CDBs de bancos médios recuam para até 107% do CDI e encerram a era dos 120%

Com liquidações em série e novas regras do Banco Central para o FGC, o mercado de renda fixa bancária vive uma ruptura estrutural e o crédito privado sente o impacto direto na competição por capital


O que ficou para trás

Durante anos, bancos médios e fintechs de crédito transformaram o CDB (Certificado de Depósito Bancário) em um produto de captação agressiva, oferecendo retornos de 115%, 120% e até mais do CDI. A lógica era simples: utilizar o guarda-chuva do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) como argumento comercial para justificar taxas muito acima da média, atraindo volumes expressivos de investidores de varejo e plataformas digitais.

Esse modelo de captação, porém, escondia um problema estrutural grave: parte dos recursos captados eram alocados em ativos de baixa liquidez ou qualidade questionável. Exatamente a prática que as investigações sobre o Banco Master vieram expor ao mercado.

O colapso chegou entre o fim de 2025 e o início de 2026, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições financeiras de porte menor. O efeito dominó foi imediato: o mercado de CDB de bancos médios entrou em colapso de credibilidade, e as taxas que eram usadas como instrumento de marketing passaram a ser vistas como sinal de alerta.

O novo patamar do mercado

Dados da Quantum Finance, provedora especializada em dados financeiros, mostram que em maio de 2026 as taxas máximas praticadas nas emissões de CDBs por bancos pequenos e médios chegaram a 106,9% do CDI, oferta da fintech Qista Crédito. Banco Pine e BMG também ofertaram papéis com remuneração de 106% do CDI. Taxas muito inferiores aos 120% do CDI que circulavam no mercado antes da crise.

Na ponta oposta, os grandes conglomerados bancários estão captando com prêmios mínimos ou abaixo do referencial pós-fixado. Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Santander emitiram CDBs com taxas médias de 95%, 90% e 97% do CDI, respectivamente. A média geral de todas as emissões ficou em 100,67% do CDI em maio, levemente abaixo dos 101% a 102% registrados em março e abril.

O intervalo observado entre fevereiro e maio tem sido consistente: entre 90% e 106% do CDI, um patamar radicalmente diferente do que se praticava nos anos anteriores à crise do Master.

Regulação do FGC: o aperto estrutural

O movimento de repricing dos CDBs não se explica apenas pelo trauma do colapso do Master. Em maio, o Banco Central regulamentou mudanças estruturais nas regras de uso do FGC, tornando mais restrito o acesso das instituições à cobertura do fundo.

A principal novidade foi a criação do “Ativo de Referência”, um indicador que mede a qualidade, a liquidez e a diversificação dos ativos carregados por cada banco. A lógica da nova norma é direta: se uma instituição captar volumes excessivos via produtos garantidos pelo FGC sem ter ativos de qualidade equivalente em carteira, fica obrigada a alocar parte dos recursos em títulos públicos federais. Isso aumenta compulsoriamente o chamado colchão de liquidez e impede o uso indiscriminado dos recursos captados.

Na prática, a medida encerra o modelo de arbitragem regulatória que permitia que bancos menores usassem o selo do FGC para captar barato com boa imagem junto ao investidor e alocar em carteiras de risco mais elevado. “A regulamentação do Ativo de Referência é o reconhecimento de que o modelo precisava de uma âncora de qualidade de ativos”, avalia um especialista em regulação bancária ouvido pelo fidcnews. “Sem isso, o FGC virava um incentivo perverso à tomada de risco.”

Selic alta segura a demanda e comprime os spreads

Apesar da queda nas taxas nominais de CDB, o ambiente de juro elevado segura o apetite dos investidores por renda fixa bancária. O mercado consolidou uma visão de que a taxa Selic deve permanecer próxima a 14% ao ano ao longo de 2026, bem acima das projeções de 12,25% que prevaleciam ao final de 2025.

O Bank of America (BofA) revisou sua estimativa para 14,25% ao ano. Genial Investimentos, Banco Pine, XP Investimentos e BNP Paribas projetam uma pausa no ciclo de cortes com a Selic em 14%. O Itaú Unibanco, mais conservador, trabalha com queda até 13,75%.

Com o CDI acompanhando de perto a Selic, os títulos pós-fixados seguem como destino natural para parte relevante do capital institucional e de varejo. Esse volume de demanda retém os emissores de CDB num patamar razoável de atratividade, mas sem a necessidade de oferecer os spreads exagerados do passado. A consequência prática é uma compressão de prêmio estrutural, não conjuntural.

Impacto no crédito privado e no ecossistema de FIDCs

A mudança no mercado de CDB bancário tem reflexos diretos sobre o ecossistema de crédito privado, especialmente para os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios). Com bancos médios pagando menos para captar, a pressão sobre o custo de originação de crédito tende a se distribuir ao longo da cadeia.

Por um lado, a normalização das taxas de CDB reduz uma distorção competitiva: fintechs e bancos digitais não conseguem mais subsidiar operações de crédito de alto risco com captação barata ancorada no FGC. Por outro, o enxugamento dessas instituições do mercado de captação diminui a oferta de funding para originadores que dependiam dessas plataformas como canal de acesso ao capital.

Para os gestores de FIDC, o novo cenário traz dois movimentos simultâneos: menos competição por ativos de crédito de bancos médios agressivos, e maior atenção dos reguladores e investidores à qualidade dos ativos subjacentes. O mesmo vetor que derrubou o Master.

“O investidor aprendeu uma lição cara: taxa alta sem análise de ativo é uma armadilha”, resume um gestor de crédito privado que acompanhou de perto as liquidações do início do ano. “Isso vale tanto para CDB quanto para cota de FIDC subordinada.”

O que monitorar a seguir

O mercado observa com atenção o comportamento das captações nos próximos meses. Se a Selic permanecer elevada como esperado, a demanda por renda fixa bancária deve continuar robusta, o que mantém os bancos com poder de precificar seus CDBs sem precisar elevar os spreads. O piso implícito de 100% do CDI na média das emissões deve se sustentar.

O ponto de atenção mais crítico, porém, está na implementação prática do “Ativo de Referência”. A forma como o Banco Central fiscalizará o indicador e as eventuais sanções para quem descumprir o colchão mínimo definirão se a nova norma terá dentes ou ficará apenas no papel. Instituições que ainda carregam carteiras de baixa liquidez terão que se ajustar, ou sairão do mercado de captação via FGC.

Para o ecossistema de FIDC, o ambiente é de consolidação e maior seletividade: menos ruído, mais análise. O crédito privado estruturado tende a se beneficiar de um mercado onde qualidade de ativo volta a ser o critério principal, não apenas o rótulo de uma garantia.


Fonte: InvestNews / Quantum Finance

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