Foto: Michael Nagle/Bloomberg
O maior hedge fund do mundo comprovou que performance e valor de mercado não andam sempre juntos: enquanto o fundo principal bate recordes, investidores institucionais cortam o valuation da gestora em bilhões de dólares e saem com desconto
O paradoxo da performance
Na lógica do mercado de fundos, ganhar mais deveria valer mais. A Bridgewater Associates, a maior gestora de hedge funds do mundo com US$ 102 bilhões sob gestão, está descobrindo na prática que essa equação pode funcionar ao contrário, ao menos quando o ganho vem acompanhado de um encolhimento deliberado dos ativos.
O fundo macro principal da gestora, o Pure Alpha, registrou retorno de 34% em 2025, o melhor resultado em anos. Para investidores que apostaram no fundo como veículo de alocação de capital, a notícia é boa. Para quem apostou na Bridgewater como empresa, comprando participações societárias na gestora em si —, o recado do mercado tem sido diferente.
Dois dos sete acionistas institucionais da firma já venderam suas fatias de volta à Bridgewater com desconto em relação ao preço de compra: a família Koch, um dos núcleos de capital privado mais influentes dos Estados Unidos, e o Ontario Municipal Employees Retirement System (Omers), um dos maiores fundos de pensão do Canadá. Um terceiro, o Teacher Retirement System of Texas, que representa os professores do estado, optou por permanecer, mas cortou o valor contábil de sua participação em 9% no ano passado e agora busca vender a posição.
Os números revelam a dimensão da reavaliação em curso: o fundo dos professores do Texas, que em 2017 avaliava sua participação de 2,4% na Bridgewater em US$ 384 milhões (implicando um valuation total de US$ 16,3 bilhões para a gestora), passou a marcar essa posição por US$ 279 milhões em dezembro passado. O valuation implícito caiu para US$ 11,6 bilhões, uma redução de quase US$ 5 bilhões em pouco mais de meia década.
O que mudou: a lógica da reestruturação
A história começa quando Nir Bar Dea assumiu como co-CEO em 2022, em um momento em que a Bridgewater administrava cerca de US$ 150 bilhões em ativos. O Pure Alpha vinha há mais de uma década com desempenho abaixo de pares do setor.
O diagnóstico de Bar Dea era preciso e, ao mesmo tempo, incômodo: o fundo havia se tornado “capacity constrained”, limitado por sua própria capacidade. Em fundos hedge, isso ocorre quando o volume de capital administrado cresce a ponto de prejudicar a eficiência das estratégias, pois o fundo passa a mover o mercado que tenta explorar em vez de surfar suas ineficiências.
A solução adotada foi agressiva. Ao lado do codiretor de investimentos Greg Jensen, Bar Dea reestruturou equipes, cortou 7% dos funcionários em busca de agilidade operacional, investiu mais em inteligência artificial e, sobretudo, reduziu o volume do Pure Alpha. O resultado: os ativos totais da firma encolheram de US$ 150 bilhões para US$ 102 bilhões, queda de quase um terço em três anos.
A jogada funcionou para os investidores do fundo: o Pure Alpha ganhou 34% em 2025 e acumula 7,7% no ano até abril de 2026, com a gestora prometendo agora que o fundo vai superar sua meta de retorno em ao menos 65% das vezes, acima dos 50% anteriores às mudanças.
Funcionou também para o próprio negócio no curto prazo: os lucros da Bridgewater atingiram em 2025 um nível acima da média dos cinco anos anteriores, impulsionados pelas taxas de desempenho, e não mais pelas taxas de administração, que naturalmente encolheram com a redução dos ativos.
O que dizem os especialistas: a tensão estrutural entre GP e LP
A saída dos acionistas expõe uma tensão que qualquer gestor de fundo de investimento, seja um hedge fund americano ou um FIDC brasileiro, reconhece bem: o conflito entre quem gere (os general partners, GPs) e quem investe como acionista versus como cotista (limited partners, LPs).
“Como o Pure Alpha teve desempenho inferior por períodos enquanto ainda produzia receita significativa de taxas devido à sua escala, alguns investidores em participações podem ter ficado relativamente confortáveis com o status quo”, avalia Bruno Schneller, sócio-gerente do multifamily office Erlen Capital Management. “O que Nir Bar Dea parece estar fazendo é, na prática, forçar uma reformulação estratégica.”
Schneller resume a dualidade com precisão cirúrgica: “Os LPs querem disciplina de capacidade e fortes retornos líquidos. Investidores em participações de GP tendem a preferir fluxos de taxas estáveis e crescentes.”
Na prática, isso significa que um GP que reduz voluntariamente o tamanho do fundo para melhorar o retorno dos cotistas está, ao mesmo tempo, comprimindo sua própria receita de administração, e, consequentemente, o valor percebido do negócio para quem tem participação na gestora.
É uma lógica que ressoa além de Greenwich, Connecticut, onde a Bridgewater tem sede. No mercado brasileiro de fundos estruturados, gestores de FIDCs que trabalham com crédito originado também enfrentam essa dinâmica: há um ponto ótimo de escala acima do qual a qualidade da carteira se deteriora. Crescer demais significa aceitar operações de menor qualidade, o que eventualmente corrói o retorno, e o valor da plataforma.
Perspectivas: o que vem a seguir
A reorganização do quadro de acionistas da Bridgewater deve continuar. Além das saídas já confirmadas de Koch e Omers e da potencial saída dos professores do Texas, o Abu Dhabi Investment Council (ADIC) chegou a considerar brevemente se desfazer de sua participação antes de decidir permanecer. O fundo soberano de Brunei, por sua vez, retirou capital de uma estratégia da Bridgewater para, ironicamente, comprar uma fatia de quase 20% na própria firma, sinalizando que há quem veja valor na virada.
Há também um dado que fala por si sobre a confiança interna: quando a Bridgewater ofereceu recentemente a funcionários atuais e ex-funcionários a chance de vender suas ações de volta à empresa, todos exceto quatro disseram não.
O próprio fundador Ray Dalio, que criou a Bridgewater em seu apartamento de dois quartos em 1975, vendeu o restante de sua participação no ano passado com desconto, encerrando um ciclo de cinco décadas. O timing não passou despercebido pelo mercado.
A questão que permanece em aberto é se o Pure Alpha vai conseguir manter a performance de 2025 em escala reduzida, e se a Bridgewater vai conseguir convencer novos acionistas de que um negócio menor, mas mais rentável, vale mais do que o peso histórico de seu AUM.
“A questão mais importante é se isso sinaliza uma Bridgewater mais saudável e sustentável daqui em diante”, reflete Schneller. “Se o desempenho permanecer medíocre mesmo em escala reduzida, então a pressão tanto dos LPs quanto dos investidores em participações de GP provavelmente vai se intensificar de forma significativa.”
Por ora, a maior gestora de hedge funds do mundo está apostando em uma tese que inverte décadas de lógica do setor: menos pode valer mais. O mercado ainda está decidindo se acredita nisso.
Fonte: Bloomberg Línea Brasil | Hema Pamar, Preeti Singh e Layan Odeh (20/06/2026)













