Região que produz mais de 45% dos grãos do Brasil concentra apenas 2,5% do mercado de FIDCs — mas isso está mudando. Com bancos fechando a torneira e Selic a 14,75%, gestoras locais aceleram a interiorização do crédito privado
O centro de gravidade do crédito no Brasil está se deslocando — e o destino é o Centro-Oeste.
Por décadas, o mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios foi praticamente um monopólio do eixo Rio–São Paulo. Hoje, com a Selic mantida em 14,75% ao ano, o crédito bancário retraindo e o patrimônio dos FIDCs se aproximando de R$ 800 bilhões, uma nova geografia financeira começa a emergir no país — e o agronegócio é seu principal motor.
Levantamento do Grupo IOX, boutique especializada em originação e estruturação de crédito, revela o tamanho do descompasso: o Centro-Oeste abriga 9,14% das empresas ativas do Brasil — cerca de 2,2 milhões de negócios — mas responde por apenas 2,5% do mercado de FIDCs. Para Vicente Guimarães, diretor de RI do Grupo IOX, o número não é apenas uma estatística. É uma oportunidade.
“O crescimento dos FIDCs no Brasil foi muito concentrado em grandes centros e em emissores tradicionais. O próximo ciclo tende a ser marcado pela interiorização desse mercado, com foco em regiões onde existe demanda real e menos competição”, afirma.
Do outro lado da equação, o Sudeste ainda domina com 77,8% das operações. Nordeste (9,3%) e Sul (8,2%) vêm na sequência. O Centro-Oeste, apesar de ser a locomotiva econômica do país no setor primário, segue à margem da estrutura formal de crédito privado.
Tempestade perfeita no agro — e os FIDCs como resposta
A Audax Capital, gestora sediada no centro-oeste goiano com uma década de atuação e foco em crédito estruturado para o agronegócio, está na linha de frente dessa virada. Em 2025, a empresa encerrou o ano com R$ 1,7 bilhão em operações de FIDC na região — crescimento de 115% em relação ao ano anterior. Para 2026, a meta é chegar a R$ 3,1 bilhões.
O caminho, no entanto, não é isento de obstáculos. Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital, descreve o momento do agronegócio como “quase uma tempestade perfeita”: aumento nos preços dos fertilizantes, dólar mais fraco pressionando as margens dos exportadores e alta no preço do diesel — tudo ao mesmo tempo, em um setor que já acumulava ciclos difíceis em 2024 e 2025, com crescimento expressivo nas recuperações judiciais ao longo da cadeia.
“Este crescimento acelerado decorreu, principalmente, da ‘desbancarização’ que aconteceu nos últimos anos no Brasil, repetindo o que já tem acontecido em outros países, onde os fundos de crédito têm maior participação”, disse o CEO da Audax, Pedro Da Matta. “Com a Selic alta, muitos bancos acabaram fechando a torneira”, acrescentou.
Ainda assim, é justamente nesse cenário que a lógica dos FIDCs se torna mais evidente. Com o crédito bancário seletivo e caro — o crescimento do crédito livre para empresas ficou abaixo de 5% em termos reais em 2025, segundo o Banco Central — empresas que nunca haviam recorrido a estruturas alternativas estão batendo na porta do crédito privado.
“Com a Selic alta, muitos bancos acabaram fechando a torneira. E com a retração do crédito bancário, muitas empresas que nunca haviam recorrido a estruturas alternativas passaram a buscar crédito privado. Essa combinação criou uma janela de oportunidade para quem entende o setor de verdade”, diz Da Matta.
Proximidade com a economia real como vantagem competitiva
A tese das gestoras regionais vai além do oportunismo de crise. Há uma vantagem estrutural: a proximidade com os cedentes e sacados da cadeia produtiva.
O Centro-Oeste responde por mais de 45% da produção nacional de grãos. Logística, armazenagem, indústria de base e serviços corporativos ligados ao agronegócio geram empresas com fluxo de caixa previsível e recorrente — perfil ideal para a originação de recebíveis em FIDCs. Quando o gestor conhece o clima da região, o histórico de inadimplência dos produtores locais e as particularidades de cada elo da cadeia, a análise de risco ganha precisão que estruturas distantes do eixo tradicional não conseguem replicar facilmente.
“As empresas fora do eixo tradicional estão mais próximas da economia real. Essa proximidade cria eficiência, reduz custos e aumenta a competitividade”, resume Da Matta.
A Audax Capital tem investido em inteligência artificial para ampliar essa vantagem analítica. A tecnologia é usada para avaliar a capacidade de pagamento de cedentes e sacados, processar notificações automaticamente e eliminar pontos cegos na análise de risco — especialmente relevante em um setor onde variáveis climáticas e regionais têm peso decisivo na probabilidade de inadimplência.
Interiorização como tendência estrutural
O movimento não é isolado. Para Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX, o que está acontecendo no Centro-Oeste é parte de uma transformação mais ampla no mercado financeiro brasileiro.
“Estamos entrando em uma fase de maturidade. O crédito estruturado está no centro dessa transformação. Depois de uma década em que o retorno era quase automático via renda fixa, o investidor agora exige método, governança e lastro real”, diz Ionescu.
Com o mercado de FIDCs caminhando para superar R$ 1 trilhão em patrimônio nos próximos anos — segundo projeções de gestoras e dados da ANBIMA —, o potencial de crescimento nas regiões ainda sub-representadas é, por definição, proporcional ao tamanho do vazio que hoje existe. Se o Centro-Oeste passasse a ter participação no mercado de FIDCs equivalente à sua representação no total de empresas ativas do país, isso significaria mais de R$ 50 bilhões adicionais em operações estruturadas.
Para Da Matta, a consolidação dos FIDCs em polos regionais é irreversível. “O centro de gravidade do crédito no Brasil está se deslocando. E o próximo grande ciclo de crescimento não vai sair da Faria Lima — vai sair do Centro-Oeste, do Nordeste, de regiões onde a economia real acontece e o crédito ainda não chegou na velocidade que deveria.”
Fontes: Capital Aberto, BM&C News, Portal do Agronegócio, Radar Digital Brasília, Startups, Grupo IOX, Audax Capital













