Fintech especializada em agronegócio opera cinco fundos distintos e conecta distribuidores, revendas e produtores rurais a capital de giro no ponto de venda
Rafael Pilla, CEO da Farmtech e Agustin Sucari, CFO da divisão agrícola da Bayer. Créditos: divulgação e Vivian Koblinsky
O CropCredit, programa financeiro digital desenvolvido em parceria pela Farmtech e pela Bayer, acumulou R$ 3,3 bilhões em operações desde seu lançamento em 2023. O modelo se destaca por integrar crédito diretamente à operação comercial da cadeia agrícola, eliminando etapas burocráticas que historicamente atrasavam o acesso ao capital no campo.
Crédito estruturado em camadas
A Farmtech é um hub de soluções financeiras e crédito digital voltado ao agronegócio. A empresa desenvolveu uma infraestrutura digital omnichannel capaz de atender múltiplos canais de distribuição, diferentes perfis de tomadores e estruturas financeiras distintas dentro de um único programa.
A arquitetura do CropCredit opera sobre camadas da cadeia comercial da Bayer: da indústria ao distribuidor, do distribuidor à revenda e da revenda ao produtor rural. Cada elo recebe condições de crédito adaptadas ao seu ciclo financeiro e perfil operacional. Para suportar essa segmentação, a operação é estruturada em cinco fundos, cada um direcionado a um público e uma dinâmica específicos.
A Farmtech atua como coordenadora do processo de forma agnóstica em relação ao parceiro financeiro e transparente para quem opera na ponta da cadeia. O modelo inclui financiamentos em mais de uma moeda, atendendo tanto operações de capital de giro doméstico quanto estruturas com exposição cambial, comum em cadeias que lidam com commodities exportáveis.
Do ponto de vista da estrutura de crédito, o uso de fundos segregados por público e finalidade é uma prática consolidada no mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios). Esse formato permite isolar riscos entre segmentos, definir critérios de elegibilidade e classificação de crédito específicos para cada camada e atrair investidores com diferentes apetites por risco. No agronegócio, onde os ciclos de pagamento variam entre safras e os riscos climáticos e de preço são estruturais, essa segregação é especialmente relevante.
O problema que o programa resolve
O agronegócio brasileiro historicamente conviveu com crédito lento, burocrático e desconectado do momento em que a decisão de compra acontece. Produtores rurais e revendas enfrentavam a exigência de longos históricos de relacionamento com instituições financeiras, garantias inflexíveis e análises que chegavam depois do fechamento do negócio, não antes.
Rafael Pilla, CEO e fundador da Farmtech, resume o avanço: “O grande avanço está em ter o crédito realmente integrado à operação de vendas dos nossos parceiros, respeitando a lógica da cadeia e eliminando barreiras operacionais que historicamente travam as vendas. O capital precisa estar disponível no momento da decisão de compra pelo cliente Bayer, de forma simples e eficiente.”
A proposta central é que o crédito deixe de ser uma etapa posterior ao fechamento da venda e passe a ser um elemento do próprio processo comercial. Isso exige integração tecnológica entre a plataforma de crédito, os sistemas das revendas e os canais de relacionamento com o produtor rural, além de análise de risco em tempo real.
Agustin Rafael Sucari, CFO da divisão agrícola da Bayer, reforça a relevância do modelo para inclusão de novos perfis de clientes: “O CropCredit nasce para resolver um desafio estrutural, ampliando o acesso ao crédito com mais velocidade e inclusão e conectando melhor a oferta financeira à realidade do campo.”
Análise: o FIDC como veículo para o agro-crédito digital
O uso de FIDCs como estrutura de funding para programas de crédito embarcado no agronegócio ganhou tração nos últimos anos. O modelo permite que empresas originadoras, como fintechs especializadas, separem o risco da operação de crédito do balanço do parceiro industrial, como a Bayer, ao mesmo tempo em que mantêm o alinhamento de incentivos entre as partes.
Para o investidor, a segmentação em fundos por camada da cadeia oferece visibilidade sobre o perfil dos recebíveis cedidos. Crédito para distribuidores tende a ter ticket maior, menor inadimplência estrutural e ciclos mais curtos. Crédito para produtores rurais exige análise de safra, histórico produtivo e, eventualmente, garantias reais. Cada um desses perfis justifica uma estrutura própria, com cotas sênior e subordinadas dimensionadas conforme o risco esperado.
O volume de R$ 3,3 bilhões em três anos, embora expressivo como indicador de demanda, precisa ser avaliado em relação ao tamanho da carteira ativa em cada período, à taxa de inadimplência acumulada e à evolução da qualidade das cotas ao longo dos ciclos. Esses são os dados que o mercado acompanhará com atenção à medida que o programa se consolida.
Sucari aponta o impacto operacional como um dos resultados concretos da iniciativa: “O principal impacto é a fluidez financeira. Ao reduzir o atrito no acesso ao capital, o programa permite que produtores e revendas operem com mais previsibilidade e menor risco, mantendo o ciclo de negócios mais saudável.”
Perspectivas para o modelo
A experiência do CropCredit aponta para uma tendência mais ampla: grandes indústrias do agronegócio passando a atuar como originadores de crédito por meio de fintechs especializadas, usando FIDCs como veículo de captação e distribuição de risco para o mercado de capitais. O modelo reduz a dependência do crédito bancário tradicional, acelera o acesso ao capital na ponta e cria um ativo financeiro que pode ser gerido e monitorado de forma estruturada.
Para o mercado de FIDC, o crescimento desse segmento representa uma fonte relevante de novos ativos, especialmente em um momento em que a indústria busca diversificação de originadores e setores. O agronegócio, que responde por parcela significativa do PIB brasileiro, segue subrepresentado na carteira de FIDCs em comparação ao crédito ao consumidor e ao crédito corporativo urbano.
O próximo passo natural para operações como o CropCredit será a divulgação de métricas de desempenho das carteiras de crédito, incluindo índices de inadimplência por segmento, prazo médio das operações e composição das cotas dos fundos. Esse nível de transparência é fundamental para atrair novos investidores e consolidar o modelo como referência para o crédito privado no agro.
Fonte: Portal Agro Summit — Programa de crédito da Farmtech e Bayer movimenta R$ 3,3 bilhões no agro desde 2023 — publicado em 03/06/2026













