Manuel Netto e Gustavo Mapeli, cofundadores da Kanastra — Foto: Paulo Vitale
A aquisição une a agilidade tecnológica de uma fintech com a capilaridade de 20 anos de uma gestora tradicional. A mensagem para o mercado é uníssona: na era da CVM 175, quem não escalar infraestrutura com automação será engolido.
O mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios amanheceu com uma nova configuração no seu topo. A fintech Kanastra anunciou a aquisição da Tercon, uma das gestoras mais tradicionais do setor, com duas décadas de atuação focada no modelo multicedente-multisacado. Os números da operação impressionam e criam um novo gigante na infraestrutura: os ativos sob serviços da Kanastra saltam de R$ 36 bilhões para cerca de R$ 60 bilhões, assumindo a liderança isolada em número de veículos administrados no Brasil, com 323 FIDCs sob o seu guarda-chuva e mais de 8% de market share.
Mais do que uma simples soma de carteiras, este movimento de M&A (Mergers and Acquisitions) sinaliza o amadurecimento acelerado da nossa indústria. Com o mercado de FIDCs a crescer a um ritmo vertiginoso, registando uma expansão expressiva em 2025, impulsionado pelo marco regulatório da CVM 175 e pela chegada da duplicata escritural, a barreira de entrada para operar crédito estruturado deixou de ser apenas a captação de funding. A verdadeira trincheira, agora, é a eficiência operacional de retaguarda.
O Fim do Backoffice Analógico
A tese por trás desta compra é a injeção da camada de tecnologia da Kanastra na robusta base de clientes da Tercon. Para o ecossistema, isso escancara uma realidade inegável:
- Escala Exige “Código”: Administrar e fazer a custódia de recebíveis pulverizados de centenas de fundos tornou-se um desafio matemático e sistémico. O monitoramento de lastro, a checagem de conformidade (compliance) e a liquidação não podem mais depender de rotinas manuais. A automação integral e a construção de infraestrutura de dados viraram pré-requisitos absolutos de sobrevivência.
Implicações para a Indústria de Crédito
Para os gestores de fundos, estruturadores e o middle market, a formação destes conglomerados dita novas regras no jogo:
- O Prémio da Automação Interna: Gestoras que já se anteciparam e focaram investimentos pesados na criação de laboratórios próprios de tecnologia e inteligência artificial estão blindadas. Com processos internos já automatizados, conseguem plugar-se a grandes administradores via API com máxima eficiência, garantindo spreads saudáveis e blindando a operação contra falhas de conciliação.
- Aceleração do “Time-to-Market”: Com um backoffice mais escalável e ágil no mercado, o tempo para estruturar e colocar um novo FIDC a rodar tende a cair. Isso é excelente para originadores agressivos que precisam de velocidade para capturar cedentes antes dos bancos comerciais.
- Fuga para a Especialização: À medida que a administração e a custódia se tornam serviços tecnológicos de escala (volume e preço), o diferencial competitivo do fundo volta-se exclusivamente para a originação cirúrgica e a análise de risco. O gestor precisa de ser o especialista absoluto na economia real do seu nicho, entendendo o fluxo de caixa do sacado melhor do que ninguém.
“A compra da Tercon pela Kanastra é a prova definitiva de que o FIDC virou um produto de tecnologia financeira”, analisa o nosso especialista do FIDCnews. “O mercado está a separar quem opera crédito com inovação de quem ainda opera crédito com papel. Para as casas de gestão, possuir uma cultura de alta performance e um ecossistema tecnológico robusto deixou de ser um diferencial estético para ser a fundação do negócio.”
Em suma, a infraestrutura do mercado de capitais está a ficar mais densa e concentrada. O mandato para quem está no balcão é originar com precisão e velocidade, deixando as máquinas absorverem o peso da regulação.
Fonte utilizada:
- Let’s Money (Portal do Fomento): “Kanastra compra Tercon e lidera mercado de FIDCs com 323 fundos”













