Estrela pede recuperação judicial: o que a queda do Banco Imobiliário revela sobre o custo do crédito

Selic elevada, dificuldade de acesso ao crédito e competição com produtos digitais aceleram deterioração financeira de ícone industrial fundado em 1937

Com prejuízo de R$ 24,26 milhões em 2024, ações ESTR4 em queda de 38,5% no ano e valor de mercado de apenas R$ 33,4 milhões, a fabricante de brinquedos Estrela entrou com pedido de recuperação judicial na Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, na quarta-feira, 20 de maio. O movimento, comunicado à B3 pela própria companhia, derrubou as ações mais 33% no pregão do dia e adicionou mais um nome a uma lista que cresce a cada semana: empresas que recorrem à Justiça para reestruturar passivos acumulados em ciclos de crédito cada vez mais caros.

Para o mercado de crédito estruturado, o caso da Estrela não é apenas uma história de nostalgia corporativa. É um termômetro.

O peso do juro sobre o caixa corporativo

A Estrela existe há 89 anos. Ao longo desse tempo, sobreviveu a ditadura, hiperinflação, Plano Real e ao surgimento da internet. Mas a combinação de Selic a 14,5% ao ano com dificuldade crescente de acesso a crédito, apontada pela própria empresa em seu fato relevante, mostrou-se mais difícil de absorver do que qualquer crise anterior.

No comunicado assinado por Carlos Tilkian, diretor de relações com investidores, presidente e principal acionista da companhia, a Estrela lista três vetores para justificar o pedido: o aumento do custo de capital e a restrição de crédito; a mudança no comportamento do consumidor, com maior competição de alternativas digitais; e os impactos acumulados sobre a estrutura financeira ao longo dos últimos anos.

A fórmula é conhecida por qualquer analista de crédito corporativo: quando a taxa de juros sobe e os bancos ficam mais seletivos, empresas com geração de caixa frágil e histórico de prejuízo recorrem a instrumentos de mercado de capitais. Quando esses instrumentos também fecham a janela, a Justiça vira a última saída.

O prejuízo líquido de R$ 24,26 milhões em 2024 representou alta de 11,3% sobre os R$ 21,8 milhões de 2023. A trajetória é de deterioração consistente, não de choque pontual.

O pedido e o que envolve

O ajuizamento da recuperação judicial abrange oito empresas do grupo Estrela: Brinquemolde Licenciamento Indústria e Comércio, Catu Comércio de Cosméticos, Editora Estrela Cultural, Estrela Distribuidora de Brinquedos, JM Comércio e Indústria de Plásticos, Manufatura de Brinquedos Estrela, Starcom do Nordeste e Starcom Ltda. A companhia não divulgou o valor total da dívida nem a data para apresentação do plano de recuperação.

A Estrela afirma que as operações industriais e comerciais continuam normalmente durante o processo. A empresa destaca ter produzido mais de 26 mil brinquedos diferentes ao longo de sua história, com marcas como Banco Imobiliário, Detetive e Genius que atravessaram gerações.

Carlos Tilkian não respondeu a pedidos de comentário da imprensa até o momento da publicação.

A conexão com o mercado de crédito estruturado

O caso da Estrela não chega isolado ao radar do mercado de FIDCs, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios. Levantamento da gestora Chimera Capital, publicado em maio pelo portal Crédito Privado 360, mapeou 56 recuperações judiciais nos primeiros quatro meses de 2026 com dívidas superiores a R$ 10 milhões. No total, essas RJs envolvem R$ 29,3 bilhões em credores. Os FIDCs aparecem em 14 dessas transações, com exposição de R$ 3,8 bilhões.

Entre as empresas listadas pela Chimera Capital está a Xalingo, fabricante de brinquedos e concorrente direta da Estrela, com R$ 58,8 milhões em dívidas na RJ, sendo 1,5% delas com credores de FIDCs. O setor de brinquedos e varejo, portanto, já figura no radar dos gestores de crédito estruturado antes mesmo da recuperação judicial da Estrela.

“Ficará cada vez mais comum termos esses veículos em recuperações judiciais e extrajudiciais”, afirmou Rafael Fonseca Nogueira, chefe da área de recuperação de crédito da Chimera Capital, ao comentar o levantamento. A gestora observa que a indústria de FIDCs, ao popularizar o acesso a investidores de varejo após a Resolução CVM 175, passou a carregar riscos que antes ficavam restritos a credores institucionais.

O que dizem os especialistas

O contexto macroeconômico que levou a Estrela à RJ é o mesmo que gestores de renda fixa e FIDCs monitoram com crescente preocupação em 2026. A inadimplência do Sistema Financeiro Nacional subiu de 4,05% em novembro de 2025 para 4,44% em fevereiro de 2026. Os spreads de crédito no mercado secundário abriram significativamente no início do ano, desacelerando emissões de debêntures e forçando resgates que já superam R$ 24 bilhões em fundos de crédito só em abril.

Para Ulisses Nehmi, CEO da Sparta Investimentos, entrevistado pelo Seu Dinheiro nesta quinta-feira, 21 de maio, não há uma crise sistêmica em curso. “A gente não vê tanto o risco de quebradeira. Principalmente nas empresas de melhor qualidade, com mais musculatura financeira. De modo geral, o ambiente é saudável”, afirma. Mas o gestor reconhece que o processo de ajuste de spreads ainda não terminou e recomenda seletividade máxima na alocação em crédito privado.

A visão de que os casos recentes são pontuais, e não estruturais, é compartilhada por Felipe Thut, head de renda fixa e produtos estruturados do Bradesco BBI. “O que me preocuparia na trajetória de fechamento dos spreads do CDI seria surgir algum outro evento de crédito que não estamos vendo. Não temos no radar uma empresa caminhando nesse sentido”, declarou o executivo na terça-feira, 19 de maio, em encontro com jornalistas.

O problema, para gestores de FIDCs, é que a Estrela não estava no radar de ninguém.

Perspectivas: o que vem a seguir

A recuperação judicial da Estrela ainda precisa ser aceita pelo Juízo da Comarca de Três Pontas. Uma vez deferida, a empresa terá 60 dias para apresentar o plano de reestruturação aos credores, que precisarão aprová-lo em assembleia. O valor total da dívida, os principais credores e a eventual exposição de instrumentos de crédito estruturado só serão conhecidos com a publicação do plano.

O que já está claro é o sinal que o caso emite para o mercado: em um ambiente de Selic a 14,5%, crédito caro e consumidores disputados por alternativas digitais de baixo custo, setores com margens comprimidas e histórico de prejuízo acumulado enfrentam uma janela de sobrevivência cada vez mais estreita. E os FIDCs, que cresceram 92% em base de investidores em 2025, passaram a ser um credor relevante nesse cenário.

Para gestores de carteiras de FIDC com exposição a varejo, brinquedos, moda e saúde, o caso Estrela é mais um lembrete de que o processo de seleção de cedentes precisará ser ainda mais rigoroso no segundo semestre de 2026.


Fontes: NeoFeed, Crédito Privado 360, Seu Dinheiro, NeoFeed/Bradesco BBI
Categoria sugerida: Empresas / Crédito Estressado Tags sugeridas: FIDC, recuperação judicial, Estrela, crédito privado, Selic, spreads, Chimera Capital

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