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Enquanto a indústria de fundos multimercados acumula saídas superiores a R$ 500 bilhões desde 2022 e a maioria das gestoras amarga desempenho abaixo do CDI, um grupo de 46 fundos conseguiu o que virou exceção no mercado brasileiro: entregar retornos consistentemente acima do benchmark. O levantamento, publicado pelo portal e-Investidor do Estadão, acende um alerta e uma oportunidade para gestores e alocadores que ainda apostam na categoria.
O cenário de fundo é dramático. Nos últimos três anos, 81% do patrimônio investido em multimercados rendeu abaixo do CDI, o indicador que funciona como piso mínimo de exigência para qualquer fundo que cobra taxa de administração e promete gestão ativa. Em dez anos, segundo estudo da SulAmérica Investimentos que analisou 5.963 fundos, apenas 29% do patrimônio total gerou retorno acima do CDI após descontar a taxa de administração. Na prática, isso significa que 71% do dinheiro investido na categoria beneficiou mais os gestores do que os próprios cotistas.
O colapso da categoria e a fuga dos alocadores
A crise dos multimercados não é nova, mas ganhou contornos estruturais a partir de 2022, quando o Banco Central iniciou um dos ciclos de alta de juros mais agressivos da história recente, levando a Selic a 13,75% ao ano e, posteriormente, acima de 14%. Com a renda fixa entregando retornos elevados e com baixíssimo risco, a lógica do investidor mudou radicalmente: por que correr risco em um fundo multimercado se o CDI entrega 14% ao ano com liquidez diária?
Os dados de captação contam essa história com brutalidade. Em 2025, os resgates líquidos da categoria somaram R$ 58,9 bilhões, segundo a ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). O número representa uma melhora em relação aos anos anteriores, com queda de quase 80% no volume de resgates, mas ainda sinaliza uma indústria em processo de consolidação forçada.
Famílias ricas e multi family offices, os grandes alocadores da categoria, já reduziram drasticamente sua exposição. “Em nossos portfólios, um perfil que poderia ter 20% de multimercados hoje tem 5%”, resume Eduardo Castro, CIO da Portofino Multi Family Office. Marco Bismarchi, sócio da TAG Investimentos, vai além: “Estamos no segundo pior momento da aposta ‘kit Brasil’, perdendo apenas para o período do impeachment da Dilma. Temos reduzido a alocação em multimercados para cerca de 5% a 7%, com grande preocupação com a sobrevivência de algumas gestoras.”
O resultado é um mercado menor e mais concentrado. Em 2024, pela primeira vez, mais gestoras encerraram suas estratégias de multimercados do que as abriram: nove fecharam a categoria para apenas duas novas entrantes. Em 2023, o saldo já havia sido zero. Entre 2014 e 2022, o movimento era o inverso, com criação superando a destruição de fundos.
Os fundos que sobreviveram e entregaram
É nesse cenário que o mapeamento dos fundos com retorno bem acima do CDI ganha relevância editorial e analítica. O que diferencia esses veículos do restante da indústria?
A resposta aponta para um padrão claro: as gestoras vencedoras são aquelas que investiram em estratégias sofisticadas e diversificadas, longe do chamado “kit Brasil”, a combinação tradicional de Ibovespa e DI que funcionou bem em outros ciclos econômicos, mas que ficou para trás quando a economia global se fragmentou e a volatilidade dos ativos domésticos aumentou.
Levantamento do InfoMoney com dados da Economática, considerando fundos com patrimônio superior a R$ 500 milhões até dezembro de 2025, mostra retornos chegando a 45% no ano, com o CDI no período em torno de 14,5%. São destaque fundos de crédito privado e de estratégias diferenciadas, como o Equity Hedge da SPX, que faz arbitragens com ações. Desse universo, 30 fundos conseguiram ganhos acima de 20% no ano.
