A Pesquisa de Duplicatas 2026, conduzida pela Núclea em parceria com o IBPad e a Môre Consultoria, mostra que o mercado financeiro brasileiro já trata a duplicata escritural como pauta estratégica. Com um mercado de recebíveis estimado em mais de R$ 11 trilhões por ano e mais de 1,5 milhão de empresas emissoras ativas, o instrumento entra na fase final antes da obrigatoriedade com expectativa alta e memória viva de um ciclo anterior que tropeçou na integração.
O tamanho do que está em jogo
A duplicata escritural é a versão digital e registrada do título de crédito mais utilizado no crédito corporativo brasileiro. Ao substituir o modelo físico por um registro eletrônico em plataformas autorizadas, ela cria um ativo com rastreabilidade completa, o que facilita sua negociação como garantia em operações de antecipação de recebíveis, desconto e securitização, incluindo os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).
O mercado que esse instrumento endereça é vasto. Segundo a pesquisa, são cerca de 1,5 milhão de empresas emissoras e mais de 18 mil grandes empresas sacadoras, com volume de recebíveis girando acima de R$ 11 trilhões ao ano. Grande parte desse estoque permanece fora do sistema financeiro formal, negociado de forma opaca, com informação fragmentada e garantias difíceis de executar. A duplicata escritural promete atacar exatamente esse gargalo.
Para FIDCs com estratégia em recebíveis corporativos, o impacto potencial é direto: mais títulos elegíveis, melhor qualidade da informação para precificação de risco e possibilidade de ampliar o universo de cedentes sem depender de relacionamento bilateral com cada originador.
O que a pesquisa revela sobre o avanço do mercado
O estudo ouviu instituições financeiras, associações, cooperativas de crédito, varejo financeiro e representantes da economia real. Os números indicam que o setor se moveu de forma consistente nos últimos meses.
Oitenta e dois por cento das instituições financeiras já têm roadmap estruturado ou em parte estruturado para a duplicata escritural, com investimentos e cronogramas definidos. O tema deixou de ser percebido apenas como exigência regulatória e passou a ocupar espaço nas estratégias de crescimento e modernização.
O otimismo sobre impacto se traduz em números concretos: 88% das instituições acreditam que o novo modelo vai ampliar a distribuição de crédito, com redução da assimetria de informações entre financiadores e tomadores. Entre todos os participantes da pesquisa, 63% apontam a ampliação da oferta de crédito como o principal sinal de sucesso do instrumento. Outros 41% citam a redução do custo dos financiamentos, e mais de 60% indicam coordenação tecnológica e interoperabilidade como fatores decisivos para o êxito da implementação.
A interoperabilidade como variável central
Para Rodrigo Furiato, vice-presidente de negócios da Núclea, o nó do projeto não está na tecnologia isolada de cada participante, mas na capacidade de todos falarem a mesma língua. “A interoperabilidade passa a ser uma camada central da nova infraestrutura do crédito corporativo. O mercado entende que o sucesso da duplicata escritural dependerá diretamente da capacidade de integração entre sistemas, registradoras, participantes e fluxos operacionais”, afirma.
Furiato vai além ao descrever o potencial ainda não realizado do mercado de recebíveis: “Com a duplicata escritural, o mercado de recebíveis como garantia pode ser destravado, gerando a oportunidade de muitos títulos que hoje estão fora do sistema serem efetivamente negociados.”
Núclea, Cerc e B3 são as três registradoras autorizadas pelo Banco Central. As três aguardam o aval do regulador, previsto para o intervalo entre junho e julho de 2026, para dar início à chamada operação assistida, última etapa antes da entrada em vigor da obrigatoriedade. O calendário de adesão será escalonado: 12 meses após o início da operação assistida para empresas de grande porte, mais seis meses para as de médio porte e outros seis para as pequenas. A lógica do escalonamento busca absorver os impactos tecnológicos de forma gradual e evitar os erros do ciclo anterior.
A sombra dos recebíveis de cartões
O mercado tem memória. A experiência com o registro de recebíveis de cartões, implementado entre 2020 e 2021, deixou marcas. O processo enfrentou fricções técnicas significativas, especialmente na integração entre sistemas e na conciliação de dados, e atrasos que geraram desconfiança sobre a capacidade operacional do ecossistema de absorver mudanças em escala.
A própria pesquisa indica que integração, liquidação e conciliação devem concentrar as principais fricções no novo ciclo. Furiato reconhece o histórico: “As registradoras passaram por uma longa bateria de testes individuais e de interoperabilidade, que foi a grande dor na época dos recebíveis de cartão.” O argumento é que dessa vez a preparação foi mais extensa e estruturada.
Para analistas do setor, a percepção de risco herdada do ciclo anterior é real, mas não necessariamente determinante. A diferença de contexto inclui um arcabouço regulatório mais maduro, três registradoras já com infraestrutura rodando e um mercado que passou quase cinco anos mapeando o que deu errado na primeira experiência. O peso, agora, está na execução da operação assistida.
Perspectivas para FIDCs e securitizadoras
Para o mercado de FIDC, a duplicata escritural representa uma mudança estrutural no pipeline de ativos. Hoje, a cessão de recebíveis corporativos exige processos manuais intensos de verificação, com risco de duplicidade, fraude ou inconsistência nos dados do título. Com o registro eletrônico centralizado nas registradoras, o lastro dos títulos que compõem a carteira de um fundo ganha rastreabilidade e padronização, o que pode reduzir o custo de originação e ampliar a confiança do investidor.
A pergunta que o setor ainda não respondeu é sobre a distribuição dos ganhos. Se a maior previsibilidade das garantias vai ampliar o crédito para emissores menores, ou se vai beneficiar, na prática, apenas as instituições de maior porte, que chegam à operação assistida com roadmap estruturado enquanto boa parte das pequenas e médias empresas ainda entende pouco do instrumento.
Para securitizadoras e fintechs de recebíveis, o teste será transformar dados padronizados em modelos de risco mais eficientes, sem repetir os gargalos operacionais do ciclo anterior. O volume em jogo, R$ 11 trilhões, é suficiente para justificar o investimento. O que ainda se observa é se a infraestrutura vai segurar o ritmo entre o aval do Banco Central e a obrigatoriedade efetiva.
Fontes: Let’s Money, TI Inside, Valor Econômico Categoria sugerida: Mercado













