XP aposta em bolsa ‘além do Ibovespa’ e espera desaceleração da economia em 2027 |Investidores devem ser mais seletivos com ações brasileiras, de acordo com a XP (Foto: Victor Moriyama/Bloomberg)
Com Selic elevada e eleições no radar, gestores de FIDC precisam revisar premissas de inadimplência e duration nos portfólios
A XP Investimentos, uma das maiores corretoras do Brasil com R$ 1,5 trilhão em ativos sob gestão no final de março, projeta uma desaceleração expressiva da economia brasileira em 2027: crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de apenas 1,2%, ante 2% esperados para 2026. O cenário, detalhado em entrevista de Caio Megale, economista-chefe da XP, à Bloomberg News, tem implicações diretas para quem opera no mercado de crédito privado e em FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios).
O cenário macro que preocupa os gestores de crédito
O freio projetado para 2027 não é um acidente de percurso. Megale aponta dois vetores como principais responsáveis pela perda de tração: o aperto monetário acumulado, com a Selic em patamar ainda restritivo, e o enfraquecimento do estímulo fiscal. A combinação cria um ambiente em que empresas e famílias, já pressionadas pelo custo do dinheiro, devem sentir ainda mais dificuldade para honrar compromissos financeiros.
Para o universo de FIDCs, isso se traduz em risco de elevação das taxas de inadimplência nos portfólios com maior exposição a crédito ao consumidor, crédito consignado privado e recebíveis de pequenas e médias empresas. Carteiras com duration mais longa estão especialmente vulneráveis à deterioração de safras de crédito originadas no ciclo de crescimento de 2025 e 2026.
O agravante apontado pela XP é a variável eleitoral. As eleições presidenciais de outubro de 2026 introduzem incerteza sobre a direção fiscal do próximo governo, o que afeta diretamente o prêmio de risco exigido pelo mercado e a disposição dos originadores em expandir carteiras em setores mais sensíveis ao ciclo econômico.
Selic alta por mais tempo: duplo efeito sobre os FIDCs
A taxa básica de juros acima de 14% ao ano, que o mercado já precifica como cenário-base por um período prolongado, produz um efeito dúbio sobre os FIDCs. Do lado positivo, as cotas sênior indexadas ao CDI entregam remuneração nominalmente atrativa, o que mantém o apetite de investidores institucionais por essa classe de ativo.
Do lado negativo, o custo elevado do crédito corrói a capacidade de pagamento dos cedentes e devedores. Megale alertou que, se a desaceleração ocorrer de forma desordenada, sem sinalização fiscal clara do próximo governo, o Brasil pode enfrentar desvalorização cambial e inflação mais persistente. Esse cenário agravaria as condições operacionais de setores exportadores e de empresas com passivos em dólar, segmentos presentes em FIDCs estruturados para o mercado corporativo.
“Esse processo pode ser mais intenso, se não for conduzido de forma ordenada, juntamente com um ajuste fiscal, que criaria espaço para o Banco Central cortar as taxas de juros”, disse Megale. A fala, feita no contexto de renda variável, ressoa com igual peso no mercado de crédito: o alívio monetário, se vier, depende de disciplina fiscal.
O que os gestores de FIDC devem monitorar
O posicionamento da XP em renda variável também oferece pistas sobre setores com menor risco de crédito no curto prazo. A corretora privilegia empresas de serviços públicos com fluxos de caixa previsíveis (utilities), setor financeiro e construtoras residenciais voltadas ao segmento de baixa renda, como Cury e Direcional, que operam com a proteção do programa Minha Casa Minha Vida.
Essa leitura tem paralelo direto no mercado de FIDCs. Fundos com lastro em crédito habitacional subsidiado, recebíveis de energia elétrica, saneamento e concessões de infraestrutura tendem a apresentar menor volatilidade de inadimplência em ciclos de desaceleração, justamente pela previsibilidade dos fluxos dos devedores.
Em contrapartida, FIDCs com exposição concentrada em crédito ao consumidor sem consignação, varejo, construção civil de média e alta renda e PMEs de setores cíclicos exigem revisão mais cuidadosa das premissas de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) para os próximos dois anos.
Raphael Figueredo, estrategista sênior de ações da XP, resumiu o recado que vale tanto para quem opera bolsa quanto para quem estrutura fundos de crédito: “Ter exposição continua sendo importante. Mas isso não significa comprar indiscriminadamente. Precisamos ser seletivos.”
Perspectivas: o que monitorar até o fim de 2026
O gatilho mais relevante para os próximos meses é a definição do cenário eleitoral e os primeiros sinais fiscais dos candidatos à Presidência. O espaço para corte de juros pelo Banco Central, como aponta a XP, está condicionado a esse ajuste. Sem ele, a Selic permanece restritiva e a pressão sobre carteiras de crédito se prolonga.
Para os gestores de FIDCs, os meses de agosto a outubro de 2026 serão decisivos para calibrar o nível de subordinação das cotas, os gatilhos de amortização antecipada e os critérios de elegibilidade para novos direitos creditórios. A seletividade defendida pela XP para as ações é, no fundo, a mesma régua que o mercado de crédito estruturado já deveria estar aplicando.
Fonte: Bloomberg Línea — “XP aposta em bolsa ‘além do Ibovespa’ e espera desaceleração da economia em 2027” (08/06/2026) https://www.bloomberglinea.com.br/mercados/xp-aposta-em-bolsa-alem-do-ibovespa-e-espera-desaceleracao-da-economia-em-2027/