Maiores rentabilidades entre fundos com patrimônio acima de R$ 500 milhões (ano até dez/2025)
| Fundo | Gestora | Patrimônio (R$ mil) | Retorno no ano (%) | Volatilidade (% ao ano) |
|---|---|---|---|---|
| SPX Hornet Equity Hedge Master | SPX Capital | 2.531.821 | 45,03 | 7,67 |
| Gazin FI Mult Cred Priv | Petra Capital | 1.451.023 | 37,25 | 1,54 |
| Frade III Cred Priv | Vista Real Estate | 521.730 | 33,61 | 7,06 |
| Itaú Artax Ultra Mult | Itaú Asset | 596.916 | 29,66 | 6,27 |
| FIF Mult. LT Cred Privado | BTG Pactual | 1.288.821 | 29,49 | 14,35 |
| Hdf FIF Mult | Opportunity | 894.349 | 28,13 | 12,55 |
| Itaú Vql FIF Mult | Itaú Asset | 945.644 | 27,42 | 6,70 |
| Dahlia Total Return Master | Dahlia Capital | 1.167.953 | 27,05 | 11,74 |
| Valbuena Cred Priv. | BTG Pactual | 5.330.629 | 26,26 | 9,14 |
| Genoa Capital Sagres Master | Genoa Capital | 856.699 | 26,14 | 5,77 |
| Parcitas Hedge Master | Parcitas Invest. | 722.718 | 24,63 | 8,35 |
| Itaú Janeiro Mult | Itaú Asset | 3.926.999 | 24,02 | 3,95 |
| Mar Absoluto Master | Mar Asset Manag. | 2.023.841 | 23,92 | 11,41 |
| Itaú Vértice Multimesas | Itaú Asset | 1.819.930 | 22,86 | 5,50 |
| Valute Mult Cred Priv | Intrabank Asset | 594.622 | 22,31 | 11,31 |
Fonte: Economática/InfoMoney. Dados no ano até 10 de dezembro de 2025.
Há ainda a dimensão dos grandes fundos por patrimônio, onde as rentabilidades são mais modestas, em vários casos próximas ou abaixo do CDI, com estratégias voltadas principalmente para crédito privado e baixa volatilidade.
Maiores fundos por patrimônio e seus retornos em 2025
| Fundo | Gestora | Patrimônio (R$ mil) | Retorno no ano (%) | Volatilidade (% ao ano) |
|---|---|---|---|---|
| Salus Fundo de Invest | Lume Investimentos | 13.606.024 | 10,60 | 4,14 |
| Capstone Macro Master | Capstone | 11.640.181 | 15,37 | 6,17 |
| Nhdp FIF Mult | Opportunity Gestora | 10.795.029 | 15,95 | 8,60 |
| Absolute Vertex Master | Absolute Gestão | 10.331.929 | 11,53 | 4,75 |
| Itaú Sinfonia | Itaú Asset | 8.693.337 | 14,67 | 0,40 |
| BB Milênio 2 | BB Asset | 8.183.083 | 13,63 | 0,10 |
| Itaú Active Fix Dual Cred Priv | Itaú Asset | 7.594.438 | 15,09 | 0,47 |
| SPX Raptor Master | SPX Capital | 7.580.479 | 8,22 | 9,61 |
| Genoa Capital Vestas Master | Genoa Capital | 6.982.922 | 14,26 | 7,07 |
| Kapitalo K10 Master | Kapitalo Ciclo | 6.272.720 | 21,00 | 7,13 |
| Verde Master | Verde Asset | 5.759.141 | 16,42 | 3,56 |
| Qp Conservador RF Cred Priv | Somma Invest. | 5.675.824 | 12,69 | 0,32 |
| SPX Nimitz Master | SPX Capital | 5.652.890 | 10,44 | 4,83 |
| FIF Mult. LT | BTG Pactual Gestão | 5.330.629 | 26,26 | 9,14 |
| BB Top Juros e Moedas | BB Asset | 5.079.429 | 11,48 | 1,96 |
Fonte: Economática/InfoMoney. Dados no ano até 10 de dezembro de 2025.
