O presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima afirma que o país está preparado, mas ainda precisa ampliar a conexão entre poupança, empresas e projetos produtivos, e que não haverá bala de prata.
O gargalo que antecede todos os outros
O debate econômico brasileiro tem rondado, nos últimos anos, os mesmos temas: juros, consumo, reforma tributária, responsabilidade fiscal. Antes de qualquer um deles, porém, há uma questão estrutural que condiciona o ritmo e a qualidade do crescimento: quem vai financiar o próximo ciclo de expansão do Brasil?
Em um cenário de restrição fiscal persistente, Selic historicamente elevada e demanda reprimida por infraestrutura, o crédito bancário tradicional não consegue, sozinho, dar conta do volume de capital necessário. É nesse contexto que o mercado de capitais ganha protagonismo, não como substituto do sistema bancário, mas como complemento indispensável para viabilizar projetos de longo prazo que não cabem no balanço de nenhum banco isoladamente.
Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, foi direto ao ponto em entrevista ao BM&C Strike: “Olhando o que temos hoje, estamos preparados.” A afirmação, porém, vem acompanhada de ressalvas importantes sobre o que ainda precisa avançar para que esse potencial se converta em financiamento real da economia produtiva.
Infraestrutura: o caso mais urgente
O setor de infraestrutura concentra parte central do argumento. Projetos de energia, rodovias, saneamento e logística têm uma característica que os distingue da maioria dos financiamentos corporativos: exigem prazos longos, previsibilidade regulatória e estruturas de risco que o crédito bancário convencional não foi desenhado para absorver.
Foi para preencher esse vácuo que as debêntures incentivadas, criadas pela Lei 12.431, se firmaram como um dos instrumentos mais relevantes da última década. O marco legal permitiu direcionar recursos privados para empreendimentos prioritários, com benefício fiscal para o investidor em troca da alocação em projetos de impacto direto sobre produtividade e competitividade nacional.
O resultado é expressivo: segundo Maranhão, apenas em 2025, as debêntures incentivadas da Lei 12.431 movimentaram R$ 177 bilhões em emissões. O número evidencia que o instrumento saiu da fase experimental e entrou na rotina operacional do mercado.
Poupança popular, crédito privado e o risco que precisa ser nomeado
A expansão do mercado de capitais como fonte de financiamento produtivo depende, em última instância, da capacidade de mobilizar poupança, tanto institucional quanto de pessoas físicas, para projetos e empresas reais. Nesse processo, instrumentos como debêntures, CRIs, CRAs, FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e notas comerciais passaram a ocupar papel central na diversificação das fontes de capital.
Mas Maranhão faz uma advertência relevante: esse movimento exige maior consciência de risco. A renda fixa privada não pode ser tratada como sinônimo de ausência de volatilidade. Em prazos longos, oscilações de preço, mudanças de cenário macroeconômico e dificuldades pontuais de emissores podem afetar o valor dos ativos. A transparência na marcação a mercado, no disclosure de informações e na comunicação com o investidor não é detalhe; é condição para a sustentabilidade do mercado.
“É um aprendizado tanto para o emissor, para entender quem é o público que ele deve acessar e de que maneira, quanto para o investidor, para entender um pouco do risco que ele está correndo”, resume Maranhão. A frase captura bem a fase em que o mercado brasileiro se encontra: maduro o suficiente para crescer, mas ainda em processo de calibração entre oferta, demanda e gestão de expectativas.
Novos instrumentos, novos emissores
Um dos avanços mais significativos dos últimos anos foi a ampliação do acesso ao mercado de capitais para além das grandes companhias abertas. Médias empresas, negócios regionais e companhias com estrutura jurídica mais simples passaram a contar com instrumentos desenhados para seu perfil.
A nota comercial é um exemplo citado por Maranhão. Por poder ser emitida por uma empresa limitada, sem exigência de abertura de capital, ela abriu o mercado para um universo de companhias que antes dependia exclusivamente do crédito bancário ou de capital próprio. “A nota comercial pode ser emitida por uma empresa limitada. Isso deu acesso a novas companhias”, observa o executivo.
Outro caminho para empresas com histórico operacional ainda curto ou risco difuso é a securitização de recebíveis. A lógica é elegante: mesmo que o risco da companhia como um todo seja de difícil precificação, se ela possui fluxos de caixa previsíveis e recebíveis de qualidade, é possível estruturar uma operação de crédito lastreada nesses ativos, isolando o risco e tornando o produto acessível a um conjunto mais amplo de investidores.
O que ainda falta: liquidez, governança e tecnologia
Para que o mercado de capitais cumpra plenamente o papel de financiador do crescimento brasileiro, Maranhão aponta uma agenda que combina regulação, inovação e educação. A atração de investidores estrangeiros e fundos de pensão, dois grupos com capacidade de alocação de longo prazo especialmente relevante para infraestrutura, passa por maior previsibilidade regulatória e simplificação do acesso ao mercado local.
No plano operacional, o avanço depende de mais liquidez no mercado secundário, redução dos custos de negociação e melhora na formação de preços. A tecnologia aparece como aliada: a tokenização de ativos e o uso de blockchain para registros e transferências de titularidade são caminhos para reduzir fricções, ampliar a base de investidores e criar novos mecanismos de acesso.
A conclusão de Maranhão é realista e estratégica ao mesmo tempo: o crescimento do Brasil não será financiado por uma única fonte. A engrenagem necessária envolve bancos, mercado de capitais, investidores institucionais, pessoa física, fundos de pensão e capital estrangeiro, cada um com seu papel, em complementaridade.
“Não vai ter uma bala de prata que vai resolver”, sentencia o executivo. A afirmação não é pessimista; é o reconhecimento de que a construção de um sistema de financiamento robusto é, por natureza, um trabalho de arquitetura institucional de longo prazo. E que, ao que tudo indica, o Brasil já tem as peças. O desafio agora é encaixá-las.
Fonte: BM&C News — Matéria original













