Crédito no agro: inadimplência está no pico, mas a dor deve se prolongar, avaliam gestores e bancos

Painel com Banco Original, Agroland e Vinci Partners expõe o diagnóstico mais duro do mercado: sem margem para o produtor, não há solução para a inadimplência. O judiciário agrava o problema.

O crédito ao agronegócio vive seu momento mais delicado em anos. A inadimplência bateu no pico, o crédito encareceu, as garantias tornaram-se difíceis de executar e a confiança, o ativo mais fundamental do sistema financeiro, evaporou. Mas o problema não é o crédito em si. É a margem do produtor. Esse foi o diagnóstico unânime de um painel que reuniu representantes do Banco Original, da Agroland e da Vinci Partners para debater o ciclo atual do crédito agrícola e o que esperar dos próximos meses.

O pico da inadimplência: por que ele não significa alívio imediato

“A inadimplência no nosso entendimento está no pico. Só que não quer dizer que esse pico vai começar a recuar”, afirmou João, responsável pela área de agronegócio do Banco Original. “Eu acho que essa dor vai ser bem prolongada até a gente conseguir fazer com que isso comece a recuar.”

A distinção é importante: estar no pico não é o mesmo que estar em vias de melhora. Para João, a única saída sustentável passa pela recuperação da margem do produtor rural. “Não existe outra alternativa para uma redução da inadimplência do que o produtor voltar a ganhar dinheiro, voltar a ter uma margem que seja suficiente para ele honrar com os compromissos.”

Os números do setor reforçam a preocupação. Entre 2019 e hoje, a produção de grãos no Brasil saltou de 240 milhões para cerca de 350 milhões de toneladas, crescimento de aproximadamente 45%. O crédito ao setor, porém, saiu de pouco mais de R$ 200 bilhões para R$ 700 bilhões no mesmo período: crescimento três vezes superior ao da produtividade. “Isso demonstra que há uma ineficiência do crédito aplicado no agronegócio”, pontuou João.

Como chegamos aqui: o ciclo perfeito que virou tempestade perfeita

Alan, fundador da Agroland, banco digital criado há cinco anos com foco exclusivo no financiamento da cadeia agrícola, traçou o histórico que explica a crise atual. Entre 2020 e 2024, o Brasil viveu uma combinação raramente vista: juros na mínima histórica, commodities em alta, custeio barato e abundância de crédito. O resultado foi um apetite por risco excessivo generalizado.

“A gente viveu um ciclo onde todo mundo tomou mais risco e se alavancou demais”, disse. Quando o cenário inverteu, com juros subindo, soja caindo de R$ 180 para R$ 100-120 a saca e insumos encarecendo, os produtores mais vulneráveis ficaram expostos.

Segundo Alan, o problema de inadimplência no agro não é homogêneo. Há uma dicotomia clara: o produtor com produtividade de 60 a 70 sacas por hectare, com terra própria, está bem. Já quem opera abaixo de 30 a 40 sacas, com alto arrendamento e maquinário financiado no topo do ciclo, simplesmente não consegue ser rentável nas condições atuais.

“Os bancos grandes estão cortando a oferta de crédito para o produtor mais alavancado”, afirmou. “Daqui para frente, a gente enxerga uma consolidação. Os melhores produtores vão absorver quem não consegue se sustentar.”

A perspectiva de melhora foi fixada em 2027, quando uma eventual queda de juros deve começar a aliviar a pressão sobre o produtor rural. Por ora, o custo dos insumos segue elevado, pressionado, entre outros fatores, pelo impacto da guerra na cadeia global de fertilizantes, e o preço da soja em Chicago, na faixa de US$ 11-12 o bushel, não viabiliza produtores de baixa produtividade no câmbio atual.

A crise de confiança e o peso do judiciário

André, sócio da Vinci Partners, uma das maiores gestoras independentes da América Latina com cerca de US$ 60 bilhões sob gestão e estratégia recente no agro, trouxe um diagnóstico que atravessou toda a discussão: a crise do crédito no agro é, antes de mais nada, uma crise de confiança.

“O crédito na economia é o segmento que mais depende de confiança porque você entrega o dinheiro para o outro confiando que ele vai te devolver daqui um tempo”, disse. “E o que a gente menos tem hoje, quando olha o agro e o crédito, é confiança.”

A desconfiança se manifesta em múltiplas dimensões: incerteza sobre qual será a margem do produtor nos próximos meses; dúvida sobre se o juiz de primeira instância vai honrar a garantia em um eventual processo; insegurança sobre o funcionamento das recuperações judiciais, que passaram a ser usadas majoritariamente como instrumento de capital de giro em vez de reestruturação legítima.

O judiciário foi apontado pelos três participantes como um dos nós centrais do problema. “Tenho casos dentro do banco em que estou há 8 ou 9 anos com um bem consolidado e não consigo tomar a posse porque o judiciário não exerce a função para a qual foi designado”, relatou João.

O efeito prático é direto no preço do crédito. “Você tem uma garantia que poderia valer 10. Só que a execução dela vai demorar 2 a 3 anos. Eu preciso precificá-la de uma forma que, daqui a 2 ou 3 anos, ela pague o meu capital investido”, explicou. Isso encarece o crédito para todos os tomadores, inclusive os bons pagadores.

André sinalizou um lado positivo: “As decisões de segundo e terceiro grau seguem a lei. As garantias são rígidas. Demora, mas a gente consegue recuperar.” A mensagem ao investidor, portanto, é que a proteção existe, mas exige paciência.

Terra como último refúgio das garantias

Com garantias voláteis como recebíveis e estoques se tornando menos confiáveis, sujeitas a decisões de primeira instância que podem simplesmente “fazer sumir” o ativo, a alienação fiduciária de terra emergiu como o colateral preferencial do mercado.

“A terra é um bem não replicável, finita e tende a sempre se valorizar”, afirmou João. “A alienação fiduciária nos dá lastro financeiro: consigo captar mais barato e repassar mais barato.” O Banco Original estruturou um Fiagro específico para acelerar a execução de garantias e viabilizar renegociações com produtores que o banco considera viáveis. “O Fiagro ainda é uma tese em prova. Não foram muitos casos de consolidação e execução ainda, mas entendemos que vai nos dar mais agilidade.”

A Vinci Partners, por sua vez, estruturou duas teses na vertical de terras: aquisição e conversão de novas áreas (estratégia de longo prazo) e operações de sale & leaseback, em que o fundo já é proprietário do imóvel e o produtor tem a opção de recompra futura. “Terra é escasso. Qualquer single family office no mundo investe em fundo de terra porque é uma classe de ativo que anda com a inflação e é descorrelacionada dos outros ativos”, disse André. “A gente acredita que estamos comprando num momento adequado de mercado, a um preço defensivo para o investidor.”

O PL de renegociação e o risco moral

Com mais de R$ 100 bilhões em dívidas rurais em negociação no Senado, com estimativas que chegam a R$ 170 bilhões, e o Ministério da Fazenda alertando para o risco moral de produtores que optam por inadimplir para entrar em condições vantajosas de renegociação, o painel foi unânime: a renegociação pode ser necessária, mas precisa de critério.

“A gente não quer ter atrito com o cliente. Estamos dispostos a encontrar a melhor solução para passar por essa tempestade”, disse João. “Mas o PL precisa ser feito com muito cuidado porque geralmente esse tipo de ação favorece muito o oportunista.”

Alan foi direto: “A renegociação é uma ponte, não uma solução. Se você pegar alguém que teve uma frustração de safra por uma condição climática e postergar o vencimento da dívida, faz sentido, desde que esse produtor seja viável economicamente. Se você pega alguém que não é viável e segue postergando, está empurrando o problema para frente.” A distinção entre produtor viável e inviável, segundo ele, é o trabalho central da Agroland neste momento, com uso crescente de inteligência artificial para acelerar as análises de crédito.

Plano Safra: necessário, mas não suficiente

O debate se encerrou com a proximidade do novo Plano Safra. Os três participantes reconheceram a importância do instrumento, mas foram críticos à sua execução e à dependência estrutural que o setor construiu ao longo de décadas.

“O plano safra precisa chegar no produtor e chegar a tempo. O ano passado atrasou muito e os clientes perderam janela de plantio”, disse João. “Não existe agro sem margem.”

Alan destacou que, nos últimos anos, o crescimento do Plano Safra foi concentrado no Pronaf e no Pronamp, as faixas de menor tamanho. Para o grande produtor rural, o subsídio hoje é mínimo e a taxa praticada é próxima à de mercado. “O benefício econômico do Plano Safra para o grande produtor vem diminuindo ao longo do tempo.”

André foi mais contundente: “O país não pode continuar subsidiando o setor porque as condições fiscais não nos permitem seguir essa rota. A gente precisa buscar soluções sofisticadas e inovadoras para não depender do plano safra como dependíamos no passado.” A dependência era muito maior há 10 ou 15 anos. Hoje, FIAGROs, CRAs, CDCAs e outros instrumentos de mercado de capitais somam aproximadamente R$ 250 bilhões em crédito ao agro, dentro de uma cadeia total que se aproxima de R$ 1 trilhão, considerando crédito bancário, mercado de capitais e financiamento de fornecedores.

Perspectivas: consolidação, seletividade e otimismo de longo prazo

Apesar do diagnóstico duro no curto prazo, os três gestores mantêm uma visão estruturalmente positiva para o agronegócio brasileiro. “O mundo vai continuar comendo. O Brasil é o principal exportador de todas as commodities relevantes para a alimentação do mundo e tem o menor custo de produção do planeta”, disse André. “Isso não vai mudar nos próximos anos.”

A Agroland, que tem patrimônio líquido de cerca de R$ 600 milhões e carteira atual entre R$ 700 milhões e R$ 800 milhões, bem abaixo da alavancagem típica de um banco, declarou apetite para crescer R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão na carteira. “Quando todo mundo está pessimista, você precisa olhar além do ciclo”, disse Alan. “Este é o momento de fazer negócio com quem é realmente bom.”

O Banco Original também sinalizou 2026 como o ano de maior crescimento de carteira na sua história, movimento similar ao que fez em 2017, no fundo do ciclo anterior. “A gente conhece nosso cliente linha por linha, ponto por ponto. E entendemos que este cenário, por mais difícil que seja, vai passar.”


Fonte: Vídeo no Canal Brazil Journal com João (Banco Original), Alan (Agroland) e André (Vinci Partners)

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