Com a operação, a plataforma Global Dinâmico passa a reunir 24 mesas independentes e mais de 130 profissionais, seguindo o modelo de hedge funds globais como Citadel e Millennium. A movimentação reacende o debate sobre a concentração do mercado de gestão de recursos no Brasil.
O contexto: a corrida pelo talento em renda variável
O mercado brasileiro de gestão de recursos vive um momento de intensa reorganização. Em um ambiente de juros ainda elevados, mesmo após o recente corte do Copom que reduziu a Selic para 14,25%, a renda variável voltou a ocupar posição estratégica nas carteiras dos investidores institucionais. Gestoras independentes bem-posicionadas nesse segmento tornaram-se ativos disputados pelos grandes players.
É nesse cenário que a Itaú Asset Management, maior gestora do país com mais de R$ 1,2 trilhão sob gestão e uma equipe de mais de 380 profissionais, anunciou a incorporação da Solana Capital, boutique especializada em renda variável fundada em 2013 por Cláudio Delbrueck.
A operação, revelada em 16 de junho de 2026, é mais do que uma simples aquisição de patrimônio: é um movimento deliberado de atração de capital humano qualificado e de estratégias validadas pelo mercado.
O que mudou: 10 profissionais, R$ 450 milhões e quatro estratégias integradas
Com a incorporação, a equipe da Solana Capital, composta por 10 profissionais e responsável por R$ 450 milhões em ativos sob gestão, passará a operar integralmente dentro da plataforma multimesas da Itaú Asset, denominada Global Dinâmico.
À frente do time resultante da incorporação estará o próprio Cláudio Delbrueck. Com trajetória que inclui passagens por ABN AMRO e BNP Paribas antes de fundar a Solana, Delbrueck representa o perfil de gestor veterano que o Itaú busca atrair para compor o modelo de mesas independentes. A ele se juntará Frederico Gouveia, que, curiosamente, retorna à instituição após ter passado pela própria Itaú Asset em momento anterior de sua carreira.
As quatro estratégias da Solana que serão absorvidas cobrem o espectro completo do mercado acionário:
- Long & Short: posições simultâneas compradas e vendidas para capturar alfa com menor exposição direcional
- Equity Hedge: proteção contra volatilidade com exposição líquida reduzida
- Long Bias: viés comprado, com algum hedge parcial
- Long Only: exposição direcional plena ao mercado acionário
Os produtos próprios da Solana passarão a integrar a família Itaú Global Dinâmico, e a transferência formal dos fundos está condicionada à aprovação em assembleia de cotistas, prevista para ocorrer dentro dos próximos três meses.
Análise: o modelo Citadel e a lógica da consolidação
A plataforma multimesas do Itaú é declaradamente inspirada em estruturas de grandes hedge funds globais como Citadel e Millennium Management. O princípio é simples, mas poderoso: reunir times de gestão totalmente independentes sob uma mesma infraestrutura de back-office, compliance, distribuição e gestão de risco. Cada mesa opera com autonomia na tomada de decisão, mas compartilha a musculatura institucional do Itaú.
Até o encerramento de maio de 2026, o multimesas da Itaú Asset registrava R$ 165 bilhões em ativos sob gestão, distribuídos em 23 mesas com mais de 130 profissionais de investimento. Só a família Global Dinâmico, que abriga esse modelo, soma R$ 36 bilhões e agora incorpora mais R$ 450 milhões com a chegada da equipe Solana.
“A movimentação é estrategicamente consistente com o que vemos em todo o mundo: as grandes plataformas de gestão concentram capital, talento e infraestrutura para ganhar eficiência e distribuição”, avalia um analista do setor. “Para o gestor independente, entrar em uma estrutura dessas significa acesso a uma base de clientes muito maior sem abrir mão da autonomia na gestão.”
Para o mercado de crédito privado e FIDC em particular, o movimento traz uma leitura relevante: à medida que a renda variável se consolida nas grandes plataformas, a pressão competitiva por gestores qualificados se intensifica também nos segmentos de crédito estruturado, onde a disputa por talento é igualmente acirrada.
Perspectivas: o que monitorar nos próximos meses
O processo de integração terá como marco principal a assembleia de cotistas dos fundos da Solana, que deverá ocorrer até setembro de 2026. É nesse momento que os cotistas poderão se manifestar formalmente sobre a migração dos recursos para a estrutura da Itaú Asset.
Do ponto de vista regulatório, a operação segue o rito padrão de incorporação de fundos previsto pela regulação da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), sem grandes complexidades esperadas para aprovação.
O movimento também sinaliza que a tendência de consolidação do mercado de gestão de recursos no Brasil, acelerada nos últimos dois anos, está longe de chegar ao fim. Gestoras independentes com histórico sólido e equipes enxutas seguem sendo alvo de plataformas maiores que buscam completar seu leque de estratégias sem ter que construir capacidade do zero.
Para investidores institucionais e qualificados que alocam em produtos da família Global Dinâmico ou que acompanham o ecossistema de gestão ativa no Brasil, o indicador a observar será a performance das estratégias da Solana dentro do novo ambiente e se a independência operacional prometida pelo modelo multimesas de fato se sustenta após a incorporação.
Fonte: Bloomberg Línea