O IHFA (Índice de Hedge Funds da ANBIMA) encerrou 2025 com ganho de 15%, acima da alta de pouco mais de 14% do CDI no período. Foi a primeira vez desde 2022 que a classe, como um todo, superou o benchmark. Mas a média esconde uma dispersão brutal: enquanto alguns fundos entregaram retornos de 20% a 45% acima do CDI, outros acumularam perdas expressivas.
“Para ter bom retorno é preciso ter bons profissionais, que custam caro”, afirma Fernando Donnay, portfólio manager da G5 Partners. “O que estamos vendo é um aumento da barreira de entrada para se ter uma gestora. Se antes muita gente saía dos bancos para criar a sua gestora, agora estamos vendo o movimento inverso.”
A reinvenção do modelo de negócio
A crise também está reformatando as taxas cobradas pela indústria. O modelo histórico de “2 com 20”, ou seja, 2% de taxa de administração mais 20% de performance sobre o que exceder o benchmark, está em colapso. Para justificar essa estrutura de custos, um fundo precisaria entregar CDI+4% ao ano de forma consistente, o que exige tomada de risco expressiva. E tomada de risco, num ambiente de juros altos e aversão crescente ao risco, virou tabu.
Os dados do estudo da SulAmérica mostram que o percentual de fundos multimercados que cobra até 1% de taxa de administração saltou de 36% para 44,6% em dez anos. A faixa entre 1,5% e 2% concentra 38,3% dos fundos, e taxas acima de 2% respondem por apenas 0,5% da indústria.
“Para um fundo cobrar 2% com 20%, ele tem que entregar CDI+4%, o que só é possível tomando risco. Mas aqui no Brasil, com um mercado avesso ao risco, muitos gestores foram diminuindo sua exposição ao risco e, assim, o seu retorno”, explica Marcos Macedo, head de investimentos da Faros Multi Family Office. “Não há mais espaço para assets que cobram caro e não tomam risco.”
A concentração de receita é outro reflexo estrutural da crise. Os dados mostram que metade das gestoras aufere uma receita média com taxa de administração menor do que R$ 250 mil por ano, insuficiente para manter uma equipe de análise qualificada. As 25% maiores, por outro lado, embolsaram em média R$ 40 milhões anuais. Em 2023, apenas sete gestoras, BB, Legacy, Ibiuna, Kapitalo, SPX, Brasilprev e Itaú, responderam por 50% de toda a receita com taxa de administração da indústria.
Perspectivas para 2026: janela apertada, seletividade obrigatória
O ambiente para os multimercados em 2026 segue desafiador, embora com nuances mais favoráveis do que nos dois anos anteriores. O CDI ainda elevado, reflexo de uma Selic que permanece em patamar restritivo, mantém a régua alta para qualquer estratégia de risco. O cenário eleitoral para 2026 adiciona uma camada extra de incerteza, com investidores monitorando de perto os sinais sobre a condução da política fiscal a partir de 2027.
Para os gestores que conseguiram sobreviver e performar, o momento pode representar uma oportunidade de captação. Com parte da concorrência abandonando a categoria, os sobreviventes têm a chance de ganhar market share sem precisar disputar investidores no varejo.
“Estamos vendo uma janela de retomada gradual”, avaliam analistas do setor. “Mas o investidor está muito mais exigente e seletivo. Ele já foi queimado antes. Para voltar, precisa de track record sólido, transparência na estratégia e uma justificativa clara para o risco que está sendo tomado.”
Para o mercado de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e crédito privado em geral, a crise dos multimercados tem uma leitura paralela: parte do capital que saiu da categoria foi redirecionado para fundos de crédito estruturado, que entregaram prêmios atrativos sobre o CDI com menor volatilidade percebida. Essa migração, acelerada pela regulação mais robusta da CVM sobre FIDCs via Resolução 175, consolida o crédito privado como alternativa de destino para o investidor institucional que busca alfa sem a volatilidade dos mercados de risco tradicionais.














