FIDCs avançam no portfólio do investidor após crise dos bancos médios

A reprecificação dos CDBs de bancos pequenos e médios, acelerada pelos episódios de fraude em instituições como Master e Digimais, está redesenhando a lógica de alocação em renda fixa no Brasil. Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), estruturas que securitizam recebíveis e não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), ganham espaço como alternativa de retorno num momento em que o prêmio pago pelos CDBs de instituições menores encolheu.

Contexto: o fim do prêmio fácil

Por anos, a decisão de alocação em renda fixa seguiu uma régua simples: qual produto paga o maior percentual do CDI com a proteção do FGC. Bancos médios exploraram essa lógica oferecendo CDBs com taxas de 115% a 120% do CDI, usando a garantia de até R$ 250 mil por CPF e instituição como argumento de venda.

Esse modelo perdeu força depois que a crise envolvendo Master e Digimais expôs os riscos de concentrar capital em instituições que ofereciam rentabilidade muito acima da média do mercado sob promessa de segurança. Dados da Quantum Finance, publicados pelo InvestNews, mostram que em maio de 2026 as maiores taxas de CDBs de bancos pequenos e médios já estavam próximas de 106,9% do CDI, patamar bem abaixo do que vigorava em anos anteriores.

O que mudou: captação de FIDCs salta 36,5%

O efeito prático aparece nos números da Anbima. Entre janeiro e maio de 2026, os FIDCs captaram R$ 41,7 bilhões, alta de 36,5% frente ao mesmo período de 2025. Em volume de operações, o avanço é ainda mais expressivo: 406 operações no período, contra 237 de debêntures no mesmo intervalo, o que coloca o FIDC como o segundo maior instrumento de captação do mercado de capitais brasileiro no acumulado do ano.

A base de investidores também se ampliou de forma acentuada. Segundo a Anbima, o número de contas em FIDCs passou de 172,2 mil em janeiro de 2025 para 331,4 mil em dezembro do mesmo ano, salto de 92,5%. A Resolução CVM 175 teve papel relevante nesse movimento, ao ampliar o acesso de investidores a estruturas antes restritas a públicos mais qualificados.

Ainda assim, o CDB segue como o instrumento de renda fixa mais popular do país. Levantamento da B3 mostra estoque de R$ 2,8 trilhões em março de 2026, alta de 11% sobre o mesmo mês do ano anterior, reafirmando sua posição como o título de renda fixa mais adquirido pelo investidor pessoa física.

Análise: maturidade da indústria, não substituição do CDB

“Antes, a decisão em renda fixa era muitas vezes guiada por uma pergunta simples: qual produto paga o maior percentual do CDI com cobertura do FGC”, avalia Vicente Guimarães, diretor de RI do Grupo IOX. Segundo ele, o investidor passou a olhar menos para a taxa isolada e mais para a estrutura que sustenta aquele retorno.

Guimarães destaca que o crescimento da captação não está concentrado em poucas operações grandes, mas distribuído entre mais originadores e teses de crédito diferentes, sinal de amadurecimento da indústria. Para ele, o FIDC deixou de ser uma ferramenta de financiamento de nicho e passou a ocupar papel recorrente na estratégia de empresas, gestoras, plataformas e investidores.

Um analista de crédito de banco ouvido na reportagem original reforça o ponto central de risco: o FIDC não tem volatilidade aparente, mas ela surge quando os problemas da estrutura não podem mais ser escondidos. Sem a rede de proteção do FGC, quem sustenta a operação é a qualidade do lastro dos recebíveis, o nível de inadimplência, a pulverização de cedentes e sacados, os critérios de elegibilidade, a subordinação, as garantias, o fluxo de pagamento e a governança.

“Um FIDC pode ser muito bem estruturado, mas também pode carregar riscos relevantes se houver concentração excessiva em poucos cedentes ou sacados, baixa subordinação, histórico fraco de cobrança ou pouca transparência nos relatórios”, pontua Guimarães.

Perspectivas: o que monitorar daqui para frente

O ciclo de juros ainda elevados continua sustentando o apetite geral por renda fixa, mas o crescimento estrutural dos FIDCs também reflete avanços regulatórios, operacionais e comerciais da indústria. Guimarães observa que o setor melhorou em governança, padronização de relatórios e acompanhamento de carteira, reduzindo a distância entre o produto e o investidor final.

O ponto de atenção para o mercado é que o FIDC não deve ser tratado como substituto direto de reserva de emergência ou como equivalente ao CDB apenas com taxa maior. Trata-se de instrumento de crédito privado, com risco, prazo e estrutura próprios, cuja atratividade depende diretamente da qualidade da due diligence feita antes do investimento. Com a base de cotistas em expansão acelerada, a próxima fase de teste para a indústria será justamente sustentar esse crescimento sem repetir, em estruturas de crédito privado, o mesmo erro de precificar risco pela promessa de retorno em vez da qualidade do lastro.


Fonte: Capital Aberto, “Crise nos bancos médios impulsiona avanço dos FIDCs”, Fabíola Gomes, 13 de julho de 2026

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