O desconto de valuation entre o Santander Brasil (SANB11) e a matriz espanhola atingiu, em julho de 2026, o maior nível desde a listagem da unidade brasileira na bolsa, em 2009. As ações locais caem 21% no ano, o pior desempenho entre os grandes bancos do país, enquanto os papéis do grupo na Espanha sobem cerca de 24% no mesmo período. Para o mercado de crédito privado, o episódio funciona como termômetro: bancos tradicionais brasileiros seguem sob pressão de inadimplência e concorrência de fintechs, um cenário que ajuda a explicar por que fundos de crédito e estruturas de securitização como o FIDC ganharam espaço como alternativa de financiamento nos últimos anos.
Contexto: um desconto que não para de crescer
A relação entre o preço de mercado da unidade brasileira e seu valor patrimonial por ação (o chamado P/VPA, métrica clássica para avaliar bancos) vem caindo desde o início de 2025, justamente quando ganharam força as conversas sobre um possível fechamento de capital da operação no Brasil. O movimento não é inédito: em 2014, o Santander já havia tentado deslistar a subsidiária por meio de uma troca de ações com a matriz, num momento em que o diferencial de múltiplos também batia recorde. A operação avançou apenas parcialmente, com adesão limitada dos acionistas minoritários, e cerca de 10% das ações da unidade brasileira permaneceram em circulação até hoje, um free float hoje avaliado em aproximadamente R$ 10,6 bilhões.
De lá para cá, a matriz espanhola vem consolidando negócios em seu próprio balanço. Fechou o capital da Getnet, a maquininha que havia listado no Brasil e saiu de bolsa apenas 14 meses depois, em 2022. Fez o mesmo com o financiamento ao consumidor nos Estados Unidos, em 2021, e com a unidade mexicana, em 2023. Neste ano, o grupo ainda integrou o banco britânico TSB, comprado por 2,65 bilhões de libras, e anunciou, em fevereiro, a aquisição da americana Webster Financial por US$ 12,2 bilhões.
O que mudou: analistas voltam a falar em tender offer
O aprofundamento do desconto reacendeu o debate sobre uma possível saída de bolsa da unidade brasileira. “Quando eu olho para o diferencial de valuation entre os dois bancos, vis a vis o que aconteceu no passado, eu não descarto uma tender offer”, disse Thiago Batista, analista do UBS BB. Em relatório de junho de 2025, Eduardo Nishio, da Genial Investimentos, já havia apontado que “com múltiplos descontados, apenas 10% de ações em circulação e forte geração de capital pelo Grupo Santander, o movimento seria viável financeiramente”.
O pano de fundo operacional reforça a leitura de que o banco enfrenta um momento mais difícil no Brasil do que o resto do grupo. Os índices de inadimplência acima de 90 dias subiram de 2,8% para 3,3% nos 12 meses encerrados em março, segundo o balanço do primeiro trimestre. A rentabilidade também destoa: o retorno sobre o patrimônio líquido tangível ficou em 14,8% no primeiro trimestre, ante 26% da unidade espanhola e 15,2% do grupo como um todo, distante da meta de médio prazo de 20% estabelecida para o Brasil. Segundo Batista, o banco freou a expansão de crédito antes dos concorrentes, mas isso não se traduziu na melhora de resultados esperada.
A pressão também aparece na estrutura do banco. Em 12 meses até março, o Santander Brasil demitiu cerca de 6.200 pessoas, 11% do quadro, proporção maior que a de outros grandes bancos brasileiros, e concentrou no país cerca de metade dos fechamentos de agências promovidos pelo grupo em todo o mundo. Houve ainda saída de executivos: o diretor financeiro Gustavo Alejo deixou o cargo no início do ano rumo à XP, Christian Egan saiu da liderança do banco de atacado e investimento meses depois de assumir a posição, e o então presidente Mario Leão foi substituído por Gilson Finkelsztain, ex-presidente da B3.
Análise: ceticismo sobre o timing, mas operação não está descartada
Apesar do desconto recorde, analistas ouvidos pela reportagem original não veem uma deslistagem como movimento iminente. “Não acho que o timing seja o ideal, com o banco focado neste momento em integrar as aquisições da TSB e da Webster”, avaliou Nuria Alvarez, do Renta 4 Banco, em Madri, embora não descarte uma operação futura. O próprio banco minimizou o tema: questionado sobre a possibilidade em fevereiro, Mario Leão respondeu que “a gente não pensa nisso”. Representantes do Santander na Espanha e no Brasil não responderam a pedido de comentário para a reportagem.
Do ponto de vista de crédito privado, o dado mais relevante para gestores e investidores institucionais não é o rumor de deslistagem em si, mas o que ele revela sobre a competitividade do mercado bancário brasileiro. Fintechs como o Nubank consolidaram participação oferecendo cartões e serviços a consumidores historicamente fora do sistema bancário tradicional, forçando bancos como o Santander a reduzir agências, simplificar produtos e buscar receita de serviços em vez de depender do crédito ao consumo, área em que a unidade brasileira tem exposição maior que seus pares locais e, por isso, mais sensibilidade a juros altos e inflação.
Perspectivas: o que monitorar
Analistas do Oddo BHF, em relatório de 24 de junho, mantêm o Brasil como estratégico para o grupo e citam a possibilidade de uma “surpresa positiva”, mas seguem céticos quanto à capacidade do banco de retomar a meta de 20% de retorno sobre patrimônio dado o nível de concorrência local. Em Madri, o presidente do grupo, Hector Grisi, afirmou esperar que os esforços de reestruturação comecem a gerar frutos em breve, com redirecionamento de capital para consumidores de maior renda e para grandes empresas, um movimento que, na prática, tende a abrir ainda mais espaço para fundos de crédito privado e FIDCs atuarem no financiamento das faixas de tomadores que os bancos tradicionais decidirem deixar de priorizar.
Para o mercado de FIDC, o caso Santander Brasil funciona menos como notícia de renda variável e mais como sinal de tendência: bancos incumbentes revendo apetite de crédito ao consumo tendem a liberar espaço para estruturas de securitização e fundos especializados que assumem esse risco com pricing próprio. É esse desdobramento que deve seguir sendo acompanhado nos próximos trimestres.
Fonte: Bloomberg Línea, “Santander Brasil: ação cai 21% no ano e desconto em relação à matriz atinge recorde”, 07/07/2026 (Matheus Piovesana, Cristiane Lucchesi, Macarena Munoz Montijano)













