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O dinheiro programável chegou às salas de reunião das maiores empresas de pagamentos do mundo. Circle e Stripe competem para construir a infraestrutura financeira de um mercado ainda inexistente, e os efeitos já alcançam o mercado de crédito estruturado.
Contexto: A Tese que Derrubou Visa e Mastercard
Em fevereiro de 2026, um relatório da Citrini Research circulou pelo mercado com uma provocação incômoda: e se os agentes de inteligência artificial autônomos simplesmente contornassem as redes de cartões de crédito, liquidando transações diretamente em stablecoins?
A resposta dos investidores foi imediata. Ações de Visa, Mastercard e American Express despencaram até 5% em uma única sessão. A onda de vendas perdeu força em dias, mas a tese não. Ela migrou de uma postagem especulativa no Substack para as teleconferências de resultados das maiores empresas do setor, acelerando o lançamento de produtos e expansões de blockchain que já estavam em gestação.
O conceito central que sustenta toda essa movimentação é o dos pagamentos programáveis: transações executadas automaticamente com base em regras pré-definidas, sem intervenção humana, com liquidação instantânea e custo de frações de centavo. No vocabulário do mercado financeiro tradicional, é o equivalente funcional de um smart contract aplicado ao fluxo de caixa operacional de empresas e agentes digitais.
Para o mercado de crédito privado, essa discussão não é apenas teórica. Ela toca diretamente nos fundamentos da cessão de recebíveis, da automação de cobrança e da programabilidade de fluxos em FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios).
O Que Mudou: Circle, Stripe e a Corrida pela Infraestrutura
A Circle Internet Group e a Stripe estão na linha de frente dessa disputa. Ambas apostam que o próximo grande ciclo de crescimento das stablecoins não virá do varejo especulativo, mas de dois vetores com demanda real e recorrente: tesouraria corporativa e pagamentos autônomos de IA.
No dia 25 de fevereiro, durante sua teleconferência de resultados, Jeremy Allaire, CEO da Circle, foi direto: “Estamos construindo um novo sistema financeiro na internet, e acredito que estamos muito otimistas de que a Circle possa desempenhar um papel fundamental nessa convergência entre IA, stablecoins e blockchain.”
Allaire fez uma distinção importante entre o comércio de IA voltado ao consumidor final e o que ele vê como a verdadeira oportunidade: “O problema a ser resolvido não é como um agente compra algo na Amazon. A verdadeira oportunidade está em tudo o que as IAs precisam consumir umas das outras.”
O raciocínio é concreto. Um agente de IA com especialização jurídica pode atender solicitações de outros agentes que atuam em nome de empresas. Cada consulta pode custar centavos. As taxas fixas dos cartões de crédito tornam esse modelo economicamente inviável; as stablecoins, não.
A Circle já está construindo essa infraestrutura. Lançou o Arc, um blockchain próprio para pagamentos com stablecoins, e testa os chamados nanopagamentos: transações de frações de centavo que permitem a agentes autônomos manter saldo e gastar em diversas redes sem que o custo operacional consuma a margem da operação.
A Stripe, por sua vez, investiu mais de US$ 1,1 bilhão na aquisição de infraestrutura para stablecoins, incluindo a compra da Bridge em 2025, e em parceria com a gestora de venture capital Paradigm está construindo a Tempo, uma blockchain dedicada a pagamentos com stablecoins. O projeto captou US$ 500 milhões com avaliação de US$ 5 bilhões. Visa, Mastercard, UBS e Shopify figuram entre os parceiros.
Análise: O que Dizem os Especialistas e os Céticos
A lógica técnica tem respaldo do mercado financeiro especializado. “As microtransações não se encaixam bem nos sistemas tradicionais em termos de custo, latência e programabilidade”, afirma Mark Palmer, analista da Benchmark-StoneX. “Agentes de IA se beneficiariam de dinheiro programável que pode ser incorporado diretamente em fluxos de trabalho de software sem longos prazos de liquidação.”
Mas os céticos são vocais. Chris Donat, chefe de pesquisa de pagamentos e fintech da BWG Global, pondera que as projeções de que o comércio intermediado por agentes representará mais de 20% do comércio eletrônico são “um tanto otimistas”. Ele destaca um obstáculo estrutural: “O que geralmente ouvimos dos comerciantes é que eles são indiferentes aos métodos de pagamento que aceitam, mas não se darão ao trabalho de aceitar algo a menos que um número significativo de consumidores solicite.”
Os números atuais reforçam o ceticismo. A x402, padrão aberto incubado pela Coinbase para pagamentos entre agentes, reporta volume total de US$ 24 milhões, com 94.000 compradores e 22.000 vendedores nos últimos 30 dias. Em um mercado global de e-commerce que deve atingir US$ 6,88 trilhões em 2026, essa participação é estatisticamente irrelevante.
Há ainda a questão das garantias: stablecoins carecem da proteção contra fraudes, resolução de disputas e extensão de crédito que os cartões oferecem. Um caminho intermediário, apontado por analistas, seria menos disruptivo: agentes realizando transações com cartões virtuais que liquidam em segundo plano por stablecoins, coexistência em vez de substituição.
Perspectivas: O Que Isso Significa para o Mercado de Crédito Privado
A discussão sobre pagamentos programáveis e agentes de IA é mais relevante para o mercado de FIDCs do que parece à primeira vista. Os fundamentos tecnológicos que sustentam essa nova camada financeira (liquidação instantânea, programabilidade de fluxos, automação de cobrança sem intermediação humana) são exatamente os mesmos que a indústria de securitização busca implementar há anos.
Fundos de recebíveis que operam com originadores de crédito digital já convivem com a automação de cessão e cobrança. A chegada de infraestruturas como Arc e Tempo ao mercado pode acelerar a discussão sobre a tokenização de carteiras de recebíveis, tema que a CVM e o Banco Central do Brasil vêm mapeando desde 2023, com avanços na regulamentação de ativos tokenizados.
O próprio conceito de nanopagamento tem aplicação direta em estruturas de FIDC com recebíveis pulverizados, como os fundos de crédito pessoal e marketplace lending, onde o custo de processamento de parcelas pequenas é um gargalo histórico.
“A medida representa um movimento estratégico de reposicionamento de toda a indústria de infraestrutura financeira”, avalia um especialista em estruturação de crédito privado ouvido pela equipe do FIDC News. “O gestor de FIDC que ignorar essa camada tecnológica nos próximos dois anos estará atrasado na largada.”
O calendário para que as transações de agentes se traduzam em volume relevante permanece incerto; o próprio Allaire admite isso. Mas a direção é clara. E no mercado de crédito estruturado, onde as decisões de infraestrutura têm prazo longo de maturação, a antecipação vale mais do que a certeza.
Fontes: InfoMoney/Bloomberg | Valor Econômico, 16/06/2026










