A maior administradora de FIDCs do Brasil aposta em banco liquidante e escrituração próprios para digitalizar uma infraestrutura ainda dominada por e-mails, planilhas e processos físicos.
A fintech QI Tech, conhecida por liderar a administração e custódia de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) no Brasil, deu um passo estratégico rumo a um novo mercado: a renda fixa privada. Com o lançamento de um banco liquidante e de uma estrutura de escrituração próprios, a empresa passa a oferecer serviços de emissão, registro, liquidação e custódia de debêntures, CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), certificados de recebíveis e notas comerciais. E as metas são ambiciosas: R$ 30 bilhões a R$ 32 bilhões em volume liquidado até o fim de 2026, já nas primeiras semanas de operação.
Mercado bilionário com infraestrutura do século passado
O mercado de renda fixa privada no Brasil atravessa um momento de expansão sem precedentes. Segundo a Anbima, o mercado de capitais brasileiro captou R$ 838,8 bilhões em 2025, crescimento de 6,4% sobre o ano anterior, o maior volume da série histórica iniciada em 2012. Só as debêntures responderam por R$ 492,8 bilhões desse total. As notas comerciais cresceram 18,9%, chegando a R$ 51,8 bilhões.
O combustível desse crescimento é conhecido: com a Selic em patamar elevado, o crédito bancário tradicional ficou caro demais para muitas empresas. Instrumentos de dívida privada, como as debêntures, ganharam força como alternativa mais viável de financiamento corporativo. O mercado cresceu. A infraestrutura que o suporta, não.
É exatamente essa assimetria que a QI Tech quer explorar. “Estávamos procurando outros espaços onde há uma estrutura desatualizada oferecida pelos players tradicionais”, disse Pedro Mac Dowell, cofundador e CEO da QI Tech, ao NeoFeed. O diagnóstico é preciso: escrituração, liquidação e custódia de valores mobiliários ainda dependem de fluxos fragmentados, troca manual de documentos, reconciliações por e-mail e múltiplos fornecedores sem visão consolidada das operações.
O que a QI Tech está lançando
A entrada da QI Tech nesse mercado se materializa em dois serviços centrais: o banco liquidante e a escrituração de valores mobiliários. Na prática, isso significa que a empresa passa a centralizar, em uma única plataforma proprietária, todas as etapas de uma emissão de renda fixa privada: do registro dos debenturistas e dos vencimentos até os pagamentos de juros, a gestão de covenants e os eventos de liquidação.
A plataforma inclui conta Escrow para trânsito de recursos e garantias, além de integração nativa com a B3. Qualquer negociação no mercado secundário é refletida automaticamente no sistema, sem reconciliação manual. “Do aviso de pagamento ao crédito na conta do investidor, o fluxo roda de forma totalmente automatizada com rastreabilidade completa”, descreve a empresa.
Pedro Camacho, diretor comercial da QI Tech, resume a proposta: “O objetivo é oferecer uma infraestrutura completa, de ponta a ponta, para todos os participantes dessas emissões. Trazer mais eficiência, transparência, controle e segurança a processos que ainda são muito burocráticos.”
A plataforma reúne, em um único ambiente, as informações necessárias para emissores, agentes fiduciários, coordenadores das ofertas, assessores jurídicos e investidores. “Hoje, isso é feito por troca de e-mails, telefonemas ou até documentos físicos, de forma fragmentada e com muitos atores envolvidos, o que favorece o erro humano”, diz Mac Dowell. “Esse modelo vira um caos porque você fala com um elo da cadeia, mas não necessariamente com todos.”
Validação inicial e estratégia de crescimento
Com a oferta disponível há poucas semanas, a QI Tech já acumulou R$ 1,5 bilhão em quatro operações: duas emissões de debêntures, um CRI e uma nota comercial. Para Mac Dowell, esse resultado inicial não é prova de conceito, mas afirmação de realidade. “Essa oferta não é um proof of concept. Já é realidade. Vamos ser muito agressivos na busca desses clientes.”
A estratégia de escala combina duas frentes. Na primeira, a QI Tech aproveita sua base atual de aproximadamente 700 clientes corporativos, entre eles Vivo, Wellhub e 99, para apresentar os novos serviços. Na segunda, mira perfis de clientes inéditos na carteira da empresa: os bancos coordenadores e distribuidores dessas ofertas, além das securitizadoras responsáveis pela emissão dos títulos.
A meta é fechar 2026 com 70 a 100 novos clientes adquiridos a partir dessa nova vertical. A projeção de receita é ainda mais reveladora: “Nossa projeção é que essas áreas representem 6% do nosso negócio em doze meses. E que, em três anos, gerem pelo menos R$ 100 milhões em receita”, afirma Mac Dowell.
Da liderança em FIDCs ao mercado de capitais
A QI Tech não chegou a esse mercado sem credenciais. Fundada em 2018, a empresa construiu sua trajetória como infraestrutura financeira para fintechs e empresas de diversos setores, oferecendo desde soluções de Banking as a Service e Lending as a Service até a administração e custódia de fundos. Hoje, é a maior administradora e custodiante de FIDCs do Brasil, com R$ 175 bilhões sob administração, segundo a própria Anbima.
A expansão para a renda fixa privada segue a mesma lógica que orientou o crescimento nos FIDCs: substituir infraestrutura fragmentada por tecnologia proprietária construída do zero. “Já conseguimos digitalizar processos que ainda são muito físicos e pouco automatizados, como no caso dos FIDCs”, disse Mac Dowell. A empresa também já detinha as licenças necessárias para os novos serviços, como as autorizações de Corretora de Títulos e Valores Mobiliários (CTVM) e de Sociedade de Crédito Direto (SCD). Os últimos seis meses foram dedicados a construir e amadurecer a tecnologia da nova plataforma.
A QI Tech atua agora como Escriturador e Banco Liquidante com licença própria, em conformidade com os requisitos da CVM e das câmaras de compensação. “Tomamos esse tempo para ter certeza de que tínhamos a tecnologia necessária para mudar os padrões desse mercado”, diz Camacho. “Temos um lema aqui: se significa colocar um monte de planilhas e um batalhão de pessoas por trás, não fazemos.”
Concorrência direta com bancos e players especializados
A entrada da QI Tech coloca a fintech em rota de colisão com dois grupos que hoje dominam esse mercado. De um lado, os grandes bancos, que historicamente acumulam funções de coordenação, escrituração e liquidação nas emissões de renda fixa privada. De outro, players especializados como Oliveira Trust e Vórtx, que se consolidaram como referências em serviços de agente fiduciário e escrituração para o mercado de capitais.
A diferença que a QI Tech propõe é tecnológica. Enquanto os incumbentes operam com sistemas legados e processos que mesclam automação parcial com intervenção humana intensa, a fintech aposta em uma plataforma 100% proprietária, sem dependência de sistemas de terceiros, com integração direta à B3 e fluxos totalmente automatizados.
Para os gestores e investidores institucionais que acompanham o mercado de crédito privado, o movimento representa uma mudança relevante na cadeia de infraestrutura. Mais concorrência no segmento de escrituração e liquidação tende a pressionar preços e, sobretudo, elevar o padrão de qualidade tecnológica de todo o setor.
IPO em 2027 e estratégia de M&A
O contexto da QI Tech é o de uma empresa em fase de consolidação pré-IPO. Com investidores como a General Atlantic e o GIC (fundo soberano de Cingapura) no cap table, e valuation superior a US$ 2 bilhões, a empresa se aproxima de um tamanho compatível com uma oferta pública. Mac Dowell confirma que o IPO está no horizonte, mas com data definida para 2027.
“Queremos fazer um IPO de grande escala, com valuation de vários bilhões de dólares”, diz o cofundador. “Então, antes disso, vamos continuar com nossa estratégia de M&A, que inclui, entre outras coisas, fortalecer ainda mais nossa oferta de custódia e administração de FIDCs.”
A expansão para escrituração e banco liquidante pode ser lida, portanto, como parte dessa estratégia de construção de valor pré-oferta: ampliar o escopo de serviços, aumentar o número de clientes, diversificar receitas e reduzir a dependência da vertical de FIDCs antes de chegar ao mercado de capitais como empresa aberta.
Para o ecossistema de crédito privado brasileiro, o recado é claro: a digitalização da infraestrutura de renda fixa chegou. E veio com meta de R$ 32 bilhões.











