O boom do crédito privado refez o mapa da gestão independente no Brasil. Agora, com emissões desacelerando e spreads se abrindo, o setor entra em sua fase mais seletiva.
O Renascimento das Gestoras Independentes
O Brasil chegou a 2025 com quase metade de suas gestoras independentes fechadas. Entre incorporações, fusões e encerramentos, o mercado acumulou um rastro de casas que não sobreviveram às mudanças de ciclo econômico. Mas um número inverteu essa narrativa: desde 2019, o total de gestoras ativas cresceu 83%, saltando de 830 para 1.520 casas, um acréscimo de 690 novas operações em menos de seis anos.
Os dados são de levantamento da Oliveira Trust, plataforma de serviços fiduciários para fundos de investimento e títulos de renda fixa, com base em informações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No mesmo período, o mercado de crédito privado avançou 173%, impulsionado pela busca dos investidores por retornos mais elevados em um ambiente de Selic elevada.
O gatilho foi preciso: quando a taxa básica de juros voltou a subir a partir de 2022, saindo de 9,25% ao ano até atingir 15% ao ano ao final de 2025 (o maior patamar desde 2006), o capital migrou em massa para renda fixa, debêntures incentivadas e FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios). Com a demanda aquecida, o espaço para novos entrantes se abriu.
“O mercado sempre acompanhou os movimentos dos juros. Quando os juros caem, o investidor busca mais risco. Quando sobem, os recursos migram para a renda fixa e para o crédito”, afirma Gabriel Sidi, fundador da EXT Capital.
Da Selic Baixa ao Crédito: A Virada Estrutural
Entre 2016 e 2021, a queda da Selic de 14,25% para 9,25% ao ano (e o piso histórico de 2% em 2020) havia favorecido fundos de ações, venture capital e private equity. Com a reversão desse ciclo, os fluxos se inverteram.
O estoque total de crédito privado corporativo atingiu R$ 1,9 trilhão até novembro de 2025, segundo relatório do BTG Pactual, volume mais de cinco vezes superior ao registrado em 2015. As debêntures incentivadas, criadas pela Lei 12.431/2011 para financiar infraestrutura, alcançaram R$ 523 bilhões em outubro de 2025, superando inclusive o saldo de crédito direcionado pelo BNDES às empresas, de R$ 462 bilhões.
Esse cenário criou uma nova geração de casas especializadas. A EXT Capital, fundada em 2022, nasceu para estruturar operações de crédito voltadas a empresas de tecnologia e crescimento acelerado. A Hike Capital, criada em 2024, apostou em fundos de crédito privado e estruturas ligadas ao mercado de recebíveis.
“O crescimento do crédito privado foi uma das principais razões para o surgimento de novas gestoras. Foi um mercado que atraiu muito capital nos últimos anos”, afirma Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital. Para ele, dois segmentos tiveram papel central nesse processo: as debêntures incentivadas ligadas à infraestrutura e os FIDCs. “O investidor encontrou alternativas com retornos elevados e empresas encontraram novas formas de financiamento fora do sistema bancário.”
Especialização Substituiu a Estratégia Generalista
A nova leva de gestoras apresenta uma característica estruturalmente diferente das ondas anteriores. Se antes muitas casas surgiam com estratégias amplas, hoje o mercado exige foco cirúrgico. “As gestoras não nascem mais generalistas. Elas surgem para resolver um problema específico ou explorar uma oportunidade específica”, avalia Sidi.
A especialização responde a um mercado com competição mais intensa e dominado por grandes instituições. Casas menores precisam oferecer diferenciação real, seja em infraestrutura, FIDCs, crédito estruturado ou nichos específicos da renda fixa, para atrair capital e sobreviver.
Mas a especialização, sozinha, não garante viabilidade. A entrada em vigor da Resolução CVM 175, a partir de outubro de 2023, ampliou as responsabilidades dos gestores de fundos e elevou as exigências de controle de risco, liquidez e enquadramento regulatório. A norma foi criada para alinhar o mercado local às práticas internacionais e aumentar a segurança jurídica, mas também encareceu a operação.
Segundo José Alexandre Freitas, presidente da Oliveira Trust, uma gestora pode gastar mais de R$ 300 mil por ano apenas para manter a infraestrutura tecnológica e regulatória necessária para operar. “Muitas gestoras fecharam ou se consolidaram porque o custo de manutenção ficou mais alto após as mudanças regulatórias”, afirma. Para mitigar essa barreira, a própria Oliveira Trust desenvolveu uma plataforma que centraliza parte das exigências operacionais e regulatórias, reduzindo em cerca de 20% os custos de entrada de novas gestoras.
O Fôlego Que Começou a Faltar
O pano de fundo favorável está mudando de tom. Dados recentes da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) revelam desaceleração relevante nas emissões de crédito privado.
A oferta de debêntures no mercado secundário recuou de R$ 296 bilhões no quarto trimestre de 2025 para R$ 236,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026. No mercado primário, a queda foi ainda mais pronunciada: de R$ 175,04 bilhões para R$ 99,32 bilhões no mesmo período, uma retração de aproximadamente 43%.
Ao mesmo tempo, os spreads das debêntures indexadas à taxa DI passaram de 1,31% em março para 1,66% em abril de 2026. O spread é o percentual adicional que as empresas oferecem acima dos títulos públicos para atrair investidores. Quando esse número sobe, o sinal é claro: a demanda diminuiu porque o mercado está precificando mais risco.
Episódios como os das Americanas e da Light deixaram sequelas na seletividade dos investidores. “O mercado está muito mais preocupado com qualidade do que com retorno. Hoje existe menos disposição para assumir risco”, avalia Belitardo.
A leitura dos gestores, contudo, é de amadurecimento e não de crise. Sidi explica que boa parte das empresas aproveitou os últimos anos para alongar dívidas e reduzir custos de financiamento. “As companhias já refinanciaram boa parte dos passivos. Com menos vencimentos próximos, a necessidade de novas emissões naturalmente diminui.”
Perspectivas: A Seletividade Como Filtro
O próximo ciclo do crédito privado não será para todos. Se a fase anterior premiou praticamente qualquer estratégia ligada ao segmento, a etapa que se desenha favorecerá apenas as casas capazes de entregar retorno consistente, governança robusta e especialização comprovada.
“A seletividade vai falar mais alto. Quem conseguir manter qualidade e gerar resultados de forma consistente terá espaço”, afirma Belitardo. A Hike Capital passou a priorizar ativos de maior qualidade de crédito, com foco em setores como infraestrutura, energia e transporte.
Para o gestor da EXT Capital, o critério definitivo é ainda mais simples: “O que define quem permanece é a capacidade de continuar gerando retorno em qualquer ambiente de mercado.”
Com 1.520 gestoras ativas e um ambiente regulatório mais exigente, a consolidação do setor parece inevitável. A próxima rodada não será de criação. Será de sobrevivência.
Fontes: Portal do Fomento / Exame, com base em dados da Oliveira Trust, CVM, ANBIMA e BTG Pactual












