BlackRock eleva peso da América Latina e mantém compra em dívida emergente

A BlackRock revisou sua estratégia para mercados emergentes na segunda metade de 2026 e passou a tratar a América Latina como região preferida dentro dessa classe de ativos. A decisão, anunciada por Axel Christensen, estrategista chefe da gestora para a região, reforça a renda fixa local como principal vetor de alocação e acende um sinal relevante para o mercado de crédito privado brasileiro, que depende diretamente do apetite de investidores institucionais por risco doméstico.

Contexto e cenário

A maior gestora de ativos do mundo, com trilhões de dólares sob gestão, vinha concentrando boa parte de sua exposição a mercados emergentes em ativos ligados à inteligência artificial. O índice MSCI de ações de mercados emergentes tem hoje quase 80% de seu peso em economias asiáticas, com forte concentração em tecnologia. Esse movimento levou o indicador ao melhor trimestre desde 2009 no encerramento de junho de 2026.

O apetite por papéis ligados a IA também domina o mercado americano. O S&P 500 já conta com 44 empresas do ecossistema de inteligência artificial, que juntas respondem por cerca de 45% da capitalização do índice e 71% do crescimento de lucros do período. Diante dessa concentração, a BlackRock rebaixou sua recomendação para ações de mercados emergentes amplos de overweight (posição acima da média do mercado, equivalente a uma recomendação de compra) para neutra, citando o risco de concentração setorial em Taiwan e Coreia do Sul.

O que mudou

Mesmo reduzindo a recomendação geral para ações emergentes, a gestora manteve e reforçou a preferência relativa pela América Latina. Segundo Christensen, os mercados latino-americanos têm comportamento menos atrelado à IA e menor exposição a tensões geopolíticas, como o conflito no Oriente Médio, sendo movidos principalmente por fatores idiossincráticos e locais. Isso os torna, na visão da BlackRock, uma peça de diversificação relevante em portfólios hoje muito concentrados em um único tema global.

O caso citado como exemplo foi a Colômbia, cuja eleição presidencial no fim de junho moveu o peso colombiano, os títulos públicos e a bolsa local sem relação direta com o cenário internacional. No Brasil, cuja eleição presidencial ocorre em outubro, a gestora afirma manter postura agnóstica quanto ao resultado e destaca a trajetória de juros, não o vencedor do pleito, como fator decisivo para o investimento estrangeiro, especialmente em infraestrutura.

No relatório de recomendações para o segundo semestre, a aposta mais forte da BlackRock em emergentes está na renda fixa. A gestora mantém overweight em dívida emergente, com preferência por títulos em moeda local. Brasil e Colômbia aparecem como os países com alguns dos maiores rendimentos reais do mundo e espaço para maior normalização monetária, ainda que o cenário fiscal continue como ponto de atenção. Peru e Chile são citados pela combinação de inflação mais controlada e demanda por metais, o México pelos fundamentos macro relativamente estáveis, e a Argentina pelas reformas em curso, que começam a se traduzir em mais investimento.

Análise

Para o mercado de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e crédito privado brasileiro, a leitura da BlackRock importa menos pelo veredito sobre ações e mais pela sinalização em renda fixa local. Um fluxo estrangeiro mais constante para títulos públicos em reais tende a pressionar para baixo a curva de juros doméstica no médio prazo, o que reduz o custo de captação para originadores e pode comprimir os spreads exigidos pelos investidores em cotas sênior de FIDCs.

“A recuperação da Argentina também merece atenção, à medida que as reformas começam a se traduzir em maiores investimentos”, escreveu Christensen no relatório, reforçando que a tese da gestora para a região não se limita ao Brasil e mira uma realocação mais ampla dentro da América Latina.

A cautela expressa pela BlackRock quanto a alocações regionais amplas, com preferência por seleção ativa de ativos, país a país e por tema, dialoga diretamente com a lógica que já rege o mercado de crédito estruturado brasileiro: a distinção entre originadores, setores e qualidade de carteira de recebíveis segue sendo o fator determinante de retorno, mais do que o apetite genérico por risco emergente.

Perspectivas

Se o movimento da BlackRock for seguido por outras gestoras globais, o mercado brasileiro de renda fixa deve seguir atraindo capital estrangeiro na segunda metade de 2026, o que tende a beneficiar indiretamente o custo de funding de FIDCs e outras estruturas de crédito privado ligadas a dívida em moeda local. O ponto de atenção citado pela própria gestora, a trajetória fiscal do país, e o resultado da eleição presidencial de outubro, seguem como as principais variáveis a monitorar até o fim do ano. Gestores de crédito devem acompanhar de perto o desenrolar da política de juros, apontada por Christensen como o verdadeiro gatilho para o fluxo de investimento em infraestrutura e, por extensão, para o apetite por risco de crédito doméstico.


Fonte: BlackRock recalcula rota e coloca América Latina como principal aposta entre emergentes, Bloomberg Línea, Beatriz Quesada, 02/07/2026

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