O crédito bancário demorado e o custo crescente de materiais estão comprimindo as margens da construção civil no Brasil e acelerando a migração do setor para o mercado de capitais. Em abril de 2026, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) registraram a maior captação líquida mensal da indústria de fundos, com entrada de R$ 4,5 bilhões no período, enquanto renda fixa e multimercados operavam no vermelho.
O gargalo do sistema bancário tradicional
A construção civil brasileira opera hoje sob uma pressão dupla: de um lado, o ambiente de juros elevados, com a Selic projetada em torno de 13% ao fim de 2026; de outro, a morosidade do crédito no sistema bancário tradicional, cujo prazo de liberação para construtoras e incorporadoras pode chegar a cerca de 90 dias, segundo fontes ligadas ao setor.
Esse hiato entre a necessidade do canteiro de obras e o tempo de resposta das instituições financeiras tem consequências diretas e visíveis: etapas de projetos são paralisadas, compras essenciais como aço e cimento são adiadas e o fluxo de caixa das empresas fica comprometido antes mesmo de a obra avançar.
Os dados do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), levantados pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), revelam a volatilidade do canal bancário nos últimos anos. Em 2024, o volume de crédito para construtoras e incorporadoras atingiu o pico recente: R$ 46,2 bilhões, equivalente a 176.838 unidades financiadas. Em 2025, o recuo foi expressivo: R$ 30,8 bilhões e 117.104 unidades. Ainda que os primeiros quatro meses de 2026 apontem recuperação, com R$ 14,4 bilhões contra R$ 5,6 bilhões no mesmo período do ano anterior, o prazo de liberação continua sendo o principal ponto de atrito operacional.
“Na construção civil, crédito não é apenas preço. É prazo, previsibilidade e aderência ao cronograma. Uma taxa aparentemente menor pode sair cara se o recurso chega tarde demais para cumprir uma etapa crítica da obra”, afirma André Caruso, CEO da Pilar Capital.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) não confirma um prazo médio oficial para concessão de crédito, alegando que cada instituição adota cronogramas internos próprios.
Custos pressionados e revisão de expectativas
O quadro é agravado pelo comportamento recente dos custos de produção. O Índice Nacional de Custo da Construção Mercado (INCC-M), que mede a variação de preços do setor, avançou 1,4% apenas em abril de 2026, pressionado pelo preço do petróleo e pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, que encarecem insumos derivados de commodities.
O impacto sobre as projeções do setor foi imediato. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) revisou sua estimativa de crescimento para 2026 de 2% para 1,2%. O ajuste ocorre mesmo com o bom desempenho do primeiro trimestre, quando o setor gerou mais de 120 mil vagas de emprego e manteve a marca de 3 milhões de trabalhadores formais em atividade.
O paradoxo é claro: um setor que gera emprego e movimenta a economia real encontra barreiras crescentes para se financiar dentro do sistema convencional.
FIDCs na contramão do mercado
Em abril de 2026, enquanto a indústria de fundos acumulava resgate líquido de R$ 18,1 bilhões, com renda fixa perdendo R$ 19,3 bilhões e multimercados recuando R$ 5,4 bilhões, os FIDCs registraram captação líquida de R$ 4,5 bilhões. No acumulado do ano, o saldo positivo já chega a R$ 12,1 bilhões.
O movimento não é casual. O mercado de crédito privado como um todo movimentou R$ 192,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 22,5% frente ao mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O FIDC, dentro dessa cadeia, funciona como um instrumento de conexão entre quem precisa de capital e quem quer rentabilidade com lastro.
Na prática, o FIDC adquire recebíveis (contratos, parcelas de vendas, duplicatas) e transforma esse fluxo futuro em liquidez imediata para as empresas. Para uma incorporadora de médio porte, que tem projetos viáveis mas não acessa os grandes bancos com agilidade, essa estrutura resolve um problema que o sistema tradicional não consegue endereçar no tempo certo.
“O dado de abril mostra que o investidor está olhando para o FIDC como uma estrutura de crédito conectada à economia real. O FIDC transforma o fluxo em uma carteira acompanhada por regras, controles e governança, permitindo que o capital chegue de forma mais estruturada às empresas e ofereça ao investidor uma exposição diferente daquela encontrada em fundos mais tradicionais”, analisa Vicente Guimarães, Diretor de Relações com Investidores do Grupo IOX.
A percepção de que o instrumento une previsibilidade e análise de risco mais detalhada também pesa na decisão do investidor. “O FIDC ganhou espaço porque responde a duas necessidades do mercado brasileiro. De um lado, empresas buscam alternativas em um ambiente de juros altos. De outro, investidores procuram instrumentos com lastro, previsibilidade e análise de risco mais detalhada”, complementa Guimarães.
Caso concreto: Pilar Capital e mais de R$ 3 bi em VGV monitorado
A Pilar Capital ilustra como o modelo opera na prática. A empresa atua com projetos imobiliários que variam de R$ 5 milhões a mais de R$ 300 milhões. Por meio de um FIDC gerido pela Artesanal Investimentos, mantém hoje mais de 100 empreendimentos sob monitoramento, com um Valor Geral de Vendas (VGV) superior a R$ 3 bilhões.
Para Caruso, a dependência de uma única fonte de financiamento é o verdadeiro risco do setor. “O setor imobiliário não pode depender de um modelo único de financiamento quando o ciclo da obra exige decisões rápidas”, conclui o CEO.
O dado reforça uma tendência que vem se consolidando no mercado brasileiro: a diversificação das fontes de financiamento não é mais uma opção para as construtoras, mas uma necessidade operacional. O FIDC, que durante anos foi percebido como instrumento voltado a grandes operações ou a créditos de consumo, ganha agora protagonismo no segmento imobiliário produtivo, especialmente onde os bancos chegam tarde.
Perspectivas: o que monitorar
Com a Selic projetada em 13% para o fim de 2026 e o custo de materiais ainda sujeito a pressões externas, o ambiente para o crédito bancário tradicional não deve se reverter rapidamente. A recuperação observada no primeiro quadrimestre é positiva, mas insuficiente para reduzir o prazo operacional que trava o canteiro.
Para os gestores de FIDC, a janela de oportunidade segue aberta. O crescimento de 22,5% no mercado de crédito privado e a captação líquida positiva de R$ 12,1 bilhões no acumulado de 2026 indicam que tanto o lado da oferta quanto o da demanda estão aquecidos. O desafio, agora, está em estruturar operações com qualidade de carteira e governança adequada para sustentar esse crescimento sem ampliar o risco do sistema.
O mercado imobiliário, historicamente intensivo em capital e sensível a taxas, deve seguir sendo um dos principais vetores de crescimento para os FIDCs ao longo do segundo semestre.
Fontes: Portal do Fomento / InfoMoney (05/06/2026) — https://www.portaldofomento.com.br/noticia.php?id=9915













