Onda de recuperações judiciais coloca 87 FIDCs no mapa do risco, mas estrutura dos fundos segura o tranco

Levantamento da Chimera Capital revela que R$ 750 milhões em patrimônio de FIDCs estão expostos a R$ 8,1 bilhões em reestruturações. Os dados mostram concentração preocupante em casos específicos, mas pulverização contém o estrago no agregado

O ritmo de deterioração do crédito corporativo no Brasil em 2026 começou a deixar rastros visíveis dentro da indústria de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios). Um mapeamento feito por Rafael Nogueira, gestor de crédito da Chimera Capital, especializada em créditos estressados, rastreou 59 recuperações judiciais anunciadas entre março e maio deste ano. Em 15 delas, ao menos um FIDC aparece na lista de credores. Somando todos os fundos afetados direta ou indiretamente, chega-se a 87 FIDCs com alguma exposição a reestruturações que totalizam R$ 8,1 bilhões em passivos. O patrimônio líquido desses fundos comprometidos some R$ 750 milhões, cerca de 9,3% do total sob gestão.

Pulverização protege o conjunto, mas há exceções que preocupam

A média esconde disparidades importantes. Considerando o universo das 59 RJs analisadas, as operações de FIDCs representam, em média, apenas 2,88% da dívida total de cada empresa. É um percentual compatível com a lógica de diversificação que caracteriza os fundos de recebíveis bem geridos. Dos 87 FIDCs mapeados, 54 possuem créditos concursais, ou seja, estão submetidos ao rito da recuperação judicial e dependem do plano aprovado em assembleia para receber seus créditos. Os demais contam com estruturas de proteção que podem isolar o impacto.

O problema está nos casos fora da curva. Na recuperação judicial da Brinquedos Estrela, cujo passivo total soma R$ 112 milhões, 25 FIDCs figuram entre os maiores credores e respondem, juntos, por mais de 50% da dívida da empresa. Na reestruturação da Provider Soluções, os fundos de recebíveis somam 58% do passivo financeiro identificado. São situações em que o FIDC deixou de ser uma fonte complementar de capital e passou a ser, na prática, o principal financiador de uma empresa já em colapso.

A Kora Saúde, com R$ 2,77 bilhões em reestruturação, tem dois FIDCs com exposição relevante: o G5 FIDC, com R$ 221,3 milhões, e o LCM Odyssey M2 FIDC, com R$ 121,9 milhões. A Root Brasil Agronegócio, com dívida de R$ 143,2 milhões, reúne sete FIDCs diferentes entre seus credores. O American Bank (Aspen), presente na RJ da Brinquedos Estrela, carrega R$ 19,1 milhões nessa operação, enquanto o ADGM tem R$ 9,1 milhões na mesma empresa.

Quando o FIDC vira o último recurso do devedor

Há um padrão que os especialistas já conhecem, mas que agora ganha evidência empírica: empresas que acumulam uma dezena ou mais de FIDCs em sua estrutura de capital costumam estar em estágio avançado de fragilidade financeira. Nogueira, da Chimera, aponta que esse acúmulo funciona como sinal de alerta: a cessão de recebíveis se torna a última alternativa de captação antes da insolvência formal. Max Mustrangi, da consultoria de reestruturação Excellance, define bem o papel que o FIDC assume nesses casos: atua “como um cheque especial” quando as demais portas de crédito já se fecharam.

Essa dinâmica cria um problema estrutural para os gestores que não é fácil de resolver. Michel Rubin, responsável pela área de crédito da M8, admite que a gestora consegue controlar a exposição interna de seus próprios fundos a um mesmo cedente, mas não tem como saber se aquela empresa também tomou crédito de outros FIDCs no mercado. “Não conseguimos ter todas as informações”, diz Rubin. O risco de sobreposição de exposições permanece um ponto cego do setor.

63 mil cotistas de varejo no meio do caminho

O debate sobre RJs em FIDCs ganhou uma dimensão nova a partir de outubro de 2023, quando a Resolução 175 da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) abriu certas classes de FIDCs ao investidor de varejo. Antes, o produto era restrito a quem tinha mais de R$ 1 milhão disponível para investir. Hoje, segundo dados da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) de março de 2026, 63 mil cotistas pertencem ao segmento varejista.

