Conglomerado financeiro lança SCFI, unifica operações e obtém primeira classificação de risco nacional, consolidando aposta na verticalização como diferencial competitivo no mercado de crédito corporativo
O mercado de crédito corporativo brasileiro movimenta R$ 3,4 trilhões e segue em expansão, mas carrega uma contradição persistente: apesar das captações de R$ 838,8 bilhões registradas no mercado de capitais, as operações continuam fragmentadas entre múltiplos intermediários, tornando o acesso ao crédito mais lento e oneroso para as empresas. É dentro dessa brecha que a Multiplike aposta sua maior jogada até o momento: um modelo de crédito híbrido estruturado sobre uma SCFI própria, com meta de alcançar R$ 200 bilhões em volume de crédito concedido até 2030.
O diagnóstico: um mercado grande, mas ineficiente
O crédito corporativo no Brasil cresceu de forma expressiva na última década, impulsionado pelo amadurecimento do mercado de capitais e pela expansão dos instrumentos de securitização. FIDCs, Certificados de Recebíveis, Notas Comerciais e Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) tornaram-se ferramentas cada vez mais comuns na estrutura de captação das empresas.
Mas o crescimento em volume não foi acompanhado por ganhos equivalentes em eficiência operacional. A dependência de múltiplos agentes intermediários, como bancos custodiantes, gestoras independentes, escritórios jurídicos e plataformas de distribuição, dilui margens, aumenta prazos e introduz pontos de atrito que encarecem a jornada do tomador.
Para as empresas que precisam de recursos com urgência ou que buscam estruturas personalizadas, o modelo tradicional oferece pouca flexibilidade. É esse ponto que a Multiplike identifica como oportunidade.
O que mudou: SCFI, crédito híbrido e rating da Fitch
A principal novidade operacional da Multiplike é o lançamento de sua SCFI (Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento), que integra em uma única estrutura as diferentes frentes de negócio da companhia: securitizadora, FIDC, gestora e a própria financeira.
Esse movimento de consolidação viabiliza o que a empresa chama de modelo de crédito híbrido: uma arquitetura que combina a flexibilidade e capacidade de estruturação do mercado de capitais com a infraestrutura e eficiência operacional típicas dos bancos. Na prática, isso significa customizar condições de crédito, adaptar garantias às especificidades de cada operação e encurtar os prazos entre etapas da estruturação, sem depender de terceiros para as etapas centrais do processo.
“O que estamos propondo é algo pioneiro no mercado. Ao verticalizar a operação, conseguimos reduzir os prazos entre as etapas da estruturação do crédito, proporcionando uma experiência mais ágil e segura para as empresas, além de garantir um maior controle regulatório, jurídico e tecnológico sobre as operações”, afirma Volnei Eyng, CEO da Multiplike.
A verticalização vai além da estruturação financeira. A Multiplike passa a controlar diretamente a gestão de contas de pagamento, a emissão de boletos e a formalização de CCBs e Notas Comerciais (NCCs). Esse controle reduz a exposição de dados dos clientes a intermediários e, segundo a empresa, eleva a segurança tecnológica das operações.
O terceiro elemento da mudança é o rating. A Fitch Ratings atribuiu, pela primeira vez, as classificações de risco nacionais de longo e de curto prazos ‘BB (bra)’ e ‘B (bra)’ à Multiplike Financeira S.A. A perspectiva do rating de longo prazo é estável.
A classificação está vinculada à qualidade de crédito e ao potencial de suporte da Multiplike Securitizadora S.A., empresa-irmã da financeira dentro do grupo. A agência avaliou que há evidências de que a securitizadora proveria suporte à financeira em caso de necessidade, o que ancora as notas neste primeiro momento, dado que os indicadores intrínsecos da financeira, criada recentemente, ainda têm influência moderada nas classificações.
A Fitch informou ainda que passará a monitorar o perfil de crédito consolidado do grupo, o que poderá resultar em mudanças futuras na abordagem de rating.
Análise: o que o mercado lê nesse movimento
Do ponto de vista dos investidores de FIDC, a obtenção de rating pela Multiplike Financeira é um dado relevante. Estruturas que contam com classificação de risco formal ganham acesso a uma base mais ampla de investidores institucionais, em especial aqueles com mandatos que exigem cotas com rating mínimo atribuído por agência reconhecida.
A perspectiva estável sinaliza que a Fitch não antecipa deterioração no perfil de crédito no curto prazo, embora reconheça que a financeira ainda está em fase inicial de consolidação de indicadores próprios. O suporte institucional da securitizadora funciona como um lastro que sustenta as notas enquanto o histórico operacional da financeira é construído.
“O modelo de crédito híbrido da Multiplike está projetado para atender uma demanda crescente por soluções financeiras mais eficientes e flexíveis, especialmente em um cenário de crescente sofisticação no mercado corporativo”, explica Eyng.
Do ponto de vista regulatório, a Multiplike Financeira foi classificada no segmento S4 do Banco Central, o que a obriga a cumprir o requisito mínimo de capital regulatório de 10,5%. A Fitch avalia que, mesmo com o crescimento esperado das operações em 2026 e 2027, os índices de capital regulatório devem permanecer adequados, sustentados por novos aportes e pela geração interna de capital.
A menor dependência de intermediários também representa uma vantagem competitiva em termos de spread. Com mais etapas da cadeia de crédito internalizadas, a companhia consegue repassar parte da eficiência obtida para o tomador, com custo final mais competitivo do que o praticado em estruturas tradicionais.
Perspectivas: a corrida para R$ 200 bilhões
A meta de R$ 200 bilhões em volume de crédito concedido até 2030 representa uma aposta de longo prazo na escalabilidade do modelo híbrido. Para chegar lá, a Multiplike sustenta a expansão na integração contínua das quatro frentes de negócio: securitizadora, FIDC, gestora e SCFI.
“Com a expertise que já temos na geração de crédito, o foco agora é integrar cada vez mais essas estruturas para oferecer uma experiência mais eficiente e competitiva para as empresas”, afirma Eyng.
O caminho até 2030 passa por alguns desafios concretos. O ambiente macroeconômico brasileiro, com taxa Selic ainda em patamar elevado, pressiona o custo de captação e estreita as margens das operações de crédito. A capacidade da Multiplike de escalar com disciplina de capital, mantendo os índices regulatórios acima do mínimo exigido pelo Banco Central, será um dos principais termômetros do modelo.
A monitoração consolidada do grupo pela Fitch também adiciona uma camada de transparência que o mercado tende a valorizar: eventuais mudanças na solidez financeira do conjunto serão refletidas mais rapidamente nas notas de rating, criando um ciclo de accountability que beneficia tanto investidores quanto tomadores.
O movimento da Multiplike reflete uma tendência mais ampla no mercado de crédito privado brasileiro: a busca por estruturas que reduzam intermediação, acelerem processos e ofereçam mais controle ao originador. A empresa que conseguir executar essa integração em escala, mantendo qualidade de crédito e eficiência operacional, estará bem posicionada para capturar uma fatia relevante dos R$ 3,4 trilhões que circulam no crédito corporativo do país.
Fonte: BM&C News / Tudo Sobre FIDCs Categoria sugerida: Empresas / Mercado













