Tivio contrata ex-BTG e lança fundo de R$ 2 bi focado em transição energética

Rodrigo Freire e Bruno Franco, da Tivio: gestora quer captar R$ 2 bi para transição energética — Foto: Divulgação

A Tivio Capital, gestora de investimentos alternativos controlada pelo Bradesco, está estruturando um fundo de transição energética com meta de captação de R$ 2 bilhões e trouxe Bruno Franco, ex-BTG Pactual com quase duas décadas no banco, para liderar a área de ativos ilíquidos. O movimento sinaliza uma aposta crescente do grupo Bradesco no mercado de energia limpa em meio a um ciclo de restrições na geração renovável determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Contexto: crédito ilíquido como nova fronteira dos alternativos

O mercado de investimentos alternativos no Brasil vive um momento de sofisticação. Após anos de crescimento concentrado em fundos imobiliários e FIDCs de crédito high grade, grandes gestoras ligadas a bancos passaram a estruturar produtos que combinam equity, dívida estruturada e participação direta em projetos reais, segmentos historicamente dominados por gestoras independentes ou fundos de private equity estrangeiros.

A Tivio, que acumula R$ 32 bilhões sob gestão, já tinha exposição a fundos imobiliários e crédito de alta qualidade em seu portfólio. A criação de uma vertical dedicada a ativos ilíquidos em infraestrutura e energia representa um passo significativo na ampliação do leque de produtos da casa, em linha com a demanda crescente de investidores institucionais por retornos descorrelacionados e prêmios de iliquidez.

O fato central: Bruno Franco e o fundo de transição energética

Bruno Franco chega à Tivio depois de 18 anos no BTG Pactual, onde atuou na área de private equity com foco em investimentos no setor de energia no Brasil e na América Latina. Antes de ingressar na gestora do Bradesco, o executivo foi co-fundador da Pacífico Energia, empresa focada em projetos do setor elétrico.

Na Tivio, Franco vai comandar a frente de investimentos ilíquidos, com estratégia que combina equity e dívida estruturada. O escopo inclui debêntures conversíveis, cotas mezanino e compra de participação em projetos e empresas de energia, portos e modais. “Vamos olhar investimentos em equity e em dívida estruturada, como debêntures conversíveis e cotas mezanino, complementares aos fundos de crédito listados e mais líquidos da Tivio”, afirmou Franco.

O novo fundo de transição energética tem como público-alvo investidores institucionais, e a gestora pretende buscar capital estrangeiro para a estratégia. Em paralelo, a Tivio planeja estruturar club deals voltados a investidores locais, com formato mais customizado à demanda de cada alocador e acesso direto aos ativos subjacentes. A expectativa é que o primeiro club deal seja fechado ainda em 2026.

“São produtos de ciclos menores, mais flexíveis em que a gente consegue aproveitar a capacidade de originação da casa e a capilaridade de distribuição do Bradesco e de outras plataformas parceiras”, disse o executivo.

Análise: oportunidade nas PCHs e a postura cautelosa diante do cenário regulatório

O lançamento ocorre em um momento de desaceleração nos investimentos em geração renovável de grande escala. O ONS tem emitido restrições à contratação de novos projetos de energia eólica e solar em função de gargalos de transmissão e da necessidade de reequilíbrio da matriz. Ainda assim, Franco vê espaço relevante para alocações em energia limpa, especialmente em pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), segmento que combina geração distribuída, menor dependência de novos ramais de transmissão e contratos de longo prazo com distribuidoras.

O perfil dos produtos ilíquidos, com horizontes de cinco a dez anos, favorece justamente esse tipo de ativo: ciclos de maturação mais longos, retorno via distribuição de caixa e apreciação de participação ao longo do tempo. Para o mercado de crédito estruturado, a criação de cotas mezanino e debêntures conversíveis conectadas a esses projetos pode abrir uma nova classe de ativos para gestores de FIDC e fundos de crédito privado que buscam diversificação com lastro em infraestrutura real.

“São produtos de ciclos menores, mais flexíveis”, resume Franco, ao descrever como a Tivio pretende aproveitar o acesso privilegiado a projetos via originação própria e a rede de distribuição do Bradesco para viabilizar o fluxo de capital institucional até os ativos.

Perspectivas: o que monitorar

O lançamento do fundo de R$ 2 bilhões depende da captação junto a institucionais, processo que tende a levar entre 12 e 24 meses para fundos de infraestrutura de maior porte. O fechamento do primeiro club deal ainda em 2026 será um indicador relevante da capacidade de originação e fechamento de negócios da nova vertical.

No plano regulatório, a evolução das restrições impostas pelo ONS ao mercado de renováveis e o andamento do Novo PAC na componente de transmissão vão determinar o ritmo de entrada de novos projetos elegíveis para o portfólio. Investidores que acompanham o segmento de crédito estruturado devem monitorar também a estruturação dos instrumentos de dívida, como as debêntures de infraestrutura (Lei 12.431) e as cotas mezanino, que poderão futuramente integrar portfólios de FIDCs de infraestrutura como ativos subjacentes.

A aposta da Tivio reflete um movimento mais amplo do mercado: a convergência entre crédito privado estruturado e investimentos reais em infraestrutura, com grandes plataformas bancárias disputando um espaço que até pouco tempo era quase exclusivo de gestoras independentes e fundos soberanos estrangeiros.


Fonte: Pipeline Valor (Globo), junho de 2026 Categoria sugerida: Mercado / Empresas

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