Gigante do setor sucroenergético e de combustíveis busca sobrevivência com conversão de dívida em equity e cisão do negócio até 2027
A Raízen protocolou, na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, seu plano de recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida de R$ 65 bilhões, contando com a adesão de mais de 75% dos credores financeiros e mais de 70% dos bondholders. O movimento, um dos maiores processos de reestruturação da história corporativa brasileira, redesenha completamente a estrutura de capital da empresa e coloca os credores no controle: ao fim do processo, eles deterão mais de 80% do negócio.
A notícia, apurada pelo Pipeline Valor em 6 de junho de 2026, representa um marco relevante para o mercado de crédito privado brasileiro, especialmente para os detentores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) emitidos pela companhia.
Contexto: como a Raízen chegou até aqui
A Raízen nasceu em 2011 como joint venture entre a Cosan e a Shell, reunindo operações de distribuição de combustíveis e de açúcar e etanol. Com receita bruta na casa dos R$ 300 bilhões anuais nos últimos anos, a empresa chegou a ser vista como um dos maiores conglomerados de energia renovável do país, com ambiciosos planos de expansão no etanol de segunda geração (E2G).
O endividamento, porém, cresceu em ritmo superior à geração de caixa. A combinação de investimentos pesados em novas tecnologias, queda nas margens do negócio de distribuição e ambiente de juros elevados no Brasil criou uma pressão crescente sobre o balanço da companhia, tornando inevitável a negociação com credores.
O processo de recuperação extrajudicial foi o caminho escolhido justamente para evitar a estigmatização de uma recuperação judicial convencional, além de permitir que a empresa continue operando normalmente durante a reestruturação.
O que o plano prevê: conversão de dívida, novos títulos e cisão
O coração do plano é a conversão de 45% da dívida em equity ao preço de R$ 0,25 por ação, o que fará os credores assumirem mais de 80% do capital da Raízen. O restante da dívida será trocado por novos títulos emitidos por duas subsidiárias: Raízen Combustíveis e Raízen Energia, na proporção de 37% e 18%, respectivamente.
Os títulos da Raízen Combustíveis terão remuneração de CDI mais 2,75%, ou 8,5% ao ano em dólar, ou 7,65% ao ano em euro, a depender do tipo de credor, com vencimento em 2032 e 2034. Já os papéis da Raízen Energia terão remuneração de CDI mais 1,25%, ou 7% ao ano em dólar, ou 6,15% ao ano em euro, com vencimento em 2033 e 2035.
Para os credores que preferirem liquidez a prazo, há ainda a opção de receber a dívida em dinheiro com desconto de 80% em 2047, ou 75% do valor do crédito em dinheiro, com o total desses pagamentos à vista limitado a R$ 150 milhões. Os detentores de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) receberão remuneração em CDI nas duas modalidades.
É importante ressaltar que o plano não abrange fornecedores e parceiros de negócios, circunscrevendo-se aos credores financeiros, bondholders, bancos e detentores de CRAs.
Do lado dos acionistas, o plano prevê aporte de R$ 3,5 bilhões pela Shell e uma possível injeção de R$ 500 milhões por Rubens Ometto, maior acionista da Raízen, decisão que deve ser tomada até o primeiro trimestre de 2027. A Shell manifestou apoio formal ao acordo: “Como acionista, a Shell apoia o acordo para reestruturar as finanças da Raízen, que proporciona à empresa maior estabilidade financeira e uma trajetória mais clara para o futuro”, afirmou a companhia em comunicado.
O que muda para os detentores de CRAs
Para os investidores do mercado de crédito estruturado, o tratamento dado aos CRAs merece atenção especial. Os Certificados de Recebíveis do Agronegócio vinculados à Raízen estão inseridos no plano e receberão remuneração em CDI, o que preserva a natureza de renda fixa dos papéis sem expô-los à conversão em ações.
A distinção é relevante: enquanto bondholders e credores financeiros precisam decidir entre receber equity, novos títulos ou desconto a prazo, os detentores de CRAs têm uma estrutura de saída mais previsível. Ainda assim, os prazos alongados e a remuneração definida pela reestruturação representam uma alteração substancial em relação aos termos originais dos certificados, o que pode gerar marcação a mercado negativa nas carteiras dos fundos que carregam esses papéis.
“Operações desse porte sempre geram reflexos nos fundos de crédito privado que têm exposição direta ou indireta à empresa”, avaliam analistas do setor. “O mercado vai monitorar de perto como os gestores comunicam esse ajuste aos cotistas nas próximas semanas.”
Cisão e venda de ativos: o novo mapa da Raízen
Além da reestruturação do passivo, o plano desenha uma reconfiguração completa da arquitetura corporativa da Raízen. A companhia será dividida em duas unidades independentes até o fim de 2027: a Raízen Energia, que concentrará os negócios de açúcar, etanol e bioenergia, e a Raízen Combustíveis, voltada à distribuição de combustíveis.
O plano também prevê a venda de ativos como usinas com capacidade de moagem entre 10 milhões e 15 milhões de toneladas. A empresa já saiu à frente nessa desinvestimento: na semana anterior ao protocolo do plano, a Raízen concluiu a venda de suas operações na Argentina por US$ 1,4 bilhão para a trading Mercuria, operação que reforçará o caixa da companhia durante o processo de reestruturação.
A Cosan, sócia histórica da Raízen, avalia sua saída do negócio, o que, a ocorrer, representaria uma redefinição ainda mais profunda da estrutura acionária da empresa.
Com os credores assumindo a maioria no conselho de administração, incluindo a cadeira de chairman, a Raízen que emergirá do processo terá uma governança bastante diferente da atual, com o controle efetivo nas mãos de quem financia a operação.
O que vem a seguir
A aprovação formal do plano depende da confirmação das adesões acima do quórum mínimo de 50% mais 1 dos créditos, o que, segundo o Pipeline, já estava encaminhado com a entrada dos bondholders. A execução do plano se estenderá pelos próximos anos, com a cisão prevista para 2027 e os novos títulos com vencimentos até 2035.
Para o mercado de crédito privado, o caso Raízen reacende o debate sobre a exposição de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e fundos de crédito a grandes empresas do setor de energia e agronegócio. Em cenário de juros elevados, operações que carregam títulos de emissores com alto grau de alavancagem precisarão rever políticas de concentração e critérios de elegibilidade de ativos.
O desfecho da reestruturação será um termômetro importante sobre a resiliência do mercado de crédito estruturado brasileiro diante de eventos de estresse em emissores de grande porte.
Fonte: Pipeline Valor Econômico, 06/06/2026, por Silvia Rosa













