Crédito com garantia avança, mas infraestrutura ainda é o gargalo que limita a escala

O mercado brasileiro de crédito atravessa um momento de reposicionamento. Iniciativas de renegociação de dívidas, programas de recuperação da capacidade de crédito das famílias e estímulos a setores como o automotivo empurram o crédito com garantia para o centro do debate. O problema, reconhecem bancos, fintechs, securitizadoras e gestores de FIDC, é que a infraestrutura operacional responsável por formalizar, registrar e gerir essas garantias ainda não cresceu no mesmo ritmo que a demanda.

O tamanho da defasagem brasileira

O Brasil ainda tem muito espaço para crescer no crédito com garantia. Hoje, menos de 40% do crédito total no país conta com garantia real: imóveis, veículos ou renda. Nos Estados Unidos, esse percentual supera 70%. A diferença não é apenas numérica: ela reflete décadas de desenvolvimento regulatório, padronização de processos e maturidade institucional que o mercado brasileiro ainda busca construir.

Os principais ativos utilizados como garantia no Brasil são imóveis, veículos e renda via crédito consignado. Cada um desses segmentos carrega sua própria estrutura operacional, com exigências legais, registros específicos e riscos distintos. No caso dos veículos, a dimensão do mercado potencial é expressiva: o Brasil possui mais de 60 milhões de veículos potencialmente elegíveis como garantia para operações de crédito. Cerca de 7 milhões de financiamentos de veículos são registrados anualmente no país.

Esse volume coloca o crédito automotivo como um dos segmentos mais relevantes para a expansão do crédito com garantia, especialmente para instituições que buscam ampliar sua base de clientes com menor risco. Operações lastreadas em veículos permitem, em tese, taxas de juros até 50% menores em comparação a modalidades sem garantia, segundo estudos da PO27, empresa especializada na infraestrutura para esse tipo de operação.

A complexidade que não aparece nos balanços

Para quem opera de fora, o processo de concessão de crédito com garantia pode parecer simples: o cliente oferece um bem, a instituição avalia, libera o recurso e registra a alienação. Na prática, a cadeia operacional é muito mais densa.

A gestão de garantias no Brasil envolve uma complexidade regulatória que poucos setores conseguem rivalizar. Em um período de apenas 12 meses, a área registrou 338 normas aplicáveis, 59 alterações regulatórias e 101 mudanças de preços. A isso se somam 27 DETRANs, cada um com regras, sistemas e prazos distintos para registro de alienações fiduciárias de veículos.

Para uma fintech ou banco digital que deseja entrar ou escalar no crédito automotivo com garantia, essa complexidade representa um custo de entrada elevado, risco operacional constante e dificuldade para padronizar processos. Cada detalhe fora do lugar pode comprometer a validade jurídica da garantia, expondo a instituição a perdas em caso de inadimplência.

“A gestão de garantias não é um processo acessório ao crédito. É a espinha dorsal da operação. Quando a infraestrutura falha, o risco não fica represado no back-office: ele contamina o balanço”, afirma Lívia Assan, CEO da PO27. “É exatamente essa realidade que nos motivou a construir uma solução que absorva essa complexidade e permita que as instituições financeiras cresçam com segurança jurídica e previsibilidade operacional.”

Para os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) que estruturam carteiras com lastro em crédito automotivo, essa dimensão é ainda mais crítica. A validade das garantias afeta diretamente a qualidade dos recebíveis cedidos, a relação entre cotas sênior e subordinadas e, consequentemente, a classificação de risco do fundo.

Infraestrutura como diferencial competitivo

É nesse cenário que empresas especializadas em infraestrutura para crédito com garantia passaram a ocupar um papel estratégico. A PO27 é um dos casos mais representativos desse segmento no Brasil. Atuando há mais de oito anos, a empresa funciona como camada de integração entre instituições financeiras, DETRANs, registradoras e demais participantes do ecossistema de crédito com garantia.

Os números dão a dimensão da capilaridade da operação: aproximadamente um em cada três financiamentos de veículos realizados no Brasil passa pela infraestrutura da PO27. A empresa atende mais de 30 instituições financeiras, opera em todo o território nacional e conta com mais de 100 colaboradores, diretos e indiretos. Em 2021, recebeu aporte da DOMO Invest, acelerando sua capacidade de expansão.

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