Com 106 rodadas registradas no período, o menor número em cinco anos, o mercado de fintechs fechou 2025 com US$ 2,77 bilhões captados. O volume se sustentou pelo protagonismo crescente dos FIDCs nas operações de maior porte.
Cenário: menos rodadas, mesmo volume
O ano de 2025 marcou uma inflexão no ecossistema de fintechs brasileiro. O número de rodadas caiu para 106, mínimo da série histórica iniciada em 2021, quando foram registradas 244 operações. Ainda assim, o volume total captado permaneceu em US$ 2,77 bilhões, o que indica uma mudança qualitativa no perfil das operações: menos rodadas, mas de maior porte médio.
Os dados são do relatório Panorama Regional das Fintechs, produzido pela Sling Hub em parceria com o Torq, hub de inovação e Corporate Venture Capital da Evertec. O levantamento consolida operações de equity, dívida e FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) sem separação por modalidade, mas os números revelam com clareza a direção do mercado.
“O mercado está mais seletivo, concentrado e priorizando operações capazes de gerar escala sustentável”, avaliou João Ventura, fundador e CEO da Sling Hub.
O fato central: FIDC supera equity nas maiores operações
Das cinco maiores rodadas registradas no Sudeste em 2025, quatro foram estruturadas via FIDC. O dado é relevante porque inverte uma lógica histórica do ecossistema de startups, no qual o equity sempre dominou as captações de destaque.
A CloudWalk, fintech de meios de pagamento, liderou o ranking com folga. A empresa estruturou dois FIDCs no período: um de US$ 788 milhões e outro de US$ 549 milhões, somando mais de US$ 1,3 bilhão em funding lastreado em recebíveis. Os dois maiores volumes do ano, portanto, foram operações de securitização, não rodadas tradicionais com investidores de venture capital.
A Creditas, plataforma de crédito com garantia, combinou as duas modalidades. A empresa levantou US$ 108 milhões em rodada Series G com participação do AndBank e captou US$ 143 milhões adicionais via FIDC. A Pravaler completou o top 5 do Sudeste com um FIDC de US$ 106 milhões.
Para Thiago Iglesias, head do Torq e gerente de inovação da Evertec, o movimento sinaliza amadurecimento do setor. “O setor começa a adotar estruturas financeiras mais sofisticadas e sustentáveis, reduzindo a dependência exclusiva do equity tradicional e ampliando as possibilidades de funding para fintechs em estágios mais avançados”, disse.
Do ponto de vista operacional, a lógica é direta: uma fintech de crédito que origina recebíveis pode estruturar um FIDC para antecipar esse fluxo junto a investidores institucionais, sem diluir a participação dos fundadores. O FIDC passa a funcionar como um instrumento de alavancagem da operação de crédito, não apenas como fonte de capital de risco.
Distribuição regional: Sudeste concentra, Nordeste surpreende
A concentração geográfica seguiu o padrão histórico. O Sudeste respondeu por 91 rodadas e US$ 2,44 bilhões captados, representando 88,2% do volume total e 85,9% das operações. Das 2.083 fintechs ativas mapeadas no Brasil, 1.498 estão na região.
O Nordeste, porém, chamou atenção pela mediana. Com apenas quatro rodadas e US$ 265 milhões captados, a região registrou a maior mediana do país por operação: US$ 50,5 milhões. O destaque foi a iCred, fintech sediada em Sergipe, que realizou dois FIDCs no período: um de US$ 215 milhões e outro de US$ 50,5 milhões. O instrumento, portanto, não foi exclusividade das grandes operações do eixo Rio-São Paulo.
O Sul registrou dez rodadas e US$ 55,7 milhões captados. A Makasi, do Paraná, levantou US$ 21,1 milhões via FIDC, e a Asaas, de Santa Catarina, captou US$ 18,5 milhões pela mesma estrutura. O Centro-Oeste teve uma rodada de US$ 5,46 milhões, e o Norte não registrou investimentos no período.
| Região | Rodadas | Volume captado |
|---|---|---|
| Sudeste | 91 | US$ 2,44 bi (88,2%) |
| Nordeste | 4 | US$ 265 mi |
| Sul | 10 | US$ 55,7 mi |
| Centro-Oeste | 1 | US$ 5,46 mi |
| Norte | 0 | sem registros |
Dados de 2025, contemplam equity, dívida e FIDCs. Fonte: Sling Hub e Torq.
O que observar: crescimento do FIDC e o teste da inadimplência
O movimento das fintechs em direção ao FIDC está alinhado a uma tendência mais ampla do mercado de capitais. O crescimento de 122% dos FIDCs no mercado de capitais ao longo de 2025 reflete, pelo lado das empresas, exatamente o que o levantamento da Sling Hub registra nas captações.
A substituição do equity pelo FIDC como instrumento dominante nas maiores captações muda a estrutura de incentivos do ecossistema. Do lado positivo, founders acessam capital sem diluição imediata e com estrutura jurídica consolidada e bem regulada pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Do lado do risco, a empresa assume obrigações de pagamento em prazo determinado, e o fundo de recebíveis que lastreia a operação precisa performar dentro dos parâmetros acordados com os cotistas.
A pergunta central para os próximos ciclos é objetiva: o crescimento do volume de crédito originado pelas fintechs, que alimenta os recebíveis cedidos aos FIDCs, consegue manter ritmo compatível com o serviço dessas dívidas em cenários de inadimplência mais alta? A gestão da PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) e a qualidade da carteira cedida passam a ser variáveis críticas para a sustentabilidade do modelo.
O mercado sinaliza maturidade ao adotar estruturas mais sofisticadas de funding. O próximo teste será na capacidade das originadoras de manter a qualidade dos créditos que sustentam essas estruturas.
Fonte: Let’s Money, com base no relatório Panorama Regional das Fintechs (Sling Hub e Torq/Evertec). Publicado originalmente em 31/05/2026.













