Möbius Capital prepara fundo de crédito estruturado de R$ 1 bilhão para surfar onda de reestruturações

Eduardo Almendra, Renato Herkenhoff, Roberto Savaris e Murilo Moura, sócios-fundadores da Möbius Capital — Foto: Divulgação

Com R$ 800 milhões já sob gestão e um histórico de 101% de retorno em 30 meses no fundo anterior, a gestora independente consolida suas três estratégias em um único veículo e mira empresas fora do radar dos bancos: da recuperação judicial aos ativos reais em estresse


O cenário que criou a oportunidade

O Brasil registrou 2.466 pedidos de recuperação judicial em 2025, segundo a Serasa Experian, um recorde histórico. Para a maioria dos gestores de crédito, esse número é um sinal de alerta. Para a Möbius Capital, é exatamente o mercado que o novo fundo foi desenhado para acessar.

A gestora independente especializada em investimentos alternativos está estruturando um novo fundo de crédito estruturado com meta de captação de até R$ 1 bilhão. A proposta vai além do crédito corporativo tradicional: o veículo reunirá em uma única estrutura as três estratégias que a Möbius desenvolvia separadamente. São elas o crédito privado para empresas sem acesso ao mercado de capitais, os ativos reais em processo de venda forçada e as disputas judiciais (os chamados legal claims, incluindo precatórios).

A lógica por trás da consolidação é direta. Com mais diversificação e maior liberdade de alocação, o fundo pode aproveitar diferentes janelas do ciclo de crédito sem ficar preso a mandatos estreitos. Em um ambiente de alta inadimplência e restrição de liquidez para empresas médias, a flexibilidade é, em si, uma vantagem competitiva.

Quem é a Möbius e como chegou aqui

Fundada em 2021 por quatro executivos vindos do Credit Suisse, Eduardo Almendra, Renato Herkenhoff, Roberto Savaris e Murilo Moura, a Möbius nasce com um DNA deliberadamente focado no segmento de empresas que os bancos tradicionais deixam de lado: companhias em crescimento sem histórico suficiente para acessar o mercado de capitais, ou negócios maduros sob estresse financeiro que precisam de capital para destravar processos de reestruturação.

“Podemos prover capital tanto para empresas em crescimento, ajudando-as a se prepararem em termos de governança e auditoria para acessar o mercado de capitais, até companhias mais maduras que estão passando por estresse financeiro”, explica Renato Herkenhoff, sócio-fundador da gestora.

Hoje a Möbius acumula R$ 800 milhões sob gestão, distribuídos nos três fundos que serão convergidos em um único veículo. O mais consolidado deles, o Möbius Total Return I, dobrou o capital dos investidores desde setembro de 2023, acumulando retorno de 101% em 30 meses, equivalente a CDI + 16% ao ano.

Para construir sua tese no segmento agro, a gestora foi além da análise financeira convencional e desenvolveu um software proprietário de análise em tempo real de fazendas, que subsidia as decisões de investimento no fundo MBS Fazenda I Fiagro, de R$ 100 milhões, dedicado à compra e recuperação de terras agrícolas para posterior venda.

A estratégia do novo fundo: crédito, ativos reais e disputas judiciais

O novo veículo opera em três frentes. A primeira é o crédito estruturado para empresas, tipicamente com tickets entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões, em setores como agronegócio, infraestrutura e imobiliário. A segunda é a aquisição de ativos reais, como fazendas e infraestrutura logística, de empresários e companhias que precisam vender bens para levantar capital em momentos de estresse.

A terceira frente é a mais diferenciada: a compra de créditos de disputas judiciais, sejam precatórios (dívidas reconhecidas pelo Poder Público) ou legal claims de natureza privada. Essa estratégia permite à Möbius atuar como fornecedora de liquidez em um mercado onde a assimetria de informação e o prazo longo criam prêmios relevantes para quem tem estrutura para analisá-los.

“O aumento dos pedidos de recuperação judicial não nos assusta. A gente quer oferecer capital novo para as empresas destravarem os processos”, diz Eduardo Almendra, que antes do Credit Suisse atuou na área de clientes corporativos do Bank of America. “O nosso perfil não é ser um investidor belicoso nesses processos”, ressalta.

A distinção é importante: a Möbius não busca o controle de empresas em dificuldade nem a execução agressiva de garantias. O modelo é de provedor de capital, com estruturas de garantia robustas, mas com foco na recuperação do negócio e na valorização dos ativos ao longo do tempo.

Perspectivas: o que esperar do novo ciclo

O ambiente macro favorece a tese. Com a Selic ainda em patamar elevado e o acesso ao crédito bancário restrito para empresas fora do primeiro escalão, a demanda por capital alternativo deve permanecer aquecida. Ao mesmo tempo, o volume crescente de recuperações judiciais cria um pipeline de ativos reais a preços de estresse, exatamente o tipo de assimetria que fundos como o da Möbius são desenhados para capturar.

Para investidores do mercado de crédito estruturado, a consolidação das três estratégias em um único fundo com meta de R$ 1 bilhão representa também um ganho de escala operacional e potencial de melhor liquidez secundária nas cotas. O histórico de CDI + 16% ao ano do Total Return I tende a servir como referência para a captação do novo veículo e como parâmetro de expectativa para os novos cotistas.

O lançamento formal do fundo deve ocorrer nos próximos meses. A Möbius busca investidores profissionais e institucionais, com ticket mínimo condizente com o perfil de crédito estruturado de média-alta complexidade.


Fonte: Pipeline Valor Econômico, 27/05/2026

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