O qualitativo do originador pesa mais que qualquer modelo quantitativo, defende Jean-Pierre Cote Gil em análise sobre crédito estruturado no Brasil
Em um mercado que cresceu aceleradamente e multiplicou o número de estruturas em circulação, a Vinland Capital adota uma premissa que soa quase contracultural: o maior risco em um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) não é a inadimplência da carteira, mas a fraude de quem a origina. A tese, defendida por Jean-Pierre Cote Gil, sócio e gestor da gestora, coloca o relacionamento com o originador no centro da análise de crédito estruturado, acima de planilhas e modelos estatísticos.
O argumento: qualitativo antes do quantitativo
A lógica apresentada por Cote Gil parte de uma observação histórica. Os casos de perdas mais severas no mercado brasileiro de FIDCs, segundo o gestor, não vieram de carteiras que simplesmente apresentaram inadimplência acima do esperado, mas de situações em que houve desvio de recursos, falsificação de recebíveis ou falhas operacionais graves, eventos que nenhum modelo de precificação consegue antecipar de forma confiável.
“Normalmente não é o quantitativo que pega, é muito mais esse qualitativo do originador. Conhecer o cara, há quanto tempo ele opera, se você já fez coisa com o cara é mais fácil, esse, para mim, é o principal foco”, afirmou Cote Gil em entrevista ao programa Stock Pickers, da InfoMoney, apresentado por Lucas Collazo.
A declaração sintetiza uma filosofia de gestão que valoriza o histórico de relacionamento, a reputação do originador no mercado e a consistência operacional de suas estruturas ao longo do tempo. Para a Vinland, esses fatores representam uma camada de proteção que a análise quantitativa, por mais sofisticada que seja, simplesmente não substitui.
Isso não significa que os números são ignorados. A gestora realiza due diligence completa das carteiras, avalia taxas de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos), concentração setorial e histórico de cessão de crédito. Mas esses dados são tratados como condição necessária, não suficiente, para o investimento.
Crescimento rápido como sinal de alerta
Um segundo vetor de risco monitorado pela Vinland é a velocidade com que determinadas gestoras de crédito crescem. O raciocínio é direto: quando um FIDC salta de R$ 300 milhões para R$ 1,5 bilhão em pouco tempo, o originador inevitavelmente passa a atender empresas maiores, reduz taxas para competir por seus recebíveis e altera, muitas vezes de forma silenciosa, o perfil de risco da carteira.
“Essa transição de tamanho é importante que seja gradual”, destaca Cote Gil.
A preocupação é legítima porque muitos investidores avaliam um FIDC com base em seu histórico recente, sem perceber que o fundo de hoje pode ser estruturalmente diferente do fundo de dois anos atrás. Uma carteira que performou bem com R$ 300 milhões em ativos de PMEs regionais pode apresentar comportamento completamente distinto ao atingir bilhões de reais com recebíveis corporativos de maior porte.
Para novos produtos e novas estruturas, a Vinland adota um critério adicional: aguardar ao menos seis meses antes de alocar recursos.
“Dá uns seis meses, vamos ver como o negócio opera, e depois a gente entra”, explica o gestor.
A pausa tem custo de oportunidade, mas reduz a exposição ao risco de originação nova, período em que processos ainda não foram estressados e eventuais falhas operacionais ainda não se manifestaram.
Disciplina de concentração: ser importante, não dominante
Outro pilar da disciplina da Vinland é o limite de participação em cada fundo. A gestora impõe a si mesma uma regra: nunca alocar mais do que 3% a 5% do patrimônio líquido de um FIDC em que investe.
“Quero ser importante, mas não quero ser o principal”, afirma Cote Gil.
A regra serve a dois objetivos complementares. Do lado da Vinland, limita a concentração de risco em uma única estrutura. Do lado do originador, estimula a busca por fontes diversificadas de financiamento, o que tende a produzir estruturas mais robustas, com menor dependência de um único investidor.
Fundos com base de cotistas diversificada são geralmente mais estáveis em momentos de stress do mercado, pois o risco de resgates simultâneos e descoordenados é menor. A regra dos 3% a 5%, nesse sentido, é tanto uma proteção da carteira quanto uma contribuição para a saúde do ecossistema.
Expansão faseada: do líquido ao ilíquido
Nos últimos quatro anos, a Vinland construiu uma linha de produtos que avança progressivamente do crédito mais líquido para estruturas de menor liquidez. A primeira fase priorizou fundos com resgate mais ágil. A segunda, estruturas fechadas, incluindo o VINF11, fundo de infraestrutura com cotas negociadas na B3, lançado no ano passado em parceria com a XP Investimentos.
O produto tem cotas sênior e subordinada, prazo de três anos e foi desenhado como alternativa às LCIs e LCAs oferecidas pelos bancos tradicionais, que concentram boa parte do crédito de infraestrutura no Brasil.
A terceira fase, ainda em estágio inicial, aponta para fundos fechados com foco em crédito imobiliário e agronegócio, dois segmentos que exigem presença física e equipes especializadas em regiões distantes dos grandes centros financeiros.
“Tem que ter alguém em Ribeirão, em Sorriso, viajando pelo Brasil”, reconhece Cote Gil, ao detalhar os desafios operacionais do agronegócio.
Para o segmento imobiliário, a gestora avalia a construção de estrutura própria ou uma parceria estratégica com outra gestora especializada. A tecnologia entra como aliada nesse processo, acelerando análises e acesso a bases de dados, mas o gestor é claro sobre seus limites.
“Apesar de estar usando bastante ferramentas de inteligência artificial, base de dados, ter acesso rápido a conclusões, ainda assim, eu sinto que a gente precisa de equipe”, admite.
Cenário macro: vida “medíocre”, mas rentável
O pano de fundo macroeconômico descrito por Cote Gil é de estabilidade moderada e pouca perspectiva de mudança estrutural. Juros abaixo de 10% ao ano seguem fora do horizonte, independentemente do resultado eleitoral de 2026. O crescimento econômico continuará limitado pelo distanciamento do Brasil das cadeias globais de tecnologia. E o ciclo de crédito seguirá oscilando a cada três anos, ritmo que o mercado já internalizou após os episódios de stress do período pós-pandemia e do escândalo contábil das Americanas.
“O ganho, na época boa, é restrito. Agora, na hora que vêm as perdas, se você não desviar bem delas, ela pode te comprometer um, dois anos de retorno”, alerta o gestor.
A conclusão que Cote Gil tira desse cenário é sóbria, mas encorajadora para quem opera no mercado de crédito com horizonte de médio prazo.
“A gente vai nessa vida meio medíocre, mas que dá para ganhar dinheiro, essa é a verdade.”
Para o gestor, quem mantém carteiras bem diversificadas e disciplina de gestão de risco tende a se beneficiar do efeito composto ao longo do tempo, mesmo em um ambiente sem grandes saltos de crescimento.
“Não precisa nem ir muito longe: janelas de três anos para cima, a maioria dos fundos que acompanho vão bem.”
Fonte: InfoMoney / Stock Pickers — Entrevista com Jean-Pierre Cote Gil, sócio e gestor da Vinland Capital (09/06/2026) Link original: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/gestor-ve-fraude-nao-inadimplencia-como-maior-risco-no-mercado-de-fidcs/













