O agronegócio brasileiro, responsável por um terço do crescimento do PIB no ano passado, enfrenta em 2026 uma combinação de fatores que os próprios produtores já chamam de tempestade perfeita: dinheiro caro, grãos em baixa, El Niño e barreiras comerciais. Para gestores e estruturadores de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) com exposição ao setor, o cenário exige atenção redobrada à qualidade dos cedentes e à modelagem de risco de crédito.
Contexto: o tripé Plano Safra, seguro rural e endividamento
O Plano Safra, principal mecanismo de financiamento da produção agropecuária no Brasil, vem operando nos últimos anos com menos subsídios, juros mais elevados e restrições que tornam as taxas mais baratas pouco acessíveis. O problema, segundo o secretário de Política Agrícola do Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), Guilherme Campos, é que o acesso ao Plano Safra está diretamente ligado a outros dois pontos: o endividamento dos produtores e a dificuldade em contratar seguro agrícola.
A lógica é circular. Sem renegociar as dívidas, o produtor não consegue acessar o crédito do Plano Safra. E, sem o seguro rural operando de forma ampla, não há como reduzir esse endividamento, já que qualquer perda de safra vira dívida nova. Uma proposta de alongamento de dívidas está em debate no Congresso, mas segue travada por divergência sobre o impacto fiscal: o Ministério da Fazenda estima custo de até R$ 140 bilhões em 13 anos, enquanto a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) calcula algo próximo de R$ 65 bilhões no mesmo período.
Para o mercado de crédito privado, esse imbróglio regulatório é o pano de fundo que explica por que a qualidade de crédito do cedente rural, seja ele cooperativa, trading ou produtor direto, precisa ser reavaliada com mais rigor neste ciclo.
O que mudou: seguro rural em queda livre e preços pressionados
Os números do recuo no seguro rural ajudam a dimensionar o problema. No Paraná, dados da CNseg (Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização) mostram que a arrecadação com seguro rural caiu de R$ 2,3 bilhões em 2022 para R$ 1,9 bilhão em 2025, queda de 17% no período. Mais expressiva ainda é a retração no número de contratos: segundo o PSR (Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural), do Mapa, as apólices caíram de 82 mil em 2021 para 26 mil em 2025, recuo de 68,3% em quatro anos.
Essa retração, associada à redução da subvenção federal, deixa o produtor mais exposto a eventos climáticos justamente em ano de El Niño, com previsão de chuvas acima da média até o início de 2027 no Sul do país. O presidente do Sindicato Rural de Francisco Beltrão, Albino Poposki, cita como consequência prática o abandono da produção de trigo no Sul, cultura que segundo ele “tem tudo pra dar certo” mas se tornou inviável sem subvenção.
Do lado da receita, o cenário também não ajuda. Os estoques mundiais de grãos estão abastecidos e a demanda recuou em alguns mercados, o que pressiona os preços para baixo. A saca de soja, que chegou perto de R$ 200 há quatro anos, hoje gira em torno de R$ 120. A isso se somam barreiras comerciais, como as tarifas dos Estados Unidos e as recentes restrições da União Europeia à carne brasileira, além dos efeitos da guerra entre Irã e EUA sobre o petróleo e os insumos agrícolas.
Análise: o que isso significa para a estruturação de FIDCs do agro
Na prática, o produtor rural vê a despesa subir (insumos, logística, financiamento) no mesmo momento em que a receita cai, sem a rede de proteção do seguro para absorver choques climáticos. Para quem estrutura ou investe em FIDCs lastreados em recebíveis do agronegócio, como CPR (Cédula de Produto Rural), duplicatas de insumos ou direitos creditórios de cooperativas, esse é exatamente o tipo de deterioração de qualidade de crédito que precisa ser precificado na cota subordinada e monitorado na PDD (Provisão para Devedores Duvidosos).
“Plano Safra, seguro rural e endividamento caminham lado a lado. O que se fizer em um tem impacto direto no outro”, resumiu Guilherme Campos ao CNN Agro, em declaração que também serve de alerta para o mercado de capitais: qualquer originador de recebíveis agro que dependa desse ciclo de crédito subsidiado carrega hoje um risco estrutural mais alto do que há poucos anos.
Perspectivas: monitorar cedentes e o desfecho legislativo
O desfecho da discussão sobre alongamento de dívidas no Congresso é um ponto de atenção direto para o mercado de FIDC. Uma solução que destrave o crédito ao produtor tende a aliviar a pressão sobre cedentes do setor, enquanto a manutenção do impasse fiscal deve prolongar a seletividade no financiamento rural e, por consequência, exigir critérios mais rígidos de elegibilidade nos fundos com lastro agropecuário.
Mesmo diante da tempestade perfeita, o agronegócio foi responsável por um terço da expansão do PIB no ano passado. A pergunta que fica para gestores de FIDC e investidores institucionais é se o setor consegue repetir esse desempenho em 2026, ou se a combinação de dinheiro caro, El Niño e barreiras comerciais vai finalmente aparecer nos indicadores de inadimplência dos recebíveis do agro.
Fonte: Jornal de Beltrão, “Dinheiro caro, grãos em baixa, El Niño e barreiras comerciais: agronegócio tem ano desafiador”, 14/07/2026 (https://jornaldebeltrao.com.br/agricultura/dinheiro-caro-graos-em-baixa-el-nino-e-barreiras-comerciais-agronegocio-tem-ano-desafiador/)













