O CEO da Robinhood, Vlad Tenev, afirmou à CNBC que agentes de inteligência artificial devem alcançar em breve a mesma capacidade operacional de traders humanos. A declaração reforça a corrida do setor financeiro por ferramentas de IA agêntica, tecnologia capaz de executar tarefas de forma autônoma em nome do usuário, movimento que já reúne nomes como OpenAI e Anthropic entre os desenvolvedores.
Contexto: a corrida da IA agêntica no mercado financeiro
A IA agêntica é a categoria de inteligência artificial que não apenas responde perguntas, mas executa ações completas em nome de quem a contratou: comprar um ativo, montar uma posição, encerrar uma operação. No mercado financeiro, essa capacidade toca diretamente o núcleo do negócio das corretoras: a intermediação entre o investidor e o ativo.
Em maio de 2026, a Robinhood lançou ferramentas que permitem que esses agentes negociem ações e façam compras em nome dos clientes. A medida colocou a corretora entre as primeiras a abrir, de forma ampla, o acesso de agentes autônomos à execução de ordens no varejo.
O que Tenev disse
Segundo Tenev, que atuou com negociação programática como investidor institucional antes de fundar a Robinhood, boa parte das negociações do mercado já é automatizada e conduzida por inteligência artificial. A diferença, segundo ele, é que esse tipo de tecnologia estava fora do alcance da pessoa física até agora.
O executivo afirmou que o objetivo do trading agêntico na Robinhood é dar ao investidor comum acesso às mesmas ferramentas, à mesma capacidade computacional e ao mesmo poder que investidores institucionais e firmas de alta frequência já utilizam há décadas. Na prática, a promessa é equiparar o varejo à sofisticação que hoje pertence a mesas profissionais.
O anúncio ocorre em meio a um período positivo para a companhia. Na quarta-feira anterior à entrevista, a Robinhood lançou negociação de criptomoedas no Reino Unido, ampliando sua presença na Europa. As ações da corretora subiram cerca de 2% no pré-mercado da quinta-feira, após alta de 8% no dia anterior, movimento que levou o valor de mercado da empresa a 98 bilhões de dólares no fechamento. No acumulado de 2026, porém, os papéis ainda recuam cerca de 5%.
Em abril, a Robinhood havia ficado abaixo das projeções de lucro do primeiro trimestre, pressionada pela volatilidade das criptomoedas sobre o volume de negociação. Desde então, a redução de tensões no Oriente Médio e o desempenho positivo das bolsas ajudaram a recuperar a atividade dos investidores de varejo. Ainda em abril, a empresa anunciou que atuará como corretora e fiduciária das chamadas Trump Accounts, contas de investimento do governo americano ainda não lançadas, em parceria com o Tesouro dos Estados Unidos e o banco BNY Mellon.
Análise: o que essa promessa significa para o mercado
A movimentação da Robinhood confirma uma tendência que já vinha sendo observada por gestores e analistas de mercado: a fronteira entre execução institucional e execução de varejo está encolhendo, puxada por infraestrutura de IA acessível. Para analistas do setor, essa aproximação tende a pressionar corretoras concorrentes a acelerar seus próprios produtos de automação, sob risco de perder participação de mercado entre investidores mais jovens e digitais.
O momento da declaração também chama atenção porque coincide com um corte de 10% do quadro de funcionários da Robinhood, anunciado no início de julho. Em nota aos funcionários, Tenev afirmou que o negócio nunca esteve em posição tão forte quanto agora, mas defendeu que a companhia não pode operar com excesso de camadas hierárquicas, priorizando um time mais enxuto. A combinação de corte de pessoal com aposta pesada em automação de negociação ilustra um padrão que deve se repetir em outras corretoras: substituir estrutura humana por capacidade computacional na linha de frente da operação.
Perspectivas: o que monitorar
A Robinhood soma hoje quase 28 milhões de clientes em 38 países, distribuídos por três continentes. Se a promessa de Tenev se confirmar, agentes de IA operando em nome de investidores de varejo devem se tornar rotina nas plataformas de negociação nos próximos trimestres, com potencial de aumentar o volume de operações automatizadas também fora do universo institucional.
Para o mercado de crédito e capitais, o desdobramento a acompanhar é regulatório: reguladores em diferentes jurisdições ainda não firmaram posição clara sobre responsabilidade e supervisão de agentes autônomos operando ativos financeiros em nome de terceiros. Esse é o ponto que deve concentrar a atenção de analistas e formuladores de política nos próximos meses, à medida que ferramentas como a da Robinhood ganham escala.
Fonte: Times Brasil / CNBC Internacional, matéria original de Allan Ravagnani, publicada em 02/07/2026.













