Itaú Asset amplia posição em FIDCs e mira academias e locadoras enquanto mercado de crédito se reajusta

Com R$ 600 bilhões sob gestão em crédito privado, a Itaú Asset Management enxerga na turbulência recente do mercado uma janela de entrada para ativos descontados, e tem aumentado estruturalmente sua exposição a operações estruturadas, incluindo FIDCs, enquanto a indústria ainda digere uma onda de resgates.

O cenário: euforia dá lugar à seletividade

O mercado brasileiro de fundos de crédito privado entrou em uma fase de acomodação após anos de expansão acelerada. O estoque de debêntures (títulos corporativos de renda fixa emitidos por empresas) mais do que dobrou desde 2018, alcançando R$ 1,4 trilhão, segundo dados da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Esse ciclo de crescimento, impulsionado por juros em alta e maior financiamento via mercado de capitais, gerou uma indústria mais robusta, mas também mais exposta a eventos de crédito.

O ponto de inflexão veio com uma sequência de reestruturações de dívidas de grandes empresas (entre elas Raízen e GPA), que elevou a aversão ao risco entre investidores e provocou uma reprecificação generalizada dos spreads. O resultado foi visível no fluxo dos fundos: resgates líquidos de aproximadamente R$ 29 bilhões em abril e R$ 12 bilhões em maio, segundo dados compilados pela gestora JGP.

O comportamento dos investidores foi clássico de um mercado assustado: saída indiscriminada de posições, busca por estratégias mais conservadoras e migração para CDBs e fundos de menor risco, especialmente os com maior exposição a bancos.

A estratégia da Itaú Asset: comprar o que o mercado jogou fora

É nesse cenário de estresse que a Itaú Asset Management, maior gestora de crédito privado do Brasil com cerca de R$ 600 bilhões sob gestão nessa classe de ativos (equivalente a 25% do mercado), encontra oportunidade de alocação.

“Quando o mercado assusta, ele generaliza e vende tudo a efeito manada. Mas há operações pagando CDI +1,5% a CDI +3% em setores que gostamos”, disse Fayga Czerniakowski Delbem, sócia e superintendente de crédito core da Itaú Asset, em entrevista à Bloomberg News.

As apostas táticas da gestora incluem dois setores que, à primeira vista, parecem distantes do vocabulário clássico do crédito estruturado: academias de ginástica e locadoras de veículos. A lógica é simples: esses segmentos sofreram uma reprecificação de risco que a Itaú Asset considera exagerada, criando prêmios atrativos em relação ao risco efetivo das operações.

Do ponto de vista estrutural, a gestora segue alocada em setores regulados como energia e saneamento, que se beneficiam de receitas previsíveis e margens mais robustas em ambientes de juros elevados. A combinação entre apostas táticas em ativos descontados e posições estruturais defensivas define a estratégia atual da casa.

FIDCs ganham espaço no portfólio: crédito estruturado como diferencial

Além do mercado tradicional de debêntures e títulos de crédito corporativo, a Itaú Asset tem ampliado sua exposição a FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) no segmento de crédito estruturado. A gestora prioriza operações estruturadas e colocações privadas em setores onde possui maior proximidade com as empresas e capacidade própria de análise de risco.

“De forma estrutural, a gente segue vendo prêmio relativo ao risco muito interessante. Isso, em todos os fundos”, afirmou Fayga.

Um exemplo concreto é o fundo Sinfonia, veículo de crédito privado com mandato amplo gerido pela Itaú Asset. Segundo a gestora, a parcela alocada em crédito estruturado vem crescendo de forma ativa. O resultado recente corrobora a tese: o Sinfonia rendeu 144,91% do CDI em maio, numa fase em que boa parte dos fundos de crédito do mercado operava abaixo do benchmark.

A movimentação da Itaú Asset em FIDCs é sintomática de um movimento mais amplo na indústria. Em momentos de estresse no crédito aberto (debêntures e CRIs/CRAs negociados no mercado secundário), as operações estruturadas tendem a oferecer prêmios superiores com menor volatilidade de marcação, uma vez que são precificadas de forma diferente dos ativos de mercado.

Sinais de normalização: “o pior já passou”

A Itaú Asset avalia que a indústria brasileira de fundos de crédito privado está entrando em uma fase de normalização. O ritmo de resgates desacelerou de forma expressiva entre abril e maio, e os títulos de crédito começaram a apresentar alívio nas últimas semanas com o retorno gradual de compradores ao mercado.

“Os resgates seguem bastante controlados e o mercado já deu uma acalmada”, disse Fayga. “O volume de resgates já tem tendência de redução nos fundos de crédito tradicionais.”

A tese de que o pior já ficou para trás não é exclusiva da Itaú Asset. Conrado Rocha, sócio e gestor na Polo Capital, compartilha da visão: “Estamos trabalhando com a premissa de que o pior já passou. Os fundos estão remunerando bem mais do que estavam em dezembro. É uma oportunidade.”

Um dado relevante para entender a resiliência da indústria: os papéis de maior qualidade (classificados como AAA) pouco se moveram durante o período de estresse, com demanda robusta e investidores ainda dispostos a aceitar retornos mais comprimidos. O estresse ficou concentrado nos créditos de menor qualidade e nas operações das empresas que passaram por dificuldades financeiras, o que, na visão das gestoras, representa um ajuste técnico e não uma crise sistêmica.

O que os gestores de FIDC devem monitorar

O movimento da Itaú Asset tem implicações diretas para o mercado de FIDCs. A presença de um player de R$ 600 bilhões ampliando ativamente sua posição em crédito estruturado tende a reduzir os spreads das operações de melhor qualidade nos próximos meses, à medida que a demanda institucional retorna.

Para gestores e originadores de FIDCs, o ambiente atual apresenta uma janela de dupla oportunidade: de um lado, spreads ainda elevados em setores que sofreram reprecificação injustificada; de outro, a perspectiva de um ciclo de compressão de prêmios conforme os grandes players institucionais ampliam alocação.

A pergunta que fica para o mercado é até quando essa janela permanece aberta. Se a leitura da Itaú Asset e da Polo Capital estiver correta, e o pior já tiver passado, o prêmio disponível hoje pode ser significativamente menor daqui a seis meses.

“Se encerramos maio com cotas boas, se entrega um ou dois meses de quotas boas, podemos ter uma inflexão importante no fluxo de resgates”, disse Fayga. Para quem está avaliando alocação em crédito estruturado, o relógio está correndo.


Fontes: Bloomberg Línea Brasil, Vanessa Dezem e Giovanna Belotti Azevedo (17/06/2026) | ANBIMA | JGP

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