Isso muda o perfil de quem arca com as consequências de uma inadimplência ou de um processo de recuperação judicial dentro de um FIDC. O investidor qualificado tem mais ferramentas para avaliar e absorver o risco. O cotista de varejo, em geral, não tem. Para Roberto Halpern, CEO da Cupertino Capital, presente na RJ da Provider com R$ 9 milhões (equivalente a 5% da dívida da empresa), o provisionamento exigido quando um cedente entra em recuperação judicial é um impacto real, mas não necessariamente definitivo: “Não entramos na operação para enfrentar uma recuperação judicial e perder dinheiro. Nessas situações, os fundos precisam fazer provisionamento, o que é ruim. Mas não é necessariamente o fim da linha.”

Como os gestores estão respondendo

A resposta mais comum entre as casas consultadas é o endurecimento dos critérios de originação. Delano Macedo, da Solis, descreve o gatilho que já barra novas operações: “Existe muita demanda do produto pelos investidores, e muitas empresas buscam dinheiro emprestado com os fundos. Quando vemos que a empresa já tem 15 FIDCs em sua estrutura, não entramos.” O raciocínio é direto: muitos FIDCs em um mesmo cedente sinalizam dependência excessiva desse canal de captação, o que historicamente antecede pedidos de recuperação judicial.

O caso da M8 ilustra como a estrutura interna de um FIDC bem montado pode conter o impacto mesmo quando o cedente quebra. A gestora tem três fundos expostos à RJ da Brinquedos Estrela, com PL combinado de R$ 1,5 bilhão. Os recebíveis vinculados à empresa somam R$ 8,1 milhões, apenas 0,5% desse patrimônio. Desse total, R$ 7,1 milhões contam com alienação fiduciária como garantia, mecanismo que não é atingido pela recuperação judicial. O valor efetivamente em risco recua para R$ 1,1 milhão, ou 0,07% do PL. “O impacto é quase zero”, resume Rubin. Ainda assim, a inadimplência dos recebíveis dos fundos da M8 subiu para 4,2% neste ano, ante patamares menores no primeiro semestre de 2025, o que levou a gestora a intensificar os filtros na concessão de crédito.

A One7, listada em três RJs ao mesmo tempo (Grupo Alpha/Nova Noiva, Autem e Brinquedos Estrela), também reforça que a pulverização de carteira e as políticas de concentração por emissor tornaram os valores afetados irrelevantes para o desempenho do fundo. Já o Aurum Multisetorial, da M8, presente na RJ do Grupo Alpha/Nova Noiva como credor de R$ 397 mil, praticamente zerou sua exposição: faltam apenas R$ 2 mil a receber, segundo os próprios gestores.

Macedo, da Solis, avalia que o aumento na profissionalização da indústria tem funcionado como barreira: “É perceptível o aumento da profissionalização do mercado. Não existe uma profusão de recuperações judiciais e não estamos sentindo isso nas carteiras dos nossos fundos.”

O que o gestor de FIDC precisa vigiar agora

Dois sinais merecem atenção prioritária nas próximas semanas. O primeiro é a presença do cedente em listas de credores de outras RJs, ou seja, empresas que já tomaram crédito de múltiplos FIDCs ao mesmo tempo. O segundo é a natureza da classificação do crédito: operações com status concursal ficam subordinadas ao plano de recuperação e podem sofrer deságios ou alongamento de prazo sem que o fundo tenha poder de veto.

O cenário macro não ajuda: juros elevados e crescimento abaixo de 2% continuam pressionando o fluxo de caixa das médias empresas, que foram exatamente o segmento que mais migrou para o financiamento via cessão de recebíveis nos últimos anos. Para os FIDCs com carteiras bem pulverizadas e garantias sólidas, a tempestade passa com danos controlados. Para os fundos que negligenciaram a concentração por cedente ou aceitaram créditos sem garantia real, o custo do ambiente de estresse ainda está sendo calculado.


Fonte: E-Investidor/Estadão, com levantamento de Rafael Nogueira (Chimera Capital) Categoria sugerida: Mercado Tags sugeridas: FIDC, recuperação judicial, crédito privado, Chimera Capital, Brinquedos Estrela, Kora Saúde, Provider, inadimplência, special sits, M8, Solis, Cupertino Capital

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