R$ 8,3 bilhões por mês: FIDCs aceleram rumo ao primeiro trilhão

Após crescer 36,5% em emissões e se aproximar da maior marca de sua história, setor enfrenta disputa mais intensa por bons recebíveis e maior cobrança sobre originação, precificação e monitoramento.

A indústria brasileira de FIDCs está prestes a cruzar uma marca inédita no mercado de capitais. O patrimônio líquido consolidado do setor chegou a aproximadamente R$ 960 bilhões em maio e deve superar R$ 1 trilhão até agosto. No mercado de capitais, os FIDCs também ganharam protagonismo: de janeiro a maio, as emissões somaram R$ 41,7 bilhões, alta de 36,5% sobre o mesmo período do ano passado, ficando atrás apenas das debêntures em volume captado. Se o ritmo de expansão projetado entre maio e agosto for mantido, o setor pode encerrar 2026 perto de R$ 1,05 trilhão em patrimônio líquido. O avanço confirma a consolidação dos fundos de direitos creditórios como uma das principais fontes de financiamento para empresas, mas também muda o centro da discussão. Depois de ganhar escala, o mercado começa a ser cobrado por algo mais difícil de medir do que volume: a qualidade das operações que entram nas carteiras.

Para especialistas, a nova fase dos FIDCs será marcada menos pela busca por captação e mais pela capacidade das gestoras de selecionar riscos em um ambiente competitivo, líquido e sofisticado. A Intra Asset, gestora especializada em crédito estruturado, acompanha esse movimento a partir de uma operação construída com foco em originação própria, análise de crédito e monitoramento contínuo. A casa alcançou R$ 4,3 bilhões em ativos sob gestão, crescimento de 57% em 12 meses, e soma mais de R$ 20 bilhões em operações originadas e liquidadas desde 2020. “O mercado brasileiro resolveu uma primeira etapa importante: hoje existe capital disponível e interesse crescente dos investidores por crédito privado. A nova discussão passa a ser a qualidade da originação, da estruturação e do acompanhamento dessas operações ao longo do tempo. Em crédito, o risco não está em crescer, está em crescer sem critério”, afirma Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset. 

crescimento dos FIDCs ocorre em um momento em que empresas buscam alternativas ao crédito bancário tradicional e investidores procuram ativos ligados à economia real, com remuneração atrelada ao CDI e estruturas mais sofisticadas de proteção. Mas a entrada de mais capital também aumenta a concorrência por bons recebíveis e torna ainda mais importante a disciplina na seleção das operações. Na avaliação da Intra, a diferença entre uma operação estruturada e uma boa operação de crédito está na combinação entre fluxo de pagamento previsível, garantias adequadas, governança, histórico financeiro, capacidade de geração de caixa e leitura setorial. A gestora afirma recusar operações quando a estrutura não está clara, a empresa tem capacidade limitada de pagamento, apresenta baixa geração de caixa, possui pouco histórico, carrega alavancagem elevada ou oferece risco incompatível com o retorno esperado. “A concorrência por ativos tende a aumentar em um mercado mais líquido. Isso pode pressionar spreads e, em alguns casos, levar parte da indústria a aceitar riscos que não estão bem precificados. O papel de uma gestora especializada é ter disciplina para dizer não”, afirma Fernando Moreira, CIO da Intra Asset.

A consolidação dos FIDCs acima de R$ 1 trilhão deve tornar o setor mais relevante para empresas, investidores e reguladores, mas também mais exposto a comparações de qualidade entre gestores. O crescimento ocorre em um país que encerrou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, o maior patamar da série histórica, e R$ 213 bilhões em dívidas negativadas. O dado reforça que a expansão do crédito privado não pode ser analisada apenas pelo volume captado, mas pela capacidade de avaliar risco em um ambiente de maior pressão sobre o caixa das empresas. Nesse cenário, a análise inicial deixa de ser suficiente. O acompanhamento permanente das carteiras, com dados, tecnologia, governança e proximidade com os tomadores, passa a ser peça central para identificar sinais de deterioração antes que eles se transformem em perda. “O crédito não termina na aprovação. Monitorar uma carteira é acompanhar sinais antes que eles virem problema. À medida que o mercado de FIDCs cresce, a qualidade da originação e o acompanhamento das operações passam a ser diferenciais cada vez mais importantes. Crescer é positivo, mas crescer com disciplina é o que sustenta bons resultados no longo prazo”, diz Fernando Moreira, CIO da Intra Asset. 

Compartilhe este artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *