esse descasamento de caixa gera uma demanda estrutural por antecipação de recebíveis. É justamente nesse vácuo que fintechs como a Ótmow operam. Em vez de esperar o ente público liquidar a nota fiscal, a empresa cedente vende o direito creditório à fintech (ou ao FIDC por ela estruturado) com deságio, obtendo liquidez imediata. O investidor do fundo, por sua vez, recebe a diferença entre o valor desembolsado e o valor de face do recebível como remuneração.
O mercado endereçável é expressivo: segundo dados do Tesouro Nacional e do SIAFI (Sistema Integrado de Administração Financeira), os pagamentos da União a fornecedores chegam à casa de centenas de bilhões de reais por ano. Quando se somam estados e municípios, o volume potencial de recebíveis elegíveis para antecipação é ainda maior, com a ressalva de que a qualidade dos devedores varia significativamente conforme o porte e a saúde fiscal do ente.
A estrutura da operação: equity + FIDC como alavanca de crescimento
O modelo operacional adotado pela Ótmow replica uma lógica bem-estabelecida no ecossistema de fintechs de crédito: a empresa usa capital próprio (reforçado pelo aporte da Credit Saison) para originar e estruturar operações, enquanto o FIDC funciona como veículo de captação de recursos de investidores institucionais que buscam exposição ao ativo.
| Componente | Detalhe |
|---|---|
| Aporte equity | R$ 25 milhões (Credit Saison) |
| FIDC estruturado | R$ 35 milhões |
| Ativo-alvo | Recebíveis de contratos públicos |
| Setores atendidos | Saúde, infraestrutura, tecnologia, educação |
Fonte: Ótmow / CNN Brasil
“Existe uma demanda estrutural por liquidez nesse segmento, que historicamente foi pouco atendido”, afirmou Rafael Lima, CEO da Ótmow, ao anunciar a operação. A afirmação sintetiza o argumento central da tese de investimento: o mercado existe, é grande, e os incumbentes bancários tradicionais nunca priorizaram esse nicho com a agilidade e a escala que ele demanda.
Para os cotistas do FIDC, a atratividade reside na combinação de ativo com fluxo de caixa relativamente previsível, considerando o devedor governamental, e em taxas de desconto que tendem a ser mais generosas do que as praticadas em recebíveis corporativos de empresas investment grade. Em um cenário de juros altos como o atual, a busca por esse tipo de operação estruturada, com prêmio de risco calibrado e mitigação parcial pelo perfil do devedor, ganha força junto a gestoras e family offices.
Credit Saison no Brasil: um histórico de apostas em crédito estruturado
A participação da Credit Saison não é uma novidade isolada no mercado brasileiro. A instituição japonesa tem construído ao longo dos últimos anos uma presença crescente no ecossistema de crédito estruturado do país, com participações em FIDCs e parcerias com fintechs que atuam fora do perímetro dos grandes bancos.
Em operação anterior de repercussão no mercado, a Credit Saison integrou, ao lado de BTG Pactual, Capitânia e Itaú, um FIDC estruturado com o objetivo de transformar grandes empresas em originadoras de crédito para suas próprias cadeias produtivas, modelo que ganhou tração em segmentos como agronegócio e varejo. A presença da instituição japonesa nessas estruturas sinaliza um apetite deliberado por operações de nicho com perfil de risco diferenciado do crédito bancário convencional.
O investimento na Ótmow segue essa mesma lógica: apostar em originadores especializados, com profundo conhecimento do ativo que cessam, como caminho para construir exposição a recebíveis brasileiros de forma eficiente. Para a Credit Saison, o Brasil continua sendo uma das principais apostas em mercados emergentes no segmento de crédito ao consumo e a empresas.
O que os números ainda não contam e o que o mercado deveria monitorar
A operação tem méritos claros: tamanho relevante para uma fintech em crescimento, parceiro de capital com track record no Brasil e estrutura de FIDC que sinaliza ambição de escala. Mas alguns pontos permanecem opacos na comunicação divulgada, e merecem atenção de quem avalia o setor.
O primeiro é a composição do portfólio. Recebíveis públicos não são um bloco homogêneo de risco: contratos federais com grandes autarquias têm perfil distinto de notas fiscais emitidas contra prefeituras de municípios em situação fiscal precária. A Ótmow não divulgou, até o momento, o mix de devedores finais da carteira: se predominam contratos federais, estaduais ou municipais, e qual a concentração por ente.
O segundo ponto é o histórico de inadimplência. Mesmo recebíveis com devedor público apresentam riscos operacionais: glosas em notas fiscais, contestações de contratos e atrasos sistêmicos em municípios com desequilíbrio fiscal. Sem dados de desempenho histórico da carteira, é difícil calibrar o risco real frente ao prêmio oferecido pelo fundo.
Por fim, o tamanho do FIDC (R$ 35 milhões) é ainda modesto para o mercado de FIDCs brasileiro, onde fundos acima de R$ 500 milhões são comuns entre gestoras especializadas. O valor inicial pode ser lido como uma estrutura de prova de conceito, projetada para testar a aceitação de investidores institucionais antes de uma expansão mais agressiva de captação.
“Fundos de recebíveis públicos têm apelo real para investidores que buscam prêmio com previsibilidade de fluxo, mas a diligência precisa ir além do perfil do devedor e olhar para a cadeia operacional da originadora: como ela origina, como precifica o risco e como está estruturada a subordinação das cotas”, avalia um gestor de crédito estruturado ouvido pelo FIDCNEWS.
Perspectivas: próximos passos e o que acompanhar
Com R$ 60 milhões em recursos mobilizados (R$ 25 mi em equity + R$ 35 mi via FIDC), a Ótmow tem condições de ampliar de forma significativa sua carteira de antecipação nos próximos meses. O ritmo de crescimento dependerá da velocidade de originação, ou seja, da capacidade da fintech de onboard novos cedentes, validar contratos públicos elegíveis e processar operações dentro de parâmetros de risco aceitáveis.
O mercado de crédito estruturado no Brasil passa por um momento de maturidade crescente, impulsionado pela Resolução CVM 175, que modernizou o arcabouço regulatório dos FIICs e FIDCs em 2023. Nesse contexto, fintechs que dominam nichos de originação específicos, como recebíveis públicos, agro, saúde ou precatórios, têm se tornado alvos de interesse tanto de gestoras que querem diversificar suas plataformas quanto de investidores estrangeiros como a Credit Saison, que buscam exposição ao crédito brasileiro de forma seletiva.
Os próximos relatórios de captação e o eventual registro do FIDC na CVM serão os termômetros mais confiáveis para avaliar se a tese da Ótmow encontra tração no mercado institucional e se o discurso de previsibilidade dos recebíveis públicos se sustenta na prática, carteira a carteira.
Fontes: Let’s Money | CNN Brasil













