O crédito estruturado reescreve o mapa do financiamento corporativo no Brasil.

FIDCs batem recorde histórico no 1T26 com R$ 21,9 bi em captação.

NNo primeiro trimestre de 2026, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios registraram o maior volume de captação da série histórica e cresceram 38% sobre o mesmo período do ano anterior, consolidando-se como o principal motor do mercado de capitais de dívida. O dado acende um alerta positivo para gestores e originadores: a janela de acesso para emissores do middle market nunca foi tão ampla.


Contexto: de instrumento de nicho a pilar do mercado de capitais

Durante anos, os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) foram encarados como veículos de crédito estruturado voltados a grandes corporações e operações bilionárias. A estrutura era considerada complexa demais, cara demais e restrita demais para empresas fora do radar dos grandes bancos de investimento.

Esse cenário começou a mudar com a Resolução CVM nº 175, em vigor desde 2023, que modernizou o marco regulatório da indústria de fundos e conferiu maior flexibilidade operacional aos FIDCs. O novo ambiente regulatório, somado ao ciclo de juros elevados que encareceu o crédito bancário tradicional, criou as condições ideais para que o instrumento deixasse de ser nicho e se tornasse rota alternativa de financiamento para um universo cada vez mais amplo de empresas.

O resultado aparece nos números. A indústria encerrou 2025 com patrimônio líquido superior a R$ 820 bilhões, distribuídos em 3.729 fundos operacionais, alta de 47% sobre o patrimônio registrado no mesmo período de 2024. Mas foi o começo de 2026 que surpreendeu até os analistas mais otimistas.


O que mudou: 1T26 e o recorde que redefine a indústria

Os dados do primeiro trimestre de 2026, apurados pela plataforma TrendsCE e reportados pelo Let’s Money, mostram que os FIDCs captaram R$ 21,9 bilhões no período, o maior volume trimestral da série histórica. O crescimento foi de 38% sobre o 1T25, em um momento em que o mercado de capitais de dívida como um todo avançou 22,5% (R$ 192,4 bilhões em emissões no trimestre).

Isso significa que os FIDCs cresceram a uma velocidade 70% superior à média do mercado de capitais de dívida. O instrumento, que em anos anteriores disputava protagonismo com debêntures e CRIs/CRAs, agora puxa a fila.

O motor desse crescimento tem nome: middle market. Empresas de médio porte e companhias familiares, que historicamente dependiam do crédito bancário e tinham acesso limitado ao mercado de capitais, estão migrando em ritmo acelerado para estruturas de FIDC. Para essas empresas, o instrumento resolve um problema crônico: obter funding com custo previsível e prazo compatível com o ciclo operacional do negócio, sem a exigência de garantias reais que os bancos tradicionais costumam impor.

Plataformas especializadas em fundos multicedente-multissacado, modelo em que um único FIDC agrega recebíveis de dezenas ou centenas de cedentes, foram fundamentais para escalar esse acesso. A aquisição da Tercon pela Kanastra, anunciada em abril, é o exemplo mais recente desse movimento: com 323 fundos e R$ 60 bilhões em ativos sob serviço, a Kanastra assume a liderança da indústria e sinaliza que a disputa por escala nesse segmento apenas começou.


Análise: o FIDC como solução para a desbancarização do crédito corporativo

“O crescimento dos FIDCs não é um fenômeno isolado; ele reflete uma mudança estrutural no modo como as empresas brasileiras acessam capital”, avalia o mercado. A combinação de juros reais elevados, infraestrutura regulatória consolidada e plataformas digitais de originação criou um ecossistema favorável que deve perdurar mesmo com eventual início de ciclo de queda da Selic.

O dado da ANBIMA reforça a profundidade da mudança: o volume investido em crédito privado nos fundos saltou de R$ 533 bilhões em 2023 para R$ 956 bilhões em janeiro de 2026, alta nominal de quase 80% em três anos. No mesmo período, o mercado secundário passou a movimentar mais de R$ 7 bilhões por dia, indicando que a liquidez do instrumento, historicamente um ponto fraco dos FIDCs, está em processo de maturação.

Para gestores de FIDC, o cenário é de oportunidade, mas também de responsabilidade. O apetite crescente por parte de emissores do middle market exige critério redobrado na seleção e monitoramento dos cedentes, especialmente porque parte desse crescimento coincide com uma onda de recuperações extrajudiciais que está redefinindo a qualidade do crédito privado em circulação.


Perspectivas: R$ 1 trilhão à vista e o próximo desafio do setor

Com R$ 820,7 bilhões em patrimônio e captação acelerando, a projeção de que os FIDCs superem a marca de R$ 1 trilhão em 2026 deixou de ser otimismo e passou a ser consenso. Analistas da Uqbar e Capital Aberto indicam que o marco pode ser atingido ainda no segundo semestre, dependendo do ritmo de novas emissões e da entrada de emissores de menor porte.

O maior desafio para os próximos meses não é a demanda, que segue aquecida, mas a capacidade de originação com qualidade. O gargalo do setor migrou do lado do investidor para o lado do emissor: encontrar cedentes com recebíveis performando, estruturas jurídicas adequadas e governança suficiente para sustentar a captação no mercado de capitais é o novo campo de batalha.

Plataformas que dominarem esse processo de originação escalável, e que conseguirem combinar tecnologia com análise de crédito rigorosa, tendem a capturar a maior fatia do crescimento que ainda está por vir. Para o investidor qualificado, o momento é de atenção seletiva: o crescimento da indústria é real, mas nem todo FIDC que capta bem é um FIDC que paga bem.

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