FIDCs passam de R$ 800 bilhões e acendem alerta sobre governança e qualidade de crédito

Leandro Andrade, CEO da Orram Investimentos

Com Selic elevada, fim da isenção fiscal de fundos exclusivos e apetite crescente por alternativas ao crédito bancário, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) viveram uma explosão sem precedentes nos últimos dois anos. O patrimônio da indústria já supera R$ 800 bilhões. Mas o crescimento acelerado reacende questões que o mercado não pode ignorar: os novos gestores, estruturadores e alocadores que chegaram nessa janela estão preparados para o que vem a seguir?


O contexto: a janela que abriu e fechou rápido

O ciclo de expansão dos FIDCs não aconteceu por acaso. Ele é resultado da convergência de pelo menos três forças simultâneas: juros reais na casa de 9% a 10% ao ano sustentando a atratividade da renda fixa; restrições ao crédito bancário que empurraram empresas para fora do sistema tradicional; e a proliferação de fintechs que democratizaram a originação de recebíveis.

A esses fatores se somou, a partir de 2024, o fim da isenção fiscal dos fundos fechados e exclusivos, que levou investidores do segmento private a migrar para novas estruturas. O FIDC surgiu como resposta natural: oferecia retorno atrelado ao CDI com spread, mecanismos de proteção como cotas subordinadas e uma liquidez ajustável às necessidades do cotista.

“Foi uma janela muito, muito curta, em que esse mercado explodiu”, afirma Guilherme Benites, sócio e diretor da Aditus Consultoria. Para ele, o ponto central não é questionar o instrumento em si, mas reconhecer que a expansão trouxe consigo um volume expressivo de agentes novos em toda a cadeia: gestores, alocadores, estruturadores e prestadores de serviço. “Tem muita gente nova nesse mercado. Nem sempre sabemos se estão preparados.”


O risco que cresce em silêncio: compressão de spreads e opacidade nos ativos

Um dos alertas mais relevantes levantados por profissionais do setor é a compressão dos spreads, consequência direta do aumento da concorrência. Com mais casas disputando as mesmas operações, as taxas caem e isso pode colocar pressão sobre gestores que prometeram CDI+ 3%, por exemplo.

Nesse cenário, há o risco de que parte dos gestores, especialmente os mais novos, seja tentada a buscar créditos de qualidade inferior para sustentar a rentabilidade prometida. Benites compara o movimento ao que ocorreu em ciclos anteriores do mercado de crédito corporativo: “O aumento da concorrência tende a diminuir a taxa. Isso vai puxando a indústria para níveis mais baixos.”

O problema se agrava, segundo ele, pela dificuldade estrutural do investidor em enxergar com clareza os ativos subjacentes ao fundo. Os relatórios disponibilizados à CVM e as divulgações periódicas oferecem dados, mas frequentemente chegam ao mercado de forma genérica e defasada. O cotista pode saber que a inadimplência subiu, mas não sabe quem está inadimplente, qual é a natureza desse crédito problemático ou como o gestor está lidando com a situação. “Tem um grau de opacidade muito grande nesse tipo de informação”, alerta Benites.

Outro movimento a monitorar: FIDCs que nasceram no private estão ganhando tamanho suficiente para começar a bater à porta dos investidores institucionais, como fundos de pensão, RPPS e seguradoras. “Nós mesmos, na Aditus, recebemos mais de uma dúzia de gestores novos neste ano”, conta.


A indústria responde: estrutura, regulação e maturidade

Do lado das casas mais consolidadas, a leitura é diferente. Samuel Garson, presidente da Anfidc (Associação Nacional dos Participantes em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Multicedentes e Multissacados), reconhece o crescimento acelerado, mas defende que a indústria tem robustez para absorvê-lo.

Para Garson, a própria engenharia do produto já funciona como filtro natural. As cotas subordinadas e mezanino atuam como primeiras camadas de absorção de perdas antes que qualquer prejuízo atinja o cotista sênior. A pulverização das carteiras e a adoção mais frequente de rating pelas gestoras reforçam esse desenho. “O FIDC nunca foi só taxa”, resume. “Juros nunca pagam o principal.”

Garson também contra-argumenta a narrativa de que a tecnologia das fintechs teria eliminado a necessidade de análise profunda. No middle market e em operações mais complexas, afirma, a concessão de crédito ainda exige visita ao cliente, leitura de balanços e estruturação detalhada da operação. “As fintechs são muito mais agregadoras do que concorrentes.”


Governança elevada, mas barreira de entrada é real

Leandro Andrade, CEO da Orram Investimentos, asset com cerca de R$ 9 bilhões sob gestão e atuação 100% em FIDCs, atribui o crescimento da indústria a fatores estruturais legítimos e defende que o nível de governança atual é incomparavelmente superior ao de crises passadas.

Ele cita como marco a CVM Resolução 175, que passou a atribuir responsabilidades significativas às gestoras, tornando-as as verdadeiras orquestradoras das estruturas. Hoje, uma gestora séria precisa investir em equipe de crédito, compliance, tecnologia e jurídico. No caso da Orram, esse processo de estruturação exigiu aproximadamente R$ 40 milhões em investimentos ao longo dos últimos cinco anos, com 55 funcionários dedicados.

Andrade lembra ainda do caso Silverado, gestora que quebrou em 2016 após operar com empresas de fachada que simulavam cessão de crédito para os seus FIDCs, num esquema de fraude que deixou marcas profundas no mercado institucional. “Situações como essa seriam muito difíceis de acontecer hoje”, afirma, citando a maior rigidez regulatória.

Para ele, a lógica correta de uma operação de FIDC parte sempre da análise do ativo subjacente, considerando lastro, formalização jurídica e estimativa de perda potencial, antes de qualquer discussão sobre retorno prometido. “O retorno é uma consequência do risco que você toma, não o contrário.”

Andrade também ressalta a importância do alinhamento de interesses: gestores, originadores e consultores de crédito deveriam ter capital próprio aplicado nas cotas mais junioras da estrutura. É esse comprometimento que mostra o quanto cada operador tem a perder se a estrutura derreter. “Os parceiros que você tem, a estrutura foi montada do jeito correto? Essa pergunta tem que prevalecer”, afirma.


Perspectivas: o que vem a seguir

O mercado de FIDCs entrou em uma fase de maturidade forçada. A expansão rápida criou uma indústria maior e mais diversificada, mas também expôs fragilidades na ponta menos experiente do ecossistema. O próximo ciclo, especialmente se os juros começarem a ceder e a concorrência se intensificar ainda mais, vai testar a capacidade dos novos entrantes de manter qualidade de crédito sem sacrificar retorno.

Para o investidor, a mensagem é clara: tamanho e histórico importam, mas a due diligence precisa ir além do gestor e alcançar o administrador, o custodiante, o originador e toda a cadeia de prestadores envolvidos na operação. Em um mercado que cresceu rápido demais para que todos os agentes amadurecessem no mesmo ritmo, perguntar sobre a estrutura por trás do fundo não é paranoia, é obrigação.


Fonte: Revista Investidor Institucional, Edição 386 — “Fidcs crescem sob escrutínio” (maio de 2026)

Compartilhe este artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *