Tether lidera aporte de R$ 100 milhões no Mercado Bitcoin

A 2TM, holding da plataforma de criptoativos Mercado Bitcoin, recebeu um aporte de R$ 100 milhões liderado pela Tether, maior emissora de stablecoin do mundo, com mais de US$ 180 bilhões em circulação via Tether Dólar (USDT). O movimento marca o first closing de uma série C ainda em curso e reforça o avanço da tokenização de ativos financeiros no país, tema que já ocupa espaço crescente entre gestores de crédito privado.

Contexto e cenário regulatório

A rodada acontece em um momento de convergência entre as finanças tradicionais e o setor de criptoativos. A partir de 1º de novembro, o Banco Central coloca em vigor a regulação das PSAVs (Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais), formalizando as regras para empresas que atuam com criptomoedas e ativos digitais no Brasil. Para Roberto Dagnoni, chairman e CEO do Mercado Bitcoin no cargo desde 2017, essa é uma ponte que a companhia constrói há anos e que finalmente chega ao outro lado da margem.

A regulamentação das PSAVs tende a ser acompanhada de perto por participantes do mercado de FIDC e crédito estruturado, na medida em que aproxima o arcabouço de supervisão de ativos digitais do modelo já aplicado a fundos e veículos de securitização tradicionais, com potencial de abrir caminho para maior interoperabilidade entre cotas tokenizadas e produtos de renda fixa.

O fato central

Todo o capital da rodada vai para o caixa da 2TM, sem venda secundária de fatias pelos sócios atuais. A diluição é classificada por Dagnoni como confortável e bem adequada, já que o Mercado Bitcoin evitou diluições agressivas desde sua fundação, em 2013. A companhia levantou sua primeira rodada, de R$ 200 milhões, apenas em 2021, com GP Investments e Parallax Ventures. O novo valuation não foi revelado.

A série C ainda deve ser concluída até o fim do ano e será acompanhada pelo SoftBank, que liderou a série B de US$ 200 milhões em 2021 e tornou o Mercado Bitcoin o primeiro unicórnio de cripto da América Latina, avaliado então em US$ 2,15 bilhões. Os sócios-fundadores da companhia também devem participar dessa etapa.

O capital será direcionado para acelerar o desenvolvimento de produtos, com foco em infraestrutura de pagamentos e ampliação da oferta de investimentos tokenizados, as duas principais frentes de crescimento da empresa. Segundo Dagnoni, a chegada da Tether ao cap table deve gerar sinergias, entre elas o barateamento do spread das operações com USDT na plataforma brasileira. A stablecoin já responde por um terço do volume de negociação da 2TM.

Para o mercado de crédito privado, o dado mais relevante talvez seja o de tokenização de renda fixa: desde 2019, o Mercado Bitcoin emitiu R$ 3 bilhões em ativos de renda fixa tokenizados, distribuídos em mais de 700 operações. A companhia relata ainda que a tokenização de ativos cresce mais de 50% ao ano na plataforma, enquanto o negócio de pagamentos aumentou seis vezes no primeiro semestre de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025.

A rodada também deve financiar fusões e aquisições na América Latina, com Argentina e México como principais alvos, mirando negócios de pagamentos e remessas internacionais que complementem o portfólio da 2TM. A holding pretende atuar como consolidadora regional enquanto acelera sua internacionalização no mercado de cripto, incluindo a expansão para Portugal, de onde pretende atender a União Europeia, com foco inicial em pagamentos e remessas de brasileiros residentes no continente.

Análise

Para Dagnoni, o aporte representa uma validação institucional distinta das captações anteriores. “É uma validação institucional de um investidor global muito relevante e estratégico no setor, diferentemente de levantarmos com um terceiro ou family office”, afirmou o executivo ao Pipeline. A leitura do CEO é de que a entrada de investidores tradicionais em negócios como tokenização tende a fortalecer o mercado como um todo, sinalizando um estágio de maior amadurecimento.

Esse amadurecimento também é lido no contexto regulatório internacional. Dagnoni cita a possível aprovação do Clarity Act nos Estados Unidos, que regulamentaria de forma mais ampla o mercado de criptoativos americano, como fator que torna o momento mais propício para empresas do setor. “São ventos mais favoráveis”, resume.

Perspectivas

O Mercado Bitcoin é hoje uma das 15 companhias do portfólio do SoftBank consideradas prontas para um IPO. Auditada há mais de seis anos pela KPMG, a empresa já havia contratado um sindicato para uma listagem em 2021, plano interrompido pelo fechamento da janela de IPOs que atingiu com força as empresas de tecnologia e, em especial, o setor de cripto.

Com 4,5 milhões de clientes no Brasil e a conclusão da série C prevista para o fim do ano, o desfecho da rodada, o valuation atualizado e o avanço da regulação das PSAVs a partir de novembro serão os próximos pontos a monitorar. Para gestores de crédito privado e FIDC, o movimento reforça uma tendência que já vinha ganhando corpo: a tokenização de ativos de renda fixa deixa de ser experimento de nicho e passa a atrair capital institucional de peso, com potencial de influenciar a forma como cotas e recebíveis serão distribuídos e negociados nos próximos anos.


Fonte: Pipeline (Valor Econômico), por Guilherme Guerra, publicado em 07/07/2026

Compartilhe este artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *