Ata do Copom endurece o tom: inflação desancorada até 2028 reduz espaço para cortes da Selic

Pela primeira vez na história recente do Banco Central, a desancoragem das expectativas de inflação alcançou o ano de 2028 — além do horizonte relevante de política monetária. O recado da ata, divulgada na terça-feira (05/05), foi mais duro do que o comunicado pós-reunião: o ciclo de cortes existe, mas caminha devagar.


O segundo corte consecutivo e a sinalização que veio junto

Na reunião de 28 e 29 de abril, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, por decisão unânime dos seis membros do Comitê. Era o segundo corte consecutivo após meses de manutenção no patamar de 15% — o maior nível em quase 20 anos.

Mas a ata divulgada na terça, 5 de maio, jogou água fria nas expectativas de aceleração do ciclo. O teor do documento está mais duro que o comunicado divulgado após a decisão, aprofundando detalhes e a leitura do cenário internacional e doméstico. O elemento novo — e perturbador para o mercado — veio em uma linha que ninguém esperava ver tão cedo: pela primeira vez, ficou evidente desancoragem adicional das expectativas para horizontes mais longos, em particular para 2028, ano que ultrapassa o horizonte relevante de avaliação da política monetária.


O choque externo e os efeitos de segunda ordem

O fio condutor da ata é o conflito no Oriente Médio. O Copom reconhece que a alta do petróleo já se refletiu em combustíveis e fretes, mas a grande preocupação é com a cadeia produtiva como um todo. O ponto central são as dúvidas em relação à extensão, à duração e aos impactos da guerra. Se os reflexos já chegaram nos combustíveis, ainda é incerto o impacto ao longo da cadeia produtiva — incertezas que podem levar a continuidade de postura cautelosa do Banco Central, na avaliação de Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.

O BC deixou claro que não está disposto a ignorar esse risco. A autoridade monetária enfatizou que o custo para trazer a inflação de volta à meta é significativamente maior quando as expectativas do mercado estão desancoradas, o que justifica a manutenção de uma postura restritiva para a Selic.

As projeções do próprio Banco Central apontam IPCA de 4,6% para 2026, acima do teto da meta de 4,5%. O Boletim Focus registrava, à época da reunião, expectativa de 4,9% para 2026 e 4,0% para 2027, ambas acima da meta. Para 2028, as projeções de mercado já chegam a 3,64% — num sinal de que a contaminação inflacionária começa a cruzar o horizonte de planejamento das instituições financeiras.


O que o mercado projeta e o que isso significa para o crédito

A reação dos analistas foi imediata. De acordo com Caio Megale, da XP, a projeção ainda inclui dois cortes de 0,50 p.p. nas reuniões de junho e agosto, mas esse cenário está se tornando cada vez menos provável. A XP espera Selic em 13,5% ao fim de 2026. Já Leonardo Costa, do ASA, mantém projeção de mais um corte de 0,25 p.p. em junho, com Selic em 13,25% no final do ano, mas admite risco de encerrar acima disso. Rafaela Vitoria, do Inter, projeta Selic em 12,75% com ressalva: “o risco fiscal ainda é maior que o risco da alta do petróleo, e uma pausa pode ser necessária se a atividade não desacelerar”.

Para o mercado de FIDCs — Fundos de Investimento em Direitos Creditórios — a persistência da Selic elevada sustenta spreads competitivos sobre o CDI e mantém o apetite dos investidores pelo crédito estruturado. O lado adverso é que juros altos por mais tempo continuam pressionando a capacidade de pagamento dos devedores cedentes, elevando o risco de inadimplência nas carteiras de crédito pessoal, middle market e capital de giro — exatamente os segmentos de maior crescimento no setor nos últimos dois anos.


Perspectivas

O Banco Central afirmou que o crescimento segue em trajetória de moderação, mas destacou sinais recentes de retomada no início de 2026. O mercado de trabalho continua resiliente, com taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e crescimento da renda acima da produtividade — o que, paradoxalmente, dificulta a desinflação que o Copom persegue. A próxima reunião, prevista para junho, será o próximo ponto de inflexão: se a guerra se prolongar e a inflação corrente não arrefecer, a pausa no ciclo de cortes deixa de ser hipótese e vira cenário-base.

Compartilhe este artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *