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BRFT11 suspende dividendos com inadimplência de 9,75% e cota 40% abaixo do patrimônio
Fiagro de crédito da Bradesco Asset troca rendimento por amortização enquanto a carteira sente o aperto nas margens do produtor.

A alta dos atrasos na safra 2025/26 levou o Fiagro BRFT11, da Bradesco Asset, a acumular prejuízo contábil e parar de distribuir rendimentos em julho. Desde então, o fundo devolve capital aos cotistas por amortização mensal e reforça a cobrança. No mercado, a cota é negociada perto de R$ 60, cerca de 40% abaixo do valor patrimonial. O caso mostra como o estresse do crédito rural já chega aos veículos de direitos creditórios do agronegócio.
O BRFT11 é um Fiagro (Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais) listado na B3 em 2023. A gestão é da Bradesco Asset e a cogestão é da agfintech Farmtech, que cuida da originação. A carteira tem recebíveis de produtores rurais e créditos de revendas de insumos agrícolas. A lógica é parecida com a de um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios): o retorno do cotista depende de os devedores pagarem o que foi cedido ao fundo.
A carteira é bem pulverizada. São cerca de 3.300 devedores, e os 20 maiores somam 15,3% do patrimônio líquido, hoje em R$ 183 milhões. Essa diversificação reduz o risco de um calote isolado, mas não protege contra uma piora que atinge o setor inteiro. É o que aconteceu nas últimas safras.
A evolução dos atrasos mostra a tendência. A inadimplência acima de 90 dias foi de 4,87% duas safras atrás e de 5,59% no ciclo seguinte. Na safra 2025/26, chegou a 9,75%. É uma alta de 4,16 pontos percentuais em um ano, com o indicador quase dobrando.
Com os créditos vencidos se acumulando, o resultado contábil ficou negativo, e o fundo suspendeu os dividendos em julho de 2026. "Estamos acumulando prejuízo contábil. Por isso deixamos de pagar dividendo e começamos a fazer a amortização das cotas", explica Eduardo Telles, gestor de crédito da Bradesco Asset.
Desde então, o fundo paga amortizações mensais de R$ 1 por cota. A diferença é importante para o investidor. O dividendo distribui o resultado do período. A amortização devolve parte do capital investido e reduz o valor patrimonial da cota. Na prática, o cotista continua recebendo dinheiro, mas o que recebe é o seu próprio principal, e não rendimento.
Os números de agosto trouxeram um alívio. O saldo vencido e não pago caiu de R$ 23,5 milhões em julho para R$ 16,6 milhões, uma redução de cerca de 29% em um mês. Segundo a gestora, a queda veio principalmente da recuperação líquida de créditos inadimplentes.
Para Telles, o problema está na economia da produção agrícola. "Houve uma compressão bem forte da margem, tanto por aumento de custos quanto por estabilidade no preço dos grãos. Outro fator que pesa muito é o aumento da alavancagem, somado às altas taxas de juros, fazendo com que a capacidade de pagamento fique comprometida", afirma.
A resposta segue duas frentes. A primeira é a cobrança. "Tem uma atuação bastante forte do nosso agente de cobrança e da própria cogestora", diz o gestor. A segunda é uma mudança no perfil da carteira, com uma postura de crédito mais defensiva. As novas operações vão priorizar produtores do Sul e do Sudeste, regiões consideradas mais sólidas em estrutura produtiva e logística, e o Centro-Oeste passa a ter peso menor nas novas concessões.
Para analistas do mercado de crédito estruturado, o desconto de 40% não reflete só a inadimplência. Também pesa a baixa liquidez da cota, que negocia cerca de R$ 2 milhões por mês. O fundo é voltado a investidores qualificados, o que limita a base de compradores no secundário. Nesse ambiente, qualquer vendedor precisa aceitar um preço bem abaixo do patrimônio para conseguir sair. Essa combinação costuma aumentar a distância entre o preço de tela e o valor contábil em momentos de estresse.
A retomada dos dividendos depende de o fundo reverter o prejuízo contábil. Isso exige que a recuperação de créditos continue e que as novas safras venham com atrasos menores. O dado de agosto é positivo, mas um único mês não confirma tendência. O investidor deve acompanhar nos próximos relatórios a evolução do saldo vencido, o índice de inadimplência acima de 90 dias e o ritmo das amortizações.
Para o mercado de FIDCs e Fiagros de crédito, o BRFT11 é um sinal de alerta sobre o crédito rural. Margens apertadas, produtor mais endividado e juros altos formam um cenário que tende a pressionar outras carteiras parecidas. Gestores com exposição ao agro devem revisar critérios de concentração regional, política de provisionamento e estrutura de cobrança antes que o estresse apareça nos números.
FIDC NEWS
O .fidcnews é um veículo digital focado em notícias e análises sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), com o propósito de tornar acessíveis os dados e tendências do mercado de crédito estruturado.
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