O executivo financeiro além dos números: articulação, cenários e capacidade de adaptação
Avanço da inteligência artificial, cenários econômicos menos previsíveis e pressão crescente por resultados aceleram mudanças no papel dos líderes financeiros.

De acordo com o CFO Survey Q2 2026, da Grant Thornton, 40% dos entrevistados estão pessimistas em relação à economia, contra 37% de otimistas. Ainda assim, 67% planejam ampliar os investimentos em transformação digital nos próximos 12 meses. O contraste coloca os executivos financeiros diante de decisões de investimento em um ambiente de incerteza, no qual a leitura de cenários, a avaliação de riscos e a capacidade de adaptação ganham importância.
Esse contexto também aparece na trajetória dos executivos financeiros. Responsáveis historicamente pela análise de resultados, planejamento orçamentário e gestão de riscos, os CFOs vêm assumindo posições mais estratégicas dentro das organizações. Segundo a Crist Kolder Associates, 10,26% dos CEOs em exercício nas empresas da Fortune 500 e do S&P 500 vieram diretamente da cadeira de CFO em 2025, contra 7,1% em 2024 e 6,5% em 2015, o maior percentual da série histórica. Em sucessões não planejadas, o CFO também aparece como uma escolha recorrente: levantamento do BCG de 2026 mostra que esses executivos são escolhidos em 19% dos casos, contra 8% do COO.
A ampliação das responsabilidades também muda o que se espera da formação desses profissionais. O CNEX, plataforma brasileira de transformação executiva que combina metodologia proprietária e chancelas globais do MIT Sloan Management Review Brasil, Harvard Business Impact e CKGSB, atua com a premissa de que essa evolução exige uma nova abordagem para a formação de lideranças. O desafio é reconhecido pelo próprio mercado. Uma pesquisa da Gartner com 100 CFOs, realizada em 2026, apontou a construção de talento em inteligência artificial dentro das áreas de finanças como o principal desafio dos seis meses seguintes e recomendou priorizar a requalificação das equipes existentes. Pensamento estratégico, inteligência de dados, comunicação e tomada de decisão passam, nesse contexto, a ocupar espaço relevante na formação dos executivos financeiros.
"O papel do líder financeiro mudou. Hoje, ele precisa ir além da análise dos indicadores, de ser consultivo, e contribuir diretamente para a construção da estratégia do negócio, lado a lado com gestores de áreas antes distantes, como TI e logística. Em ambientes de maior incerteza, a capacidade de interpretar sinais, conectar informações e tomar decisões com visão de longo prazo se torna um diferencial competitivo", afirma Douglas Souza, CEO do CNEX.
O cenário econômico reforça a importância dessa capacidade de leitura. A Pesquisa de Economia Bancária e Expectativas da Febraban, referente a fevereiro de 2026, mostra que a parcela de instituições que projetavam crescimento do PIB de 1,8%, em linha com o consenso de mercado, caiu de 55,0% para 38,1%. Ao mesmo tempo, 33,3% esperavam um crescimento menor e 28,6%, um crescimento maior, evidenciando maior dispersão nas expectativas. Para as empresas, essa falta de convergência torna mais complexa a definição de planos e exige lideranças preparadas para avaliar diferentes possibilidades e ajustar suas estratégias.
A inteligência artificial acrescenta outra camada de complexidade à atuação dos executivos financeiros. Segundo o CFO Signals, estudo da Deloitte referente ao quarto trimestre de 2025, 87% dos CFOs esperam que a IA seja extremamente ou muito importante para a operação de finanças em 2026, enquanto 50% apontam a transformação digital da área como a principal prioridade do ano. Ao mesmo tempo, a Gartner mostra que 84% dos CFOs ainda não identificaram retorno sobre o investimento em IA em finanças, embora 89% planejem aumentar os gastos com a tecnologia em 2026. A diferença entre o ritmo dos investimentos e os resultados obtidos coloca sobre os líderes financeiros a responsabilidade de avaliar oportunidades, estabelecer prioridades e direcionar recursos.
A pressão por novas competências tende a crescer com a adoção dessas tecnologias. Na pesquisa global Finance Trends 2026, realizada pela Deloitte, habilidades relacionadas à inteligência artificial e automação aparecem como a principal prioridade de desenvolvimento profissional na área financeira. A Gartner projeta que, até 2030, 90% dos profissionais de finanças serão considerados “digital talent”, com competências em finanças e tecnologia. A consultoria também estima que CFOs que tratarem a IA como um portfólio estratégico poderão capturar até 10 pontos percentuais adicionais de margem até 2029.
A comunicação completa esse conjunto de competências. Em levantamento da Deloitte com 200 CFOs de grandes organizações norte-americanas, 39% apontaram a capacidade de explicar resultados e traduzir informações complexas de forma clara como a característica mais valorizada para a próxima geração de líderes financeiros. Pesquisa da Egon Zehnder com CFOs identifica liderança, visão de negócio, comunicação, expertise financeira e gestão de stakeholders entre as cinco competências mais buscadas em um sucessor. Quatro estão relacionadas a aspectos comportamentais. Ainda assim, 35% dos CFOs afirmam não ter hoje um sucessor pronto, o que coloca a preparação de novas lideranças entre os desafios da função.
A perspectiva para os próximos anos aponta para uma atuação ainda mais integrada entre finanças, tecnologia e estratégia. Segundo a Gartner, cerca de 60% da análise financeira customizada deverá ser substituída por ferramentas de inteligência artificial até 2029. Para os executivos financeiros, a expansão dessas ferramentas aumenta a demanda por profissionais capazes de interpretar informações, dialogar com diferentes áreas e tomar decisões alinhadas aos objetivos do negócio. A capacidade de articulação e julgamento passa, assim, a ter peso crescente na atuação do CFO.
FIDC NEWS
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