Bitcoin perde metade do valor desde a máxima histórica: comprar, esperar ou sair?

Queda de 50% revive dúvida clássica: o fundo já foi atingido ou ainda há espaço para recuar?


A semana mais difícil do Bitcoin (BTC) desde o colapso da exchange FTX, em novembro de 2022, deixou rastros que o mercado ainda tenta digerir. A criptomoeda acumula queda de 50% em relação à sua máxima histórica, superior a US$ 120 mil, e opera na casa dos US$ 61 mil, ameaçando um suporte considerado crucial. Nem mesmo a retomada das compras pela Strategy, empresa de Michael Saylor, foi suficiente para reverter o humor: mesmo após o anúncio da aquisição de 1.550 unidades por US$ 101 milhões, o Bitcoin voltou a cair 4,5% na última terça-feira (9). O recado do mercado foi direto: a confiança ainda não voltou.

Para o investidor que carrega posição, ou para quem observa o movimento de fora, o questionamento é inevitável: é hora de comprar, esperar ou sair?


Indicadores técnicos sinalizam possível fundo

Parte dos especialistas aponta que a combinação de indicadores técnicos em níveis extremos e sentimento de mercado no piso histórico cria uma janela de entrada com potencial relevante para quem tem horizonte de longo prazo.

O MVRV Z-Score, métrica que compara o preço corrente do Bitcoin com o custo médio de aquisição de cada unidade já negociada na rede, está próximo de zero. Nos ciclos de baixa de 2014, 2018 e 2022, o indicador tocou ou cruzou essa linha antes de importantes recuperações. Paralelamente, o preço realizado agregado, ou seja, o custo médio de todas as moedas em circulação, está em US$ 54 mil: nível que historicamente funcionou como suporte em grandes correções.

Maximiliaan Michelsen, analista da 21Shares, destaca que mais da metade dos detentores de Bitcoin estão atualmente no prejuízo, uma condição que, no histórico da criptomoeda, coincidiu com fundos de ciclo. “O sentimento está se aproximando de níveis comparáveis aos da FTX, após os quais o Bitcoin subiu mais de quatro vezes em menos de dois anos”, afirma Michelsen.

Theodoro Fleury, gestor de portfólio da QR Asset, compartilha a leitura construtiva. Para ele, o ciclo atual se comporta dentro do padrão histórico, com quedas proporcionalmente menores do que nos bear markets anteriores, o que interpreta como sinal de maturidade crescente do ativo. “Quem começa a alocar nesses níveis pensando em longo prazo, em anos e não em meses, vai acabar tendo sucesso. O Bitcoin bate esses níveis de valuation quando o cenário parece catastrófico”, avalia.


Os pontos de alerta

Nem todos enxergam o momento com o mesmo otimismo. Quinn Thompson, CIO da Lekker Capital, recomenda evitar o mercado cripto durante o verão do hemisfério norte e retomar a avaliação apenas no final do terceiro trimestre de 2026. O argumento central envolve dois vetores: a queda do apetite institucional e a realocação de capital para os grandes IPOs do setor de inteligência artificial, cujos valuations alcançam trilhões de dólares.

Fleury, embora mais otimista, concorda com o diagnóstico sobre o impacto dos mega IPOs. “São valuations de trilhões de dólares, com movimentações que passam de centenas de bilhões de dólares. O Bitcoin é um ativo líquido que acaba sendo o dano colateral dessa realocação”, avalia o gestor. Para Thompson, os problemas não resolvidos da Strategy também contribuem para um ambiente pouco favorável a uma recuperação consistente no curto prazo. A ausência de reação do preço à última compra da companhia reforça a tese.

Michelsen também pondera que o espaço para recuperação está mais comprimido do que na correção de fevereiro. Naquela ocasião, a média móvel de 200 dias estava em US$ 103 mil, criando ampla margem de alta. Hoje, após sete meses de preços pressionados, essa média recuou para US$ 78.476, o que significa que uma eventual recuperação até essa resistência já seria um movimento expressivo, mas com amplitude bem inferior ao ciclo anterior.


Tese de longo prazo segue intacta para grandes casas

A Bernstein registrou que a captação conjunta de ETFs e tesourarias de Bitcoin somou cerca de US$ 12 bilhões em 2026, queda acentuada frente aos US$ 60 bilhões captados em 2025. Mesmo assim, a corretora mantém visão construtiva para o ativo no horizonte mais longo. “O Bitcoin ainda pode oferecer alguma diversificação em relação aos mercados atualmente dominados pelo momentum singular da inteligência artificial”, escrevem os analistas.

A casa destaca que a base de detentores está mais diversificada do que em qualquer ciclo anterior, incluindo ETFs, fundos de pensão, plataformas de gestão de fortunas e investidores soberanos. Para a Bernstein, essa estrutura torna o ativo menos dependente da especulação de varejo e mais resiliente a choques pontuais.

Fleury reforça o argumento da resiliência do protocolo: desde o lançamento, o Bitcoin emite um bloco a cada dez minutos sem interrupção, com ajustes matemáticos de dificuldade executados à risca e oferta máxima fixada em 21 milhões de unidades. “O Bitcoin entrega tudo que ele promete. Ele é volátil, sim, mas o que ele promete entregar ele entrega”, afirma o gestor.


O que fazer agora

Para o investidor que já tem posição ou que considera entrar, a recomendação dominante entre os especialistas é clara: nem entrar de uma vez, nem sair.

Michelsen recomenda que investidores com visão de longo prazo construam exposição de forma sistemática nos próximos meses, sem tentar identificar o fundo exato. O analista alerta que esperar por confirmação técnica tem um custo relevante: há mais de US$ 10 bilhões em posições vendidas acumuladas acima do preço atual, que poderiam ser liquidadas rapidamente diante de qualquer rompimento positivo, gerando alta acentuada em pouco tempo.

Fleury propõe uma abordagem prática: compras mensais ao longo de 12 a 18 meses até atingir o percentual desejado de Bitcoin na carteira, sem tentar acertar o momento exato de entrada. “Agora é um bom momento para começar essa estratégia”, diz o gestor, que não descarta, porém, um recuo adicional até a faixa de US$ 54 mil antes de qualquer recuperação mais consistente.

Fábio Plein, diretor da Coinbase para as Américas, reforça a necessidade de disciplina antes da ação. “Manter o foco nos fundamentos de longo prazo e investir de forma responsável continua sendo vital, independentemente das condições de mercado”, afirma o executivo.


Para onde vai o Bitcoin

O cenário-base da 21Shares projeta recuperação a US$ 100 mil até o final de 2026, o que representaria alta de aproximadamente 64% a partir dos níveis atuais. Para isso, o Bitcoin precisaria primeiro defender o suporte de US$ 60 mil a US$ 65 mil, depois reconquistar de forma consistente a região de US$ 78 mil, onde convergem a média móvel de 200 dias e a média real de mercado.

A partir desse patamar, fatores macro e estruturais definirão o ritmo: uma eventual resolução do conflito no Oriente Médio, o retorno de fluxos positivos nos ETFs de Bitcoin e o avanço do marco regulatório nos Estados Unidos são os principais catalisadores monitorados. Sem pelo menos um desses vetores, a recuperação deve seguir lenta e marcada por volatilidade.


Fonte: InfoMoney — Comprar, esperar ou sair? O que especialistas dizem após o Bitcoin desabar 50% | https://www.infomoney.com.br/onde-investir/o-que-fazer-com-bitcoin-apos-desabar-50/ | Publicado em 09/06/2026

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