IA deixa de ser experimento e vira infraestrutura de competitividade no mercado financeiro

88% dos executivos brasileiros projetam a inteligência artificial como o principal diferencial competitivo até 2030, segundo pesquisa da IDC encomendada pela Microsoft. Para o mercado de crédito e FIDC, o dado sinaliza uma mudança estrutural na forma como risco, originação e gestão de portfólio serão conduzidos na próxima década.


Contexto: de aposta tecnológica a infraestrutura estratégica

Durante anos, a inteligência artificial ocupou o campo das apostas de médio e longo prazo nas empresas brasileiras. Pilotos isolados, provas de conceito desconectadas das operações e ceticismo das lideranças tornavam a adoção fragmentada e sem impacto mensurável nos resultados.

Esse cenário mudou. A pesquisa “Impacto nos Negócios pela Adoção de IA no Brasil”, conduzida pela IDC e encomendada pela Microsoft com base em entrevistas com 73 C-levels de companhias com mais de mil funcionários, mostra que a inteligência artificial deixou de ser tratada como tecnologia emergente e passou a ser encarada como infraestrutura estratégica, com orçamento, governança e métricas de retorno.

Os números confirmam a virada: 88% das organizações acreditam que a IA será o principal motor de competitividade até 2030, e 90% afirmam que a tecnologia se tornará um diferencial-chave em seus setores. Para o mercado financeiro, que historicamente lidera a adoção de inovação tecnológica no país, o recado é direto: quem não estruturar essa infraestrutura agora estará atrás da curva em poucos anos.

O que mudou: da experimentação à escala

O estudo identifica uma transição clara de fase. Hoje, 41% das empresas utilizam IA em casos limitados, enquanto 23% já escalaram a tecnologia para produção em diversas áreas. A projeção para os próximos 24 meses é expressiva: 51% das organizações devem operar com IA em escala, mais que dobrando o índice atual.

No mercado de crédito privado, esse movimento já tem endereço. Gestoras de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) e originadores de crédito vêm incorporando modelos preditivos para análise de risco de carteira, automação de due diligence em cedentes e monitoramento contínuo de indicadores de inadimplência, o que os gestores chamam de PDD dinâmica. O que antes demandava semanas de análise manual começa a ser processado em horas com auxílio de modelos de linguagem e aprendizado de máquina.

“O mercado brasileiro está evoluindo rapidamente da experimentação à implementação em escala. Hoje, seis a cada dez executivos já consideram a IA generativa e os agentes como as tecnologias mais estratégicas para viabilizar prioridades dos negócios nos próximos dois anos”, afirmou Eduardo Campos, vice-presidente da área de Soluções Tecnológicas da Microsoft Brasil.

Análise: os números que interessam ao gestor de crédito

Os ganhos mensuráveis registrados pelas empresas ouvidas traduzem o impacto da adoção em métricas operacionais. As organizações relatam ganhos médios de 24,5% associados às iniciativas de IA, com destaque para quatro frentes que têm relação direta com o funcionamento de estruturas de crédito:

  • Satisfação do cliente (28,2%): em operações de FIDC com cedentes e tomadores, a experiência de crédito se torna diferencial de retenção e originação.
  • Eficiência de processos (27,7%): automação de cobrança, análise de elegibilidade de recebíveis e relatórios regulatórios para a CVM ganham velocidade sem crescimento proporcional de equipe.
  • Redução de riscos (26,9%): modelos de scoring mais sofisticados e detecção de fraudes em tempo real reduzem perdas na carteira e pressionam positivamente a relação risco-retorno dos fundos.
  • Aceleração de lançamentos (25,2%): novas séries de cotas, produtos de crédito estruturado e onboarding de cedentes ganham ciclos de aprovação mais curtos.

Além dos ganhos operacionais, 19,7% dos executivos apontaram crescimento de receitas diretamente impulsionado pela tecnologia, e 24% relataram aumento de produtividade dos times. Traduzindo para a linguagem do mercado de fundos: mais originação com menos custo por operação.

O reflexo no orçamento é imediato. Hoje, 28% dos investimentos corporativos estão vinculados a iniciativas de IA, com projeção de salto para 45% até 2028. Para 52% dos executivos, empresas que não adotarem IA em larga escala perderão competitividade.

Agentes de IA: a próxima fronteira do crédito automatizado

A pesquisa dedica atenção especial à ascensão dos agentes de IA, sistemas capazes de executar tarefas específicas de forma semi-autônoma ou autônoma. Atualmente, 56% das organizações já usam agentes em fase de experimentação ou produção, com presença concentrada em atendimento ao cliente, marketing e cibersegurança. Até 2028, a adoção deve alcançar 69% das empresas.

Para fundos de crédito, o potencial é considerável. Agentes especializados podem atuar no monitoramento contínuo de condições de liquidez de carteiras, na revisão automática de limites de concentração por devedor ou setor, na geração de relatórios para cotistas e na triagem inicial de novos cedentes antes da análise jurídica e financeira. Tarefas que hoje consomem horas de analistas seniores passam a ser delegadas com supervisão humana pontual.

O estudo enquadra esse cenário sob o conceito de “Frontier Firms”, empresas estruturadas sobre uma camada de IA disponível para todos os times, nas quais profissionais atuam ao lado de agentes e assumem o papel de gestores desses sistemas. No contexto de gestoras de FIDC, isso implica repensar funções como analista de crédito, controller de carteira e compliance officer, não pela substituição, mas pela redefinição do escopo de atuação.

A adoção também veio acompanhada de preocupação crescente com segurança. 96% das empresas ouvidas ampliaram investimentos nessa frente, com foco em automação de segurança, proteção de dados e segurança de infraestrutura em nuvem, questões especialmente sensíveis para veículos regulados pela CVM que processam dados financeiros de cedentes e cotistas.

Perspectivas: o fator humano como gargalo e como vantagem

A pesquisa aponta um paradoxo relevante para o setor. Se por um lado a IA acelera operações, por outro ela criou um novo gargalo: a escassez de talentos com capacidade de operar essas ferramentas. Trinta por cento dos executivos citam esse ponto como uma das principais barreiras à adoção. Para responder, 86% estão investindo em capacitação de equipes de TI e 71% em áreas de negócios.

O mercado de crédito privado já sente esse efeito. A demanda por profissionais que combinam conhecimento técnico em estruturas de crédito com fluência em ferramentas de dados e IA cresceu de forma visível nos últimos 18 meses. Gestoras e originadoras que construírem esse perfil internamente tendem a reduzir dependência de consultorias externas e criar vantagem de execução difícil de replicar.

Um dado adicional reforça a urgência: 43% dos executivos afirmam ter dificuldade de contratar e reter talentos em razão do atraso na adoção de tecnologia. Na prática, fundos que não modernizarem seu stack tecnológico perdem não apenas eficiência operacional, mas também competição por profissionais.

“O mercado brasileiro já avançou além da fase inicial de adoção de inteligência artificial e entra agora em um novo ciclo, em que o foco das organizações está em escalar iniciativas com impacto concreto no negócio. Nesse contexto, ganha destaque a necessidade de integrar governança, segurança e ética em uma abordagem única de IA responsável”, avaliou Luciano Ramos, Country Manager da IDC Brasil.

Para 56% dos executivos, a IA generativa seguirá contribuindo para o crescimento das empresas brasileiras em 2026, com expectativa de incremento significativo nos ganhos observados até agora. O mercado de crédito e FIDC, que opera sob pressão permanente de spread, inadimplência e custo de captação, encontra na adoção em escala da inteligência artificial um vetor de eficiência que começa a separar os gestores de ponta dos que ainda estão na fase de pilotar.


Fontes: Pesquisa “Impacto nos Negócios pela Adoção de IA no Brasil” — IDC/Microsoft (2026) | Olhar Digital — Link original

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