Brasil e China travam parceria histórica no agro, e o mercado de crédito privado está no centro dessa equação

A interdependência estratégica entre os dois países vai além das commodities e abre janela relevante para FIDCs, CRAs e estruturas de financiamento ao exportador agrícola

Contexto: O maior parceiro comercial do Brasil não é novidade, mas o tamanho ficou maior

Desde 2009, a China ocupa a posição de maior parceiro comercial do Brasil. Mas o que em 2009 era uma relação promissora, em 2025 tornou-se estrutural: o intercâmbio bilateral superou US$ 180 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Para efeito de comparação, esse número supera o PIB de países como Portugal e Nova Zelândia.

A pauta exportadora brasileira para o gigante asiático é majoritariamente agrícola. Soja em grão, carne bovina, frango, celulose, algodão, milho, açúcar e café respondem por fatia expressiva dos embarques. Ao lado do minério de ferro, essas commodities constroem a espinha dorsal de uma relação que já ultrapassa o modelo simples de fornecedor-comprador para se transformar em algo mais sofisticado: uma interdependência estratégica com impactos diretos sobre logística, infraestrutura, precificação e, cada vez mais, sobre as estruturas de crédito privado que financiam essa cadeia.

Para o mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), especialmente os dedicados ao agronegócio, e para os emissores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), essa dinâmica representa tanto uma oportunidade quanto um ponto de atenção permanente.

O que mudou: segurança alimentar virou tema de Estado em Pequim, e o Brasil é o ativo central

A pandemia de Covid-19, a guerra na Ucrânia e o acirramento das tensões comerciais entre China e Estados Unidos transformaram a segurança alimentar em prioridade de Estado para Pequim. Essa virada geopolítica tem consequências diretas sobre a demanda por produtos brasileiros.

A China consome mais de 110 milhões de toneladas de soja por ano e representa cerca de 60% das importações globais do grão. A maior parte dessa soja é convertida em ração animal para sustentar a cadeia de proteínas de suínos, aves e bovinos, de uma população de 1,4 bilhão de habitantes com renda per capita em expansão e demanda crescente por proteínas animais.

Em vários períodos recentes, o Brasil respondeu por cerca de 70% das importações chinesas de soja, consolidando-se como o maior fornecedor mundial. Mas a relação vai além: a China também é o maior destino da carne bovina brasileira, absorvendo aproximadamente metade das exportações do setor. O milho brasileiro ganhou espaço após a assinatura de protocolos sanitários entre Brasília e Pequim. E produtos de maior valor agregado, como cafés especiais, frutas, alimentos processados e derivados lácteos, começam a marcar presença na pauta, sinalizando uma maturação da relação bilateral.

Do ponto de vista do crédito privado, esse fluxo contínuo e crescente de exportações gera um volume expressivo de recebíveis: cartas de crédito, notas de exportação (NCEs), cédulas de produto rural (CPRs) financeiras e direitos creditórios vinculados a contratos de compra e venda com compradores chineses. São exatamente esses ativos que alimentam os FIDCs agro e as emissões de CRAs que têm registrado crescimento consistente na B3.

Análise: investimentos chineses na cadeia logística podem ampliar o mercado de recebíveis

A presença chinesa no Brasil não se limita à ponta compradora. Empresas e investidores do país asiático demonstram interesse crescente em ativos de infraestrutura como portos, armazéns, terminais graneleiros, energia renovável, fertilizantes e corredores de exportação. Especialistas avaliam que a próxima fase da parceria será marcada pela integração de cadeias produtivas e pela ampliação dos investimentos físicos no Brasil.

Para o mercado de crédito estruturado, esse movimento tem implicações relevantes. A chegada de capital chinês em infraestrutura agro tende a reduzir o custo logístico das exportações, aumentar o volume transportado e, por consequência, ampliar o estoque de recebíveis elegíveis para estruturas de securitização.

“O fluxo de exportações para a China é o combustível dos FIDCs agro e das emissões de CRA que temos visto crescer nos últimos anos”, avalia um especialista em crédito estruturado do agronegócio. “À medida que a parceria se aprofunda e a infraestrutura melhora, o mercado de capitais agrícola brasileiro ganha escala.”

Ao mesmo tempo, há um risco que gestores e originadores de crédito precisam monitorar com cuidado: a concentração de recebíveis ligados a um único mercado comprador. Com a China respondendo por mais de um terço das exportações brasileiras totais, qualquer desaceleração da economia chinesa, mudança na política de importações ou crise diplomática entre os dois países pode impactar diretamente o fluxo de caixa de carteiras de FIDCs agro com alta exposição a exportadores dependentes do mercado asiático.

A questão da sustentabilidade e rastreabilidade da produção agropecuária também começa a entrar na equação. Compradores chineses e, mais ainda, os mercados europeus, exigem cada vez mais critérios ESG verificáveis ao longo da cadeia. Para os originadores de FIDCs, isso significa que a qualidade do ativo pode depender não apenas da capacidade de pagamento do devedor, mas também da conformidade ambiental da operação subjacente.

Perspectivas: se o petróleo foi o ativo estratégico do século XX, o alimento será o do século XXI

Analistas internacionais convergem para uma avaliação: a parceria Brasil-China continuará se aprofundando ao longo da próxima década. O Brasil reúne vantagens competitivas únicas, como disponibilidade de terras agricultáveis, recursos hídricos abundantes, tecnologia tropical desenvolvida pela Embrapa e produtividade crescente por hectare. A China oferece o maior mercado consumidor do mundo e capital disposto a investir em segurança alimentar de longo prazo.

Essa equação geoeconômica tende a se traduzir, no mercado de capitais brasileiro, em crescimento contínuo dos FIDCs do agronegócio e das emissões de CRAs lastreados em recebíveis de exportação. Para investidores institucionais e qualificados, a pergunta relevante não é se essa tendência vai persistir, mas como estruturar o risco de concentração geográfica e setorial sem abrir mão dos retornos que a cadeia agro-exportadora proporciona.

O próximo capítulo dessa história pode estar nos investimentos chineses em infraestrutura logística no Brasil. Se consolidados, eles aumentarão o fluxo, reduzirão custos e gerarão novas camadas de recebíveis securitizáveis. Para o mercado de crédito privado, esse é um ativo para monitorar de perto.


Fontes: Revista Empreende — Brasil e China fortalecem parceria estratégica no agronegócio | MDIC

